Reflexões sobre a Avaliação Individual de Desempenho
Reflexões sobre a Avaliação
Individual de Desempenho
Entendemos por Avaliação Individual de
Desempenho o processo de comparação entre o resultado efetivo e o resultado
esperado do trabalho de uma pessoa em uma organização, segundo critérios e
medidas pré definidos.
Devido a praticidade e objetividade, características
oriundas a forma como vem sendo empregada hoje em grande parte das organizações,
a Avaliação Individual de Desempenho ocupa um papel cada vez mais relevante na
mensuração e monitoramento do resultado do trabalho das pessoas, podendo
inclusive alimentar outros processos de Recursos Humanos (como capacitação e
gestão de desempenho) e servir como base para tomada de inúmeras decisões
sobre carreira e remuneração.
Entretanto, a grande aceitação e o mencionado
papel de crescente importância, que a Avaliação Individual de Desempenho vem
conquistando no mundo empresarial, nos convidam a refletir sobre sua verdadeira
validade e eficiência. Até que ponto este processo pode realmente ajudar as
empresas a atingir seus objetivos? Como seu funcionamento pode impactar no
trabalho em equipe? Quais são suas implicações motivacionais? Em fim, até
que ponto, e por que motivo, a Avaliação Individual de Desempenho é (ou não
é) válida nas empresas?
Vista sob um enfoque crítico e analítico, a
Avaliação Individual de Desempenho é uma ferramenta de controle
organizacional sobre o trabalho das pessoas, utilizada para alinhar a ação dos
funcionários aos objetivos pretendidos pela empresa. Seu propósito é garantir
que o trabalho, desenvolvido por cada uma das pessoas que integra a organização,
esteja em conformidade com o que a organização espera em termos de realização
coletiva.
Através da sua dinâmica de funcionamento, que
envolve cobrança explícita e implícita, e com respaldo do sistema
institucional (que discutiremos mais a frente), a Avaliação Individual de
Desempenho procura demonstrar aos indivíduos não apenas quais metas ou
atividades devem ser realizadas mas, também, quais comportamentos e atitudes
devem ser seguidos e, que portanto, são aprovados pela organização. Então, a
partir do momento em que os critérios de avaliação são definidos, as pessoas
tornam-se passíveis de julgamento e sentença por parte da empresa, o que
condiciona seus papeis e restringe suas ações.
Porém, não é desta forma que a Avaliação
Individual de Desempenho se apresenta no dia-a-dia das organizações. Como uma
ferramenta de controle social, ela precisa estar envolta por uma carga moral e
ideológica suficientemente capaz de legitimar o seu uso e minimizar a resistência
natural a que está sujeita. Desta forma, se apresenta como: "uma
ferramenta para fornecer "feedback" aos funcionários sobre seu
desempenho", "uma forma de promover o desenvolvimento dos
colaboradores", "um estimulo para melhoria do desempenho e
produtividade das pessoas e equipes", ou ainda, "um meio para tornar
mais justo o pagamento de recompensas".
Atualmente, uma das formas mais utilizadas de
Avaliação Individual de Desempenho é a baseada em objetivos. Na prática,
este processo resume-se na mensuração e classificação do desempenho das
pessoas a partir do cumprimento das metas de trabalho individuais, previamente
definidas, que são normalmente o principal critério de avaliação.
Entretanto, há pelo menos 4 fatores pelos
quais a Avaliação Individual de Desempenho pode não funcionar em ambientes
onde há predominância de trabalho conjunto e relacionamento interpessoal, como
nas empresas, independentemente da forma que assume. São eles:
Primeiro:
Em uma organização, o produto (ou resultado
do trabalho), quer seja de um indivíduo ou equipe, esta sujeito a inúmeras
variáveis conjunturais que podem estar fora da capacidade de previsão e/ou
controle de tal agente. Isso significa que, com mais ou menos fidelidade, a
conquista das metas estabelecidas para indivíduos, departamentos ou mesmo toda
empresa, depende de variáveis externas, não controláveis, determinadas pelo
macro ambiente, e não apenas das variáveis controláveis do trabalho.
Um agricultor que domine todas as técnicas do
cultivo de determinado vegetal como tratamento do solo, irrigação, plantio,
colheita, etc., pouco pode fazer a respeito de uma adversidade meteorológica ou
praga desconhecida. Consciente de que está fazendo um bom trabalho, e mesmo com
todo seu conhecimento sobre a lavoura, ele sempre estará sujeito a tempestades,
geadas, chuvas fora de período e/ou pestes capazes de por a perder todo seu
trabalho. Isso ocorre exatamente da mesma forma nas empresas. Será que o
resultado deste agricultor corresponde, necessariamente, a sua dedicação,
potencial ou nível de competência?
É certo que a capacidade de previsão do
agricultor e, consequentemente, sua habilidade para lidar com os problemas da
lavoura, podem ser maximizadas através da educação, capacitação e informação.
