Por uma Ecologia Mental
Por uma Ecologia Mental
Passava das 10:30 da noite daquela última terça-feira
de abril. Eu acabara de dar uma aula sobre Administração de Negócios para o
terceiro ano da Turma de Sistemas de Informação na Universidade de Santo Amaro
- UNISA. Mal acreditei no que estava vendo à minha frente, quando entrei na
movimentada avenida Adolfo Pinheiro: saindo - por arremesso - pela janela de um
automóvel Vectra, um saco de lixo desses de sessenta quilos! Ao ultrapassar
aquele automóvel, tentei ver o rosto do autor de tamanha proeza. Era uma
mulher, jovem e bonita! - E pensar que pelas normas da OIT -
Organização Internacional do Trabalho a mulher não pode fazer esforço físico
de movimentação de peso de mais de vinte quilos! Fiquei pensando, também,
que uma boa parte do cérebro límbico - herança dos mamíferos - daquela moça
seguiu dentro daquele saco de lixo!
Não refeito do susto, segui pensando numa
ecologia mental, numa ecologia profunda, que sustenta que as causas do déficit
da Terra não se encontram apenas no tipo de sociedade que atualmente temos.
Mas, também, no tipo de mentalidade que revigora, cujas raízes alcançam épocas
anteriores à nossa história contemporânea, incluindo a profundidade da vida
psíquica humana, consciente e inconsciente.
Há nas pessoas instintos de violência,
depredação e dominação: paradigmas sombrios que as afastam da benevolência
e generosidade em relação à vida e à natureza. Aí, dentro da mente humana,
se iniciam os mecanismos que levam as pessoas a uma guerra contra a Terra e que
se expressam por uma cultura antropocêntrica, isto é: o fato de o ser humano
achar que é o centro da vida. "Todos os seres humanos são
interdependentes e vivem dentro de uma teia de relações", diz Hanna
Arendt, filósofa alemã, autora de "A Condição Humana".
Todos somos importantes. Não existe esse
conceito medieval de alguém ser rei/rainha e considerar-se independente sem
precisar dos outros. A moderna cosmologia nos ensina que tudo tem a ver com tudo
em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Mas, o ser humano se esquece
dessa realidade. Afasta-se e se coloca sobre as coisas ao invés de sentir-se
junto delas, numa imensa comunidade planetária e cósmica.
Importa recuperar atitudes de respeito, veneração
e preservação para com a Terra. Isso somente se consegue se antes for
resgatada a dimensão do feminino na mulher e no homem. "Pelo feminino o
ser humano se abre ao cuidado, se sensibiliza pela profundidade misteriosa da
vida e recupera sua capacidade de encantamento", ensina o teólogo
brasileiro Leonardo Boff. O feminino, portanto, ajuda a resgatar a dimensão do
sagrado. E o sagrado impõe sempre limites à manipulação do mundo,
fundamentais para a salvaguarda da Terra e para o equilíbrio ecológico no
campo e na cidade. Certamente sem seguir o Vectra daquela mulher; que despeja na
via pública da cidade o lixo que ela não quer!
Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor
Universitário e Consultor de Empresas para Programas de Engenharia da
Qualidade, Antropologia Empresarial e Gestão Ambiental. www.guiarh.com.br/paulobotelho.htm |