Ser Líder na Emancipação
Ser
Líder na Emancipação
Por
onde passa o olhar de gestores empresariais hoje quando procuram por um perfil
de liderança para suas organizações?
Muito se fala sobre a
capacidade de liderança articulada à ousadia. Por este viés, o perfil ideal
de um líder transita sempre pelos que possuem como traço pessoal o gosto, a
destreza ou a necessidade de usar e abusar das taxas elevadas de adrenalina que
uma ação ousada proporciona. Líder é aquele que não teme olhar para o
futuro; que aceita riscos e cria desafios; que empurra sua equipe para frente...
Enfim, líder é aquele "herói" que enfrenta obstáculos porque
existem e precisam ser transpostos, muitas vezes a qualquer custo.
Os tempos são de mudanças
vertiginosas, todos já sentiram. Momentos assim fazem da vida um grande laboratório,
do qual as empresas não passam à margem. A própria articulação entre
liderança e ousadia é parte das experiências deste macro-lab contemporâneo.
Resulta da ansiedade empresarial em construir resultados bem-sucedidos, o mais rápido
possível, para um mundo que aponta a outras direções. Mas, já que o
fundamento da experiência é pautado pelas variáveis acerto/erro e o laboratório
tornou-se franqueado a todos, cabem alguns questionamentos quanto à construção
do perfil de um novo líder.
Parece haver um fator que determina a ousadia:
uma auto-estima avantajada, ou seja, uma "alta estima", porque é difícil
imaginar alguém com "baixa estima" ousando qualquer passo na vida ou
na organização. Esta, aliás, é uma característica desprezada cada vez mais
nos processos seletivos empresariais, porque, se a ousadia está articulada na
alta estima, o insucesso se relaciona imediatamente à baixa estima. E ninguém
quer gente assim por perto.
O curioso é que pessoas com
baixa estima têm estado mais ainda próximas de todos nós, mesmo que queiramos
descartá-las do nosso convívio. A tal ponto de perguntarmos se ainda sobrarão
líderes ousados por muito tempo. De fato, está cada vez mais difícil para os head-hunters
encontrarem pessoas com perfis semelhantes.
Quando a baixa estima se
generaliza e a alta estima se toma um requisito rarefeito, é preciso perguntar,
primeiramente, em que ponto as relações sociais estão se equivocando e,
depois, o que será feito dos que carregam o espectro da baixa estima (que a
qualquer momento pode se abater sobre todos nós). Afinal, estamos criando um
mundo para os heróis? O que será feito de nós, simples mortais? Será que terão
lugar na criativa trajetória para a construção da alta estima aqueles que
ainda não a pleitearam?
O bom resultado de uma ação de liderança
parece passar hoje por indagações desta natureza, porque a matéria-prima
humana com a qual trabalha um líder no seu cotidiano é tecida de baixas e
altas estimas. Mas que perfil de líder estaria mais bem capacitado a articular
este tecido de tal forma a fortalecê-lo em seu conjunto? É aquele que possui
como perfil a ousadia?
A alta estima exacerbada, presente nos líderes
que centram sua ação na ousadia, funciona, quase sempre, como a imagem de um
narciso preso ao espelho d'água que paga qualquer preço para sustentar sua
vaidade.
No meio do caminho, a um passo entre a alta e a
baixa estima está uma versão equilibrada da auto-estima. Os portadores desta
qualidade são aqueles que apreendem a si mesmos em uma medida que possibilita
enxergar os outros à sua volta. São aqueles que não se pautam pela ousadia
porque sabem que esta não cabe em todas as fórmulas. São aqueles que percebem
que é preciso ousar quando necessário. E parte desta precisão vem da
capacidade de liderar emancipando.
O momento parece estar pedindo líderes
emancipadores. Pessoas com capacidade de socializar capacidades, que não
ponham em risco contínuo as empresas, tampouco sacrifiquem diariamente os
recursos humanos que as constituem, pela ação exacerbada da ousadia.
Esses líderes emancipadores
possuem um perfil bem definido. São discretos e privilegiam o anonimato.
Delegam e horizontalizam as relações de poder. Preferem os círculos aos
quadrados.
Consideram que um passo bem dado exige seu
tempo e é melhor resposta que dois passos rápidos e tortos. Mas não temem
passadas largas. Gostam mais do abraço que do aperto de mão. Acreditam que o
mundo não é feito só de heróis. Buscam coerência entre o discurso e a ação
e estão dispostos a arregaçar as mangas para executar tarefas que repassariam
a terceiros.
Possuem afinidade com o "chão da fábrica"
e não se enterram em torres de marfim. São educadores, antes de se colocarem
como chefes e pautam as relações interpessoais pela identificação da existência
do outro. Trabalham na esfera da autoridade partilhada porque assim permitem a
construção contínua de habilidades. Acreditam que produz melhor não aquele
que compete, mas alguém que identifica em seu espaço de trabalho um território
que espelha, no conjunto, uma parte do que ofereceu de si diariamente.
Um líder emancipador parece ser, enfim, aquele
que compreende que a baixa estima é um ponto de partida possível para a
auto-estima equilibrada, porque sabe que todos com os quais partilha esta
construção tomam-se seres humanos plenos e capazes. E não há organização
que possa prescindir destas competências.
Então, por que não procurar por um perfil de
liderança como esse?
Eunice
Mendes
Consultora
do Instituto MVC
Adriana
Canova
Doutora
em Sociologia pela UNESP
OBS.: Material retirado do Programa Executivo Século XXI do Instituto
MVC .
|