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QUANDO O TRABALHO MATA

QUANDO O TRABALHO MATA

Aos 25 anos de idade, mal mantendo-se de pé, Roberto me recebe em seu casebre, de telha de amianto, naquela ensolarada tarde de novembro de 1994. Em menos de dez minutos, nossa conversa é interrompida por uma tosse cavernosa seguida de falta de ar de meu anfitrião doente. Operador de máquinas, afastado por invalidez de uma fábrica de artigos refratários, em Poá, na Grande São Paulo, Roberto era portador de silicose, contaminado por ingestão de Sílica Livre, com quadro de fibrose pulmonar irreversível.

 Fato igualmente pungente já ocorrera na cidade mineira de Nova Lima, por volta dos anos 70. Está lá, até hoje, uma mina de ouro desativada, que viveu o seu período aurífero e pertencera a uma empresa inglesa. Seus operários, nas entranhas da terra, perfuravam a rocha com suas brocas e picaretas respirando, durante anos, a poeira de pedra que aquela operação medieval produzia. Sem nenhuma proteção, os mineiros contraiam a silicose causada pelo depósito do pó de pedra em seus pulmões sem proteção. E a silicose, além de encurtar a vida e a capacidade de trabalho daqueles trabalhadores provocava uma tosse crônica e asfixiante como aquela do Roberto, de Poá. - E pensar que ontem - como hoje - muito pouco ou quase nada mudou nos procedimentos de segurança do trabalho deste país inseguro e injusto!

 O que torna o trabalho tantas e continuadas vezes nocivo, perigoso e mortal?  -  O que o torna assim é a forma como é organizado pelas empresas, provocando fadiga, exaustão e as mais variadas doenças ocupacionais em seus trabalhadores.

Expostos a atmosferas contaminadas e a acidentes, os trabalhadores é que sabem como as empresas poderiam agir de forma preventiva para evitar os processos poluidores; as saídas ocultas de poluentes não tratados; a disposição clandestina de lixos tóxicos!

 Nas noites de Nova Lima, quando buscava repouso, a cidade era sacudida por um trovão surdo e cavernoso que, vindo dos casebres dos trabalhadores, rolava em ondas recorrentes até ao redor da Serra do Curral, em Belo Horizonte! Era a tosse da morte, sintoma e denúncia da silicose que os roía!

Os ingleses, então, perturbados em seu sono angelical, ao invés de adotarem medidas eficazes contra a silicose, resolveram enfrentar o problema pelo ataque direto ao sintoma. Montaram lá uma fábrica de xarope que ao mesmo tempo produzia, para consumo geral, matéria prima para um delicioso guaraná! Assim, foi transformada, também, em fonte de renda - e de sossego - permitindo que todos dormissem em paz para honra e glória de Sua Majestade Britânica!

 Foi a silicose sem solução de Poá e de Nova Lima trabalhando em silêncio. O silencioso destino dos trabalhadores ou operários inconvenientes, doentes, mortos, cremados ou não. Não é ser branco ou preto, mas ser cinza. O cinza da dor e da morte!

 

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Consultor de Empresas para Programas de Engenharia da Qualidade, Antropologia Empresarial e Gestão Ambiental. Membro da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. www.paulobotelho.com.br

 

 



 

 

 

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