Questões Estratégicas Atuais
Questões Estratégicas
Atuais
Neste ano, fui contratado por pelo
menos doze importantes empresas para executar trabalhos de consultoria e
treinamento nas áreas de estratégia, planejamento, motivação e cultura
organizacional. Dentre eles podem ser destacados os seguintes clientes: Fundação
Getúlio Vargas, NEC do Brasil, Lojas Renner, Grupo Ipiranga, Unimed(s), BNDES
– Banco Nacional de Desenvolvimento e Social, BDMG - Banco de Desenvolvimento
de Minas Gerais, SENAC SP, Petrobrás – Superintendência do Meio-Ambiente,
Instituto Alumni, Formiline e Braspérola.
Diferentemente do processo de
conferências, estes trabalhos permitem-nos ir muito mais a fundo no ambiente
das organizações, favorecendo a análise mais adequada dos impactos produzidos
pelas mudanças do ambiente externo e as respostas mais efetivas que estas
organizações devem formular diante deles. Algumas palestras(**), entretanto,
também serviram como subsídio para esta matéria. Seja através de reuniões
de breefing, seja como conseqüência de intensos debates posteriores, consegui
recolher material importante para construir este entorno do momento empresarial
atual.
No presente artigo desenvolverei
uma série de reflexões sobre este ambiente estratégico do momento. Na próxima
matéria no Insight MVC/ Guia RH, vou procurar resumir as principais etapas de
um plano básico de atividades e estratégias que permitem colocar as empresas
em um caminho de desenvolvimento sustentado. Agora, portanto, estamos fazendo
uma avaliação do ambiente externo; no próximo artigo vamos indicar as orientações
relativas ao ambiente interno. É sempre importante lembrar que minha intenção,
com estas reflexões, é apresentar um grande resumo de vivências práticas e
reais. É claro que, algumas vezes, sinto-me obrigado a acompanhar este conteúdo
com conclusões conceituais que desenvolvemos em nossas pesquisas e reflexões.
Em meu ponto de vista, as cinco
grandes questões estratégicas do ambiente externo atual são as seguintes:
-
a questão da percepção
da mudança;
-
a questão da
volatilidade;
-
a questão ético social;
-
a questão dos sistemas
de mercado
-
a questão do ambiente
humano das organizações.
1 – A questão da percepção
da mudança
Este primeiro ponto, verificado em
quase todas as organizações nas quais temos trabalhado, talvez seja o
principal foco dos graves problemas atuais com as quais elas se defrontam. Este
ano, tenho perguntado sempre aos ouvintes de minhas palestras (um total de mais
de 40 mil pessoas) a respeito do momento em que perceberam de forma consistente
a Era de Mudanças que atravessamos. Em verdade, tento obter respostas que me
indiquem quando efetivamente estas pessoas sentiram este momento diferente que
vivemos. Afinal, quando a ruptura chegou à cabeça das pessoas? Em termos médios,
cerca de 15% dos entrevistados indicam a década de 80, 30% a apontam para o ano
do Plano Real (1994) e, a maioria, como era de se esperar, escolhe o ano de
1990.
Entendo como de fundamental importância
desenvolver em todos a percepção de que este grande momento tem raízes mais
longínquas. Alvin Tofller escreveu o Choque do Futuro em 1970 e, mais do que
tudo, a Terceira Onda em 1980. Uma das bases mais importantes da Revolução da
Natureza Humana – os movimentos da Nova Era, da Conspiração Aquariana e do
Ponto de Mutação tiveram suas idéias de origem forjadas na segunda metade da
década de 60. A Revolução Feminista, movimento maior, que provocou grande
parte das mudanças sociais de hoje, foi liderada por Betty Friede em 1969 e o
documento síntese de antecipação do futuro do Clube de Roma – Os Limites de
Crescimento –, coordenado por Aurélio Peccri, foi publicado em 1972. Por isso
mesmo, devemos concluir que a crise, a mudança e a incerteza, seja lá o que
for, está fazendo cerca de trinta anos.
A "crise balzaquiana"
tem que ser colocada dentro dos nossos processos de decisão. Enquanto isto, com
honrosas exceções, ainda prevalece nas empresas a mentalidade burocrática do
organograma; nas escolas preparam-se alunos para passar de ano e nas
universidades os jovens são enganados na sua formação, sendo simplesmente
estimulados a desenvolver competências para um mercado de emprego que não
existe mais. A revista Fortune comprova essas idéias e indica que organizações
americanas implantaram apenas 5% das mudanças conhecidas por suas análises. Lá,
ainda faltam 95%; acredito que aqui os números não são diferentes.