Mas isso não vai fazer, necessariamente, com que ele possa controlar certas
variáveis exógenas. Em adicional, por mais fantástica que seja sua habilidade
de previsão e análise de cenários, ela nunca será total e infalível.
Segundo:
O resultado do trabalho de um indivíduo em um
grupo é, inevitavelmente, um produto sinérgico da interação entre as
pessoas. Os indivíduos, quando sociados, se comunicam e interagem o tempo todo
e, mesmo desenvolvendo tarefas aparentemente desconexas, estão influenciando
uns aos outros através das relações de poder, troca de idéias, conhecimento,
cultura, experiências, expectativas, etc.. Isso tudo molda (altera) o resultado
do trabalho de cada pessoa individualmente.
Portanto, é praticamente impossível
individualizar a parcela de contribuição de cada um dos membros do grupo em um
contexto como este, inclusive pelo fato de que essa contribuição é, em grande
parte, tácita.
Terceiro:
O trabalho das pessoas em uma empresa é sistêmico.
As metas de uma organização não podem ser totalmente individualizadas (nem a
nível departamental nem individual) e não são totalmente desconexas. Ao contrário,
elas são interdependentes, ou seja, a realização de uma depende da realização
da outra e vice-versa. Isso se deve ao fato de que, a exemplo do que acontece
com qualquer outro arranjo social, a empresa possui objetivos institucionais
(objetivos supra individuais que pertencem a sua unidade como um todo). Uma vez
possuindo objetivos institucionais, ela precisa orquestrar seus recursos para
que seu trabalho conjunto faça sentido e possa remeter ao esperado. Isso requer
controle e faz com que a empresa tenha que restringir atitudes que a extrapolem.
Um vendedor, para concluir o processo de venda
e dar sua contribuição para atingir o objetivo da empresa na qual trabalha,
depende do trabalho de muitos outros profissionais: os que compram os insumos,
os que produzem os produtos e daqueles que apoiam todos estes, como é o caso
dos profissionais de Recursos Humanos e Tecnologia da Informação. Tal relação
de "dependência" pressupõe que problemas nas atividades anteriores
da cadeia de valor do vendedor implicam em problemas potenciais na sua atividade
específica. Então o que acontece se, devido a atrasos na produção, o cliente
não concorda com os prazos de entrega e suspende o pedido? Em que medida o
vendedor pode ser responsabilizado por isso?
Quarto:
Finalmente, o resultado do trabalho de uma
pessoa em uma empresa é também um produto do sistema institucional no qual
esta pessoa está inserida e não exclusivamente da sua ação
"livre", justamente porque, como veremos agora, o sistema
institucional direciona essa ação.
Em uma empresa, os profissionais dependem de
uma série de recursos para que seu trabalho possa ser bem realizado. Necessitam
ter acesso a ferramentas, informação, poder e prazos para que possam atingir
os objetivos a eles designados.
A organização, como detentora do poder de
moldar este sistema, é a grande responsável por planejar e distribuir estes
recursos, bem como definir o arranjo e divisão do trabalho dentro dela.
Entretanto, ela institui regras, normas e procedimentos com o intuito de
garantir o mínimo controle sobre a atividade das pessoas e, consequentemente, a
conquista dos seus objetivos institucionais.
São justamente estes parâmetros, reguladores
da atividade humana, que vão influenciar na forma e eficiência com que o
trabalho individual vai ser realizado. Por exemplo, uma empresa altamente
burocratizada, deficiente na comunicação interna e que trata o erro das
pessoas severamente, não pode culpar seus compradores por perderem boas
oportunidades de mercado. Nestas condições, ela não poderia esperar nem ao
menos que eles se interessem em procurar por uma boa oportunidade de negócio.
Da mesma forma, um departamento de Recursos
Humanos não poderia ser taxado de lento ou burocrático para realização de um
processo seletivo se cada solicitação de pessoal aberta exigisse, por exemplo,
a assinatura de todos os diretores da empresa e mais a do presidente. Fica
evidente, neste exemplo caricaturado, que a organização também teria sua
parcela de culpa pelo rótulo do RH pois, em nome do controle, ela condiciona o
andamento do processo às assinaturas que, muitas vezes, são difíceis e
demoradas de conseguir.
Portanto, ao avaliar o resultado do trabalho
das pessoas, a empresa estará também avaliando a si própria como sistema
institucional. Infelizmente porém, muitas vezes as empresas não estão
preparadas para assumir a sua parcela de responsabilidade, ou ainda, tomar
consciência dela, preferindo transferir o encargo pelo seu mau desempenho
unicamente para os indivíduos.
Não obstante, a influência do sistema
institucional não se aplica exclusivamente às demandas humanas diretamente
relacionadas a execução do trabalho propriamente dito. Ao contrário, muitos
comportamentos classificados como não éticos, bem como grande parte da competição
dentro das organizações, podem ser explicados a partir da configuração do
sistema institucional, através de variáveis relacionadas aos critérios de
promoção de pessoas, políticas de reconhecimento e, em grau crescente devido
a ascensão da remuneração variável, políticas de remuneração.
