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Redescobrindo Pessoas

 

A referência abaixo está no livro “A Empresa Totalmente Voltada Para o Cliente” de Richard Whiteley (Editor Campus, página 121). Reproduzo o caso aqui com outro propósito, diverso daquele do autor. Faço-o para ilustrar um imperativo da Gestão de Pessoas: (re) descobrir as potencialidades do time profissional. Resumirei o caso para os meus propósitos: A oportunidade estava em algo que não cheirava bem. Nos anos 60 a Joban Kosan, uma mineradora de carvão do Japão, estava em vias de desaparecer. Além da pouca rentabilidade do produto, o carvão, ela se deparava com um problema sério: a maioria das terras da empresa estava inundada por água impregnada de enxofre, que inundava as minas e criava piscinas de água amarelada e fétida. A direção da empresa queria utilizar as terras para outros fins. Entretanto, o que faria com aquela água? E aquele cheiro do enxofre, não seria um problema permanente? O que fazer com os empregados da mina?“Foi ai que alguém teve uma idéia de gênio. Não tente se livrar da água; use-a.


Atualmente, a Joban é famosa, não por suas minas de carvão (há muito abandonadas), mas como uma agradável estância de fontes sulfurosas quentes!”. O empreendimento de sucesso são as Estâncias Havaianas Joban Spa. “O Gerente Geral do spa é um antigo mineiro de carvão; o responsável pela qualidade veio de uma fundição associada”. O caso ilustra muita coisa sobre administração de negócios: empreendedorismo, visão estratégica, criatividade, inovação, etc. Mas o foco que pretendo sublinhar é o da Gestão de Pessoas. Em primeiro lugar, note que a empresa estava preocupada com “o que fazer com os empregados da mina”; em segundo, observe que o Gerente Geral é um antigo mineiro de carvão. Sabemos que as condições de relações do trabalho no Japão eram e ainda são, muito diferentes das do mundo ocidental; as peculiaridades culturais do Japão contribuem muito para isso. Porém, esse fato, em nada diminui o comportamento ético adotado pela empresa; ao contrário coloca-o em evidência. Empresas são organismos com responsabilidade social e suas condutas refletem-se na sociedade.


Vale perguntar: Quanto de irresponsabilidade social de empresas grassa pelas ruas e cidades do Brasil? Mas essa é uma questão ampla demais para ser tratada aqui. O que quero chamar à atenção é ao fato de que a Joban tem como Gerente Geral em seu Spa , um ex-mineiro de carvão. Alguns indagarão: Como pôde um ex-mineiro tornar-se Gerente Geral de um Spa? A resposta a isso (penso eu), é simples: a Joban redescobriu a força dos membros de seu time. Partindo da preocupação do que fazer com as pessoas ao mudar o negócio, eles procuraram identificar as qualidades até então não verificadas em seus trabalhadores. Note ainda, que o responsável pela qualidade é oriundo de uma fundição. O que há de similaridade entre uma fundição, uma mina de carvão e um Spa? O que os credenciava a desempenharem seus trabalhos em atividade tão díspar? Como poderiam obter sucesso em suas novas atribuições?
Podemos supor que eles são profissionais talentosos, criativos, proativos, empreendedores, etc. Mas o fato é que isso necessitava ser descoberto e a Joban o fez.

Neste ponto é de se perguntar:

· Quantas pessoas estão por ser descobertas em nossas empresas?

· Que talentos desconhecidos têm nosso Arquivista do Almoxarifado e nossa Recepcionista?

· Como podemos torná-los mais produtivos à empresa?

· Podemos oferecer oportunidades para que ampliem seus horizontes?

Atitude e valores sobressaem como indicadores do comportamento organizacional da Joban. Ela não pratica sua responsabilidade social porque isso é bonito e cai bem publicamente, ela o faz porque é bom para todos os envolvidos. Ao invés de gastar um bom dinheiro buscando profissionais no mercado, ela adotou como princípio usar as potencialidades de seu time. Fazendo uma analogia com o esporte bretão, lembro do Lima, um jogador do Santos da era Pelé. Ele jogava em qualquer posição. Originalmente era um volante, mas o técnico sempre o aproveitava na lateral direita, na ponta esquerda, como ponta de lança, etc. Até onde sei, chegou a jogar no gol quando o Gilmar foi expulso numa determinada partida. O foco da questão é que o Lima ampliou suas especializações. O técnico foi fundamental nisso, soube aproveitar seus talentos; mas o fato é que ele, o Lima, tinha tais talentos. Fosse o técnico alguém formal e conservador, jamais utilizaria ou mesmo perceberia tais potencialidades. Os dirigentes permitiram liberdade total ao técnico para explorar essas possibilidades; fato que não é de todo comum nas organizações.


O Santos daqueles anos foi Bi Campeão Mundial de clubes e produziu uma geração de talentos sem igual na história do futebol brasileiro. Alguns dirão: mas é tudo futebol. Sim, e isso reforça o argumento que apresentei. Imagine aquela Secretária que está na empresa há uns quatro anos, é muito eficiente, controla bem toda agenda do Gerente, tem ótimo relacionamento com clientes e fornecedores, etc. Será que ela poderia ser a responsável pelo refeitório da empresa? Será que ela poderia estruturar um departamento de atendimento aos clientes? Será que ela pode ampliar suas possibilidades profissionais? Será que estamos aptos a identificar essas potencialidades e aproveitá-las?Pois é, esse é um desafio que pode mudar a face de nossas empresas. Podemos perceber que a solução sempre esteve ali, debaixo do nosso nariz. É preciso sentir o cheiro das coisas. Não é preciso esperar que as coisas comecem a cheirar mal para fazer isso. Mas se estiverem, mantenha a calma e olhe à sua volta, você pode estar diante de uma ótima oportunidade de renovação de sua empresa.

Sérgio Compagnoli

 

 



 

 

 

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