Costumamos
começar nossas palestras e seminários sobre marketing com a seguinte
pergunta: quem é o melhor vendedor do mundo? As respostas variam desde
Jesus Cristo até nós mesmos - afinal, como filhos da mesma divindade,
acreditamos ter muito em comum com o Filho do Homem.
Depois de algum estímulo e muita discussão é comum que os participantes
destes eventos percebam que o melhor vendedor do mundo é o cliente
satisfeito. Afinal, que argumento pode ser mais crível do que aquele
fornecido por um cliente que teve uma necessidade ou desejo plenamente
atendido por uma empresa?
Muitas definições
foram criadas para tentar explicar o que é o marketing. Mas a que acreditamos
ser a mais adequada aos dias de hoje é a que diz que "marketing
significa estar integralmente comprometido com o sucesso do cliente".
Contudo, existem
várias razões que impedem que esse comprometimento integral seja vivenciado
na prática. Metas a atingir, mercados a conquistar, lucros a realizar -
sempre no curtíssimo prazo - parecem impedir que as organizações
verdadeiramente busquem a satisfação de seus clientes.
Não faltam técnicas. A verdadeira carência do mercado está na pequena
quantidade de profissionais que demonstrem efetiva vocação para aprender com
o mercado. Em qualquer reunião, encontraremos sempre pessoas que tem uma
idéia "infalível" para convencer o consumidor a comprar alguma
coisa. Esses são os profissionais que ainda acreditam que é possível vender
geladeiras para esquimós. Nessas reuniões, quando alguém tenta lembrar que
o consumidor está cada vez mais consciente de sua importância para a
sobrevivência das empresas, sempre aparece outro para lembrar um momento do
passado em que, por meio de grandes esforços de publicidade e propaganda, uma
organização foi capaz de convencer um grande grupo de pessoas a comprar
centenas de milhares de unidades daquele produto que há muito já estava
obsoleto. Nesse momento o "advogado do diabo", temeroso de ser visto
como um pessimista incorrigível, diz que suas dúvidas não existem mais e
todos passam, alegremente, a discutir a verba da próxima campanha.
Outro tipo
de discussão, também muito comum nas organizações, é aquela em que é
proposta a derrubada de todos os paradigmas passados para ingressar
definitivamente na pós-modernidade, por meio da adoção de programas de
promoção da fidelidade e lealdade, baseados na tendência à individualização
dos esforços de marketing. O futuro está no fortalecimento da relação com
os clientes, dizem eles. O nosso conhecido "advogado do diabo"
questiona se não continuarão existindo clientes mais voltados para os
aspectos da transação. A resposta é que esses clientes sempre existirão,
mas representarão o segmento small ticket e conseqüentemente deverão
ser atendidos por estruturas secundárias - terceirizadas e, por conseguinte,
mais baratas.
O que essas
conversas não consideram é que as forças de mercado são geradas pelas
inovações descontínuas, ou pelo que mais recentemente veio a se chamar
mudanças de paradigmas. Segundo Geoffrey A. Moore autor do livro
"Dentro do Furacão: Estratégias de Marketing para Empresas de
Ponta", "essas mudanças começam com o surgimento de uma nova
categoria de produto que incorpora uma tecnologia revolucionária, propiciando
benefícios sem precedentes. Elas são imediatamente colocadas como as
substitutas naturais de toda uma classe de infra-estrutura, conquistando seus
primeiros adeptos e previsões entusiasmadas de uma nova ordem mundial. Mas o
mercado é uma instituição conservadora e reage contra as novas mudanças,
preferindo continuar com o status quo. Durante um bom tempo, embora
muito se escreva sobre o novo paradigma, pouca coisa economicamente
significativa acontece. De fato, às vezes a inovação jamais é adotada,
voltando a um de seus estágios iniciais de indefinição do negócio, como
ocorreu com a inteligência artificial na década de 80 e com a computação
baseada na caneta ótica no início da década de 90. Mas, em muitos outros
casos surge um momento de mudança em que qualquer mercado, sob a pressão do
desequilíbrio sempre crescente na relação preço/desempenho, transfere sua
lealdade antiga para a nova arquitetura".
Como nos
acostumamos à idéia de que a infra-estrutura, para ser útil, deve ser
padronizada e global, temos dificuldade de aproveitar tendências e assumir
uma conformação organizacional que seja mais adequada ao momento de mercado
que cada uma de nossas linhas de produto vivência. Nossos planos de marketing
foram definidos e aprovados 3 meses antes do início do atual período fiscal.
As estratégias foram pré-determinadas e se buscou garantir seu alinhamento
com guide-lines da matriz. Mas o mercado não reagiu como nossos
modelos haviam simulado. Como na antiga história, ninguém foi capaz de
pendurar o sino no pescoço do gato! Depois da desilusão, promovemos a
tradicional caça às bruxas. Procuramos os culpados. Acabamos por punir o
maior dos inocentes: o próprio mercado.
Outro passo na
nossa jornada rumo ao desenvolvimento e aprimoramento gerencial é compreender
aquele que é a nossa própria razão de ser e de existir. Não é mais possível
cooptá-lo para nossas idéias, através de esforços de convencimento pessoal
ou impessoal. É preciso aprender que tipos de compromisso teremos que assumir
com os clientes para que eles queiram, agora e sempre, continuar a comprar
nossos produtos e serviços.
João Baptista Vilhena
Diretor do MVC
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