2 – A questão da
volatilidade
É muito importante ressaltar que
o caráter da mudança desta época que estamos vivendo é diferente. Em
verdade, como colocou Charles Handy, vivemos uma Era de Paradoxos. Da concorrência
heterodoxa (o Pão de Açúcar disputa mercado com o Pizza Hut, A Globo com a
Internet e o Carrefour com a Shell), à volta de épocas retrógradas, (as
Tubainas passam a ser muito maior ameaça para a Coca-Cola e a Pepsi), passando
pelo elevador Nasdaq, pela desestatização, pela globalização, pela
competitividade, pelo comércio eletrônico e por uma série infindável de
outras guerrilhas, conclui-se que o grau de concretude e previsibilidade de hoje
é completamente diferente de anos atrás. Vivemos um novo jogo, com novas
regras. A quebra de paradigmas é mais séria do que prevíamos, mesmo quando
utilizávamos cenários mais heterodoxos. A mudança do jogo das empresas é
mais profunda do que simplesmente jogar vôlei com os pés. Não estamos
incluindo uma nova regra em um jogo velho. Na realidade, saímos do voleibol
para o beisebol ou, pior ainda, para o Badmington. Por isso, Jack Welch afirmou:
"nós vamos entrar no comércio eletrônico de qualquer forma e muito
rapidamente pois, caso contrário, seremos a qualquer momento surpreendidos por
um novo concorrente que tomará 20% de nosso mercado e cujo nome nem conhecíamos
há dois anos".
3 – A Questão ético –
social
Peter Drucker, no alto de sua
sabedoria, afirma que daqui a duzentos anos os historiadores não destacarão a
Internet nem a globalização como os principais movimentos da agenda da troca
do Século XX pelo Século XXI. Em sua visão o grande destaque será a revolução
antropológica que vivemos, da qual emana a responsabilidade individual como
principal reforma. Estendendo o escopo de seu raciocínio, podemos inferir que
neste fluxo de variações, mudará também o papel da empresa. De um mero
instrumento gerador de lucro, as organizações passarão a ser um verdadeiro
agente de desenvolvimento social, cumprindo não simplesmente os objetivos de um
negócio, mas tentando defender uma causa que certamente estará ligada ao
conceito da empresa cidadã e da responsabilidade social. Ética, cada vez mais
será um fator de diferenciação competitiva.
4 – A Questão do sistema de
mercado
A revolução infotecnológica não
permite apenas a infinitização da memória, da capacidade de cálculo e de
integração dos agentes em movimento linear previsível. Muito mais do que
isto, ela vai transformar a estratégia de relação de trocas lato senso entre
clientes e fornecedores, estabelecendo novas formas de pricing (políticas de
preço) que vão causar uma brutal revolução nos sistemas de compra e venda.
Em grande visão, o poder de negociação, sempre concentrado nas mãos de
fornecedores ao longo do século XX, mudará sua linha central para os clientes
que terão cada vez mais influência nas condições finais. Negociações
abertas, exposição completa de preços e condições, leilões, sistemas pay
per value, yield management e até gratuidade serão incorporados nesses novos
processos e substituirão a jurássica tabela de preços do século passado.
5 – A Questão do ambiente
humano
Infelizmente a grande maioria das
empresas ainda não percebeu que seu verdadeiro diferencial competitivo é o Ser
Humano. Sistemas e processos efetivos de comunicação, integração, sinergia,
inteligência competitiva, administração do conhecimento, atração e retenção
de talentos, capital intelectual, cultura, clima, remuneração variável, evolução
de empregados para associados, entre outros, ainda são relegados a níveis
ridiculamente baixos e incompatíveis com a necessidade de formação de um
conjunto de fatores críticos de sucesso consistente com o momento atual. Quando
em minhas palestras exponho minhas idéias sobre a elaboração de um Balanço
da Felicidade do Empregado nas empresas, muita gente esconde o riso em um misto
de uma postura de vergonha e espanto. Cada vez mais, comprova-se que cultura e
ambiente humano acompanhados de um forte conjunto consolidado de crenças e
valores, são indispensáveis para a construção do desenvolvimento sustentado
de qualquer organização. Nesta direção, manter a auto-estima em permanente
estado de efervescência, principalmente diante dos desafios da mudança, também
é atributo-chave a ser consolidado nesses novos tempos.
** Algumas atividades,
especificamente, foram muito ricas – Lojas Americanas, Sindicatos das Escolas
Privadas de Minas Gerais, Banco Itaú, Instituto Austo, USP e várias
Universidades.
Marco
Aurélio Ferreira Vianna
Presidente do Instituto MVC
www.institutomvc.com.br |