Persuasão
PERSUASÃO
Sinopse
A mais poderosa habilidade de persuadir
pessoas, ou a nós mesmos, não está apenas na precisão da argumentação, mas
principalmente na compreensão do indivíduo a ser convencido, suas crenças e
convicções e principalmente seus desejos e anseios. Somente essa compreensão
do indivíduo já é uma poderosa ferramenta dos grandes vendedores para
mobilizar as escolhas desejadas.
Contexto
Os caminhos e estratégias que utilizamos para
fazer escolhas e tomar decisões são, em geral, inconscientes! Isso já foi
comprovado cientificamente, porém pode ser um tanto estranho de aceitar. Por
mais racionais que sejamos, a escolha (sempre parcial) dos argumentos servem
para validarmos nossas decisões, caso contrário, se pudéssemos levar em conta
todas as complexas variáveis da realidade e ainda fôssemos capazes de
pondera-las todas, seria quase impossível tomas decisões verdadeiramente
imparciais, racionais e lógicas!
Artigo
Há algum tempo tive a oportunidade de viver
uma experiência bastante interessante. Era um dia comum, no qual tinha várias
pequenas tarefas a realizar. Quando saí de casa (e escritório também: Home
Office), o tempo já era escasso. Ao chamar o elevador, esperei alguns minutos;
chegando à portaria do prédio, o porteiro não estava na guarita para abrir o
portão; ao percorrer o primeiro quarteirão, alcancei a esquina no exato
momento em que o semáforo se fechava para mim (o pedestre)... Já parecia ser
um dia desastroso (você conhece as Leis de Murphy?). Repetidamente, consultava
o relógio e constatava que, paulatinamente, o esforço seria mais árduo.
Esse padrão de bloqueios e limites ainda se
repetiu algumas vezes, até conseguir chegar ao destino intencionado: a agência
do banco! Finalmente, na agência, enquanto preenchia um recibo de depósito,
avistei, após mais de um ano sem vê-lo, um grande amigo e cliente – fiquei
muito feliz com esse encontro. Pude mostrar-lhe o livro que havia publicado e do
qual ele não pudera presenciar o lançamento. Pude, também, reativar os
contatos comerciais que, esporadicamente, estavam ocorrendo apenas por telefone.
Tendo terminado as operações no banco, já de
saída a caminho de casa, percebi que me esquecera de algo: um extrato. Voltei
e, curiosamente, encontrei uma amiga, colega de escola e aluna de Tai Chi Chuan,
que não via há cerca de oito anos! Fiquei ainda mais feliz, pois havia perdido
o contato por todo esse tempo.
Pensei, então, o quão valiosas tinham sido
aquelas dificuldades que retardaram minha chegada ao banco. Pensei, também, que
se tivesse uma "bola de cristal" através da qual me fosse possível
antever aquele futuro, provavelmente teria me poupado da tamanha irritação que
me acompanhou durante quase todo o percurso ao banco.
Comumente somos incapazes de avaliar as
profundas relações causais entre eventos em nossa vida possivelmente por
vivermos numa grande e complexa rede de múltiplas causas e efeitos. Muito
poucas vezes temos uma oportunidade como essa de observar em perspectiva o
encadeamento dos fatos, isso porque as relações causais temporais e espaciais
são muito extensas.
Então vivemos, na grande maioria das vezes,
nos esforçando para nos esquivar de problemas. Se, de fato, tivéssemos como
prever o futuro, então mesmo os contratempos teriam um sentido e significado,
talvez, bastante diferentes. Observe em sua memória se alguns dos obstáculos
enfrentados ou contornados não acabaram por proporcionar resultados bastante
positivos. É somente uma questão de perspectiva e dimensão de tempo e espaço.
A história humana está repleta de casos e exemplos de atribuições de
significados positivos a eventos aparentemente negativos.
Por ouro lado, agora com outros olhos,
poderemos observar uma outra estrutura de funcionamento da mente humana: você
leu este ensaio, até aqui, e possivelmente concordou com algumas afirmações e
descordou de outras – neste momento, atentaremos para outra dimensão da
compreensão: como nós operamos nossas convicções. Como nós fazemos para nos
convencer de alguns fatos e desacreditar outros?
