Seleção e intuição
Seleção e intuição
Seleção. Dizem que é uma
"escolha fundamentada". Baseada em fundamentos os mais diversos. Técnicas
são aprimoradas. Atualmente, figura a tal "seleção por competências".
Muito provavelmente outras técnicas vão surgir. Mas todas elas aprimoram a
dimensão mensurável do ato de selecionar pessoas. Ainda que nosso foco seja
nas "competências", "habilidades", "valores" e
por aí vai, não tem jeito, seleção é escolher pessoas; e pessoas em sua
totalidade. A divisão é uma mera tentativa de quantificar alguns aspectos.
Tentativa! Inadvertidamente, a intuição apreende o resto. O mais importante? Não
sei. Este artigo é apenas um convite à reflexão, e não uma resposta. Por se
tratar de pessoas, a intuição é tão presente quanto a existência concreta
do candidato e do selecionador num processo seletivo.
A seleção de pessoal aprimora-se
continuamente. Ainda bem. Mescla de ciência e arte, muitas vezes imprime no
candidato a imagem (e alguns dizem que é a mais importante) que ele terá
daquela organização que lhe está avaliando. De fato, todos já estão
convencidos disto. Porém, desconfio que a tal "imagem" que o
profissional-candidato leva da empresa contratante não é tão atrelada à
precisão técnico-científica do processo seletivo, mas sim à postura, à
abordagem, à empatia e, claro, à respeitabilidade que o profissional de seleção
apresentou ao longo do processo. Tão importante quanto conduzir com maestria
uma entrevista ou aplicar um teste, é abordar o candidato com respeito,
cordialidade, interesse e, perdoem-me os cientistas, leveza de espírito.
Leveza de espírito. Conceito
aparentemente abstrato. E parece abstrato, de fato, justamente devido à
dificuldade de materializá-lo em palavras. Ou talvez porque caibam tantas
palavras que, por mais que sejamos prolixos, sempre faltará algo. Mas a tal
leveza de espírito é ação, é existência material, é tão concreta quanto
esta tela de computador ou esta folha de papel. A atmosfera na qual ocorre um
processo de seleção é naturalmente tensa. Seleção nada mais é que avaliação.
Avaliar é atribuir valor. É atribuir valor a coisas muito pessoais,
individuais, subjetivas até. Num processo mais tradicional, há duas pessoas
numa sala: um que entrevista (que avalia) e outro que é entrevistado
(avaliado). Por mais descontraído que seja, trata-se de um momento que sempre
carrega alguma tensão, algum desconforto, sobretudo para o candidato. Alguém
está "dando notas", atribuindo valor às minhas competências, às
minhas atitudes, aos aspectos da minha subjetividade e, inevitavelmente, aos
meus princípios pessoais.
Leveza de espírito. Demonstrar
interesse pelo candidato e suas histórias. Surpreender-se. Frustrar-se junto
com ele. Sentir e pressentir. Sorrir com facilidade. Refletir suas expressões.
Compreensão antes de explicação. Não se deixar seqüestrar por preconceitos,
mas deixar "em cima da mesa" suas intuições.
Pois é: "deixar em cima da
mesa" suas intuições. Não adianta, ainda que vivamos numa sociedade que
nos petrifica, ainda somos humanos (não sei até quando, mas ainda somos...).
Pressentimento. Intuição. Fenômenos que, inevitavelmente, fazem parte da
nossa relação com o mundo. E, sobretudo, nas relações humanas. Há aqueles
que nos dizem para jogar fora os pressentimentos e as intuições, como se estas
coisas fossem algum tipo de fraqueza; como se as coisas que pressinto e intuo
nada servem, pois a verdade deve advir tão somente da racionalidade, da técnica,
do método.
Sei não. Tenho medo das certezas.
Defendo que a intuição é legítima. Num processo de seleção, assim como em
todas as relações humanas, ela está presente e deve fazer parte do conjunto
das nossas conclusões. Há de se tomar muito cuidado para não utilizá-la como
pretexto que justifica preconceitos. Por isto, conclamo: leveza de espírito.
Preconceito é um negócio pesado. Afunda como âncora e nos deixa imóveis,
amargos, míopes. Nada disso tem a ver com a intuição.
O que sinto e pressinto de meu
candidato deve ser levado em conta, porque antes de ser profissional, sou gente.
Antes do teste e da entrevista, tem meu olhar. E tudo isto em seu conjunto, em
sua inter (e intra) relação, ao final do processo, forma um retrato falado
daquele candidato. Sim, retrato falado: uma tentativa de ilustrar a face de alguém.
Algumas coisas são certas. Outras são erradas. Mas enfim, um retrato - ainda
que falado - precisa ser feito. Mas é ilusão pensarmos que para fazer este
retrato é necessário somente o aprimoramento técnico. Seleção envolve
necessariamente relação humana. E um melhoramento efetivo só ocorre, de fato,
com um melhoramento afetivo: o profissional de seleção tem que gostar de
pessoas.
Paulo Roberto Teixeira Junior |