É natural esperar que os funcionários desejam
ganhar mais pelo seu trabalho, que desejam desfrutar de mais poder e
reconhecimento na organização. Mas, se a empresa condiciona estas "ascensões"
à méritos e vitórias individuais, não importando a que nível (melhor
funcionário, melhor área, etc.), fatalmente estará estimulando a competição
interna e será mais do que co-responsável pelo clima de hostilidade que se
instalará, bem como pelas atitudes das pessoas a este clima hostil.
O "bom colaborador", ou seja, aquele
que atinge os objetivos designados e se comporta de acordo com os padrões e
valores da organização, é normalmente recompensado, em um nível visivelmente
superior aos outros, perpetuando a moral individualista já presente e
enfraquecendo os caminhos naturais para a cooperação entre as pessoas no
trabalho.
Promoções por mérito, classificação de
desempenho pela curva normal e utilização de títulos como "colaborador
do mês", deseducam as pessoas para o trabalho em equipe e são um
excelente convite ao individualismo e arrogância, além do que podem gerar
frustração, desmotivação e descrença.
Em situações onde as ameaças, injustiças,
disputas e desentendimentos são freqüentes, podemos perceber como o sistema
institucional tira a atenção dos indivíduos da realização do seu trabalho,
transferindo-a para questões de auto defesa, na medida em que as pessoas
naturalmente gastam muito mais tempo e esforço para "sobreviver" ou
"defender" sua posição do que para desempenhar suas atividades
dentro da organização.
Portanto, o sistema institucional influencia
necessariamente o resultado do trabalho do indivíduo, quer seja de forma mais
ou menos intensa, dependendo da configuração das suas variáveis.
Sabemos que a configuração do sistema
institucional varia de empresa para empresa, bem como a intensidade e a forma
dos demais fatores discutidos anteriormente. Isso nos leva a crer que as distorções
da Avaliação Individual de Desempenho também tendem a variar em função
deles. No intuito de tentar estruturar um esquema prático para a análise de
tais distorções nas diferentes organizações, propomos a ponderação das
seguintes variáveis determinantes:
Natureza do trabalho exercido pelo indivíduo:
Trata-se de uma atividade onde há muita ao
pouca interdependência entre as pessoas? Algumas atividades profissionais
requerem menos ou mais interdependência direta. Por exemplo, um escritor ou
roteirista de cinema depende eminentemente menos do trabalho de outros
profissionais para desenvolver o seu, se comparado a um diretor de cinema. Isso
não significa que o primeiro não dependa absolutamente de ninguém, porém seu
trabalho pressupõe uma relação de dependência mais indireta e menos específica
quando pensamos na sua cadeia de valor.
Natureza da meta estipulada para o indivíduo:
Algumas metas, especialmente aquelas
excessivamente objetivas e mensuráveis, não dão chance para que o indivíduo
desenvolva um trabalho minimamente inteligente; ao contrário, forçam para que
a pessoa atue sem poder aplicar sua capacidade criativa. Uma meta eficiente é
sempre aquela que dá oportunidade à pessoa de explorar sua criatividade, caso
contrário sub-utiliza o recurso humano; ela deve funcionar como um marco,
direcionando e estimulando o trabalho.
Além disso, o controle sobre as variáveis
internas e externas necessário para a conquista da meta, por mais que não
possa ser integral, precisa ser dado ao máximo para o indivíduo. Isso pode ser
feito, por exemplo, através da delegação de poder e informação por parte da
organização. Uma outra alternativa viável seria o próprio redimensionamento
da meta, onde a organização procuraria minimizar o número e intensidade das
variáveis externas (não previsíveis e/ou controláveis) que poderiam impactar
negativamente no resultado do trabalho do indivíduo, dando-lhe assim mais
controle.
Recursos, ferramentas, meios:
As metas individuais precisam estar de acordo
também com as condições individuais para que possam ser efetivadas. Há inúmeras
condições que precisam ser analisadas, umas mais claras e fáceis de
identificar do que outras. Apenas para exemplificar elas podem ser: ferramentas
de trabalho, formação e instrução do indivíduo, nível de poder conferido
pela organização, nível de informação que dispõe o indivíduo, etc..
Longe de querer solucionar o problema das
distorções do processo de Avaliação Individual de Desempenho, as 3 variáveis
(acima apresentadas) podem nos dar uma visão mais clara e objetiva sobre onde e
como podemos atuar para produzir algumas melhorias, lembrando que elas são
apenas uma amostra.
Finalmente, livrando-nos do paradigma de
enxergar o mau desempenho dos recursos humanos sempre através das deficiências
profissionais dos indivíduos e passando a ver a empresa como um sistema
institucional, talvez possamos tornar mais justo e produtivo o ambiente de
trabalho e diminuir consideravelmente a insatisfação e desmotivação nas
organizações.
Marcos Luís Procópio é Administrador e
Consultor de Empresas especializado em RH marcos.procopio@terra.com.br |