Coloquemos, agora, outros "óculos".
Foi feita uma pesquisa em uma universidade americana na área de psicologia
comportamental com as seguintes características (cenário): um rapaz com
material escolar em mãos mantinha-se próximo a uma máquina copiadora e, toda
vez que a fila de pessoas que aguardavam a vez para tirar cópias atingia cinco
candidatos, ele se aproximava do primeiro da fila e pedia para passar à sua
frente. Na primeira fase do experimento, esse pesquisador, que se identificava
ficticiamente como estudante, pedia a oportunidade de "furar a fila"
justificando que seu professor o enviara com urgência para fazer as cópias,
pois dependia desses materiais para uma atividade (quem sabe, uma prova). Nessa
fase, obteve permissão para "furar a fila" em 70% dos casos. Na
segunda fase, pedia ao primeiro da fila mas não apresentava nenhuma
justificativa. Apenas pedia: "Posso passar à sua frente?". Aqui
obteve permissão em 40% das ocasiões. Se analisássemos a experiência apenas
até aqui, provavelmente tirássemos algumas conclusões precipitadas.
Surpreendentemente, o resultado da terceira fase apresentou uma dimensão da
estrutura de nossas decisões, talvez ainda impensada: ao pedir para operar a máquina
para o primeiro da fila, oferecia uma justificativa completamente non sense
(absurda), como, por exemplo: "Deixe-me tirar essas cópias na sua frente
porque hoje vai chover e os jacarés não poderão tomar sol".
Impressionante: 70% das pessoas permitiram que o rapaz se antecipasse nas cópias.
Essa pesquisa parece sinalizar um hábito
bastante comum em nossa cultura: o da aceitação dos porquês e o vício de se
encontrar uma justificativa para tudo. De fato, muitas vezes, pouco importa a
precisão da análise ou o compromisso com a verdade: "Foi assim
porque..."; "Foi aquilo por..."; "Será isso
porque...". Como se realmente as relações causais no universo da experiência
humana fossem assim simples. Poderíamos até perguntar: "Por quê...?".
Observe agora este texto através deste outro
ponto de vista: perceba suas concordâncias e/ou discordâncias em função do
encadeamento semântico e dos porquês. Como você se convence ou aceita aquilo
que você escolheu para se convencer ou aceitar?
Quase todos nós já tivemos a oportunidade de
conhecer palestrantes, professores ou mesmo políticos cuja congruência, coerência
ou mesmo clareza de apresentação na comunicação variam desde a completa
inteligibilidade e brevidade de discurso até a total prolixidade e
ininteligibilidade, ou seja, desde pessoas que falam pouco e dizem muito até
pessoas que falam muito e não dizem nada.
Minha ex-sócia, enquanto freqüentava o
mestrado em psicologia na universidade, comentava ter uma colega doutoranda,
acadêmica e sem experiência profissional fora da universidade, cujo discurso
era complexo e muito hermético. Ela, por sua vez, sendo consultora e empresária,
tinha ótimas avaliações de sua orientadora pela simplicidade, coerência e
objetividade de discurso e redação. Enfim, no que, de fato, se constitui o
objeto da comunicação humana?
Muitas vezes entrei para grupos de estudo nos
quais algumas vezes parecia que os participantes procuravam "pêlo em
ovo": discutiam teorias sem um mínimo de compromisso com a própria
observação e percepção, à procura de fundamentação teórica para saber o
que responder quando questionados.
Conclusão
Como diz o ditado – as coisas nem sempre são
o que parecem ser – essa reflexão pode nos ajudar a aceitar nossa condição
humana: falível, parcial e emocional. Há muitas evidências científicas que
comprovam que nossa forma de ser e agir não pode ser comparada com as máquinas,
mesmo que tenhamos tentado bastante: quanto mais nos esforçarmos para não
agirmos humanamente, paradoxalmente mais humanos nos tornamos, pois a própria
obstinação já é uma característica da condição humana. Assim, a única
atitude que pode nos salvar de escolhas inadequadas talvez não sejam os
resultados delas, mas sim as intenções e anseios que as fundamentaram!
Autor: Walther Hermann / Instituto de Desenvolvimento do Potencial Humano |