Será que a solução é investir em treinamento?
Será que a solução
é investir em treinamento?
Desde muito tempo já
acompanhamos, no meio empresarial, discussões sobre a eficácia e o valor de se
investir em treinamento e desenvolvimento de pessoal na área
"comportamental" ou não técnica. São diversas as opiniões mas, no
final, apesar de concordarem com a decisão de investir, as dúvidas acabam
confluindo em questões de como mensurar e avaliar financeiramente os resultados
de tais investimentos, e como garantir a sua utilização prática; o que ocorre
com menos freqüência quando nos referimos aos investimentos em treinamento técnico.
Longe de querer responder a esta questão tão freqüente, principalmente no âmbito
de atuação de recursos humanos, e ao mesmo tempo tão complexa, este artigo
tem como principal objetivo elucidar o leitor sobre as razões pelas quais o
investimento em treinamento e desenvolvimento de pessoal pode falhar, bem como
levantar uma discussão mais profunda e qualitativa sobre estas razões; tendo
sempre como foco de análise os investimentos na área não técnica. Este
artigo procura também apresentar uma forma alternativa de abordagem das questões
relevantes ao desenvolvimento organizacional, que não somente o treinamento e
desenvolvimento das pessoas como conhecemos hoje, sugerindo uma outra via para
execução de mudanças nas empresas.
Dentre as inúmeras explicações, já difundidas no meio empresarial, sobre os
possíveis motivos para as falhas dos investimentos em treinamento e
desenvolvimento de pessoal, as mais usuais são:
.falta de comprometimento da alta direção para com o investimento: ou seja, a
cúpula da empresa, apesar de investir, não acredita muito na eficiência e nos
resultados do investimento e, portanto, dá pouca credibilidade ao processo,
emperrando assim a mudança.
.falta de foco do investimento nas reais necessidades e problemas: muitas vezes,
o diagnóstico e identificação do problema real tornam-se tarefas caras e
complexas. Isso faz com que muitos empresários, diante de um problema não
esclarecido, optem por soluções "padrão", encontradas no mercado ou
dentro da própria empresa, que nem sempre se adequam ao seu caso específico.
.falta de vínculo do investimento com o planejamento estratégia da empresa:
muito freqüente, este problema é um exemplo de desarticulação estratégica tão
evidente como fechar um contrato de longo prazo com um fornecedor de pregos
quando, por força de mercado, estamos passando a construir artigos de metal ao
invés de madeira.
.dificuldades de mensuração do custo/benefício dos investimentos: não
podemos esquecer que a mentalidade em uso hoje, em grande parte das empresas,
para se "medir" retorno sobre investimento e relações de custo/benefício
de uma forma geral, ainda é infelizmente, muito "financista" e
pertence ao tempo da filosofia "industrial"; por motivos diversos, que
este artigo não tem a pretensão de abordar. Mas, nos parece claro que, a solução
para o problema de mensuração dos investimentos na área de recursos humanos,
meio ambiente e ação social, está muito mais próxima de uma mudança de
mentalidade dos líderes que os apreciam e os deliberam, do que da invenção de
uma nova metodologia de medição mais "precisa".
Estes argumento, que são verdadeiramente válidos e fazem muito sentido na prática
das organizações, não são suficientes para explicar as aparentes incongruências
do treinamento e desenvolvimento de pessoal. Este artigo propõe uma explicação
complementar e que, de certa forma, pode ser vista como uma geratriz destes
argumentos:
O desempenho geral de uma organização depende, basicamente, da interação
entre duas variáveis sistêmicas: variável "individual" e variável
"institucional".
A variável individual, como o próprio nome descreve, está no âmbito do indivíduo
que atua na organização. Ela diz respeito, principalmente, as atitudes e
comportamentos dele em seu meio de trabalho, e o quanto isso pode influenciar ou
sofrer influência coletiva. É o ponto focal absoluto dos treinamentos
comportamentais que, por sua vez, pretendem aperfeiçoá-la.
Esta variável contêm toda a experiência passada do indivíduo, responsável
pelas expectativas, desejos e valores que ele traz para dentro da organização
e, não obstante, sua experiência contemporânea nesta organização. Portanto,
um fator importante, mas não o único capaz de influenciar ou alterar a
estrutura da variável individual, é o convívio do indivíduo na organização
em questão. Tudo que o indivíduo escuta, vê e sente dentro da empresa conta
para esse convívio, e consequentemente molda a variável individual.
Já a variável institucional é inerente ao sistema político-social da
organização, ou seja, a forma com que ela arranja e organiza o trabalho das
pessoas, a forma como ela remunera e compensa este trabalho, sua estrutura de
poder, de comunicação, seus valores e cultura como organização. Todo isso
influencia, e muito, a variável individual, uma vez que determina formas e padrões
de comportamento, atitudes e valores individuais que são "aprovados"
pela organização, ou não.
Há, portanto, uma profunda interdependência (quase "orgânica")
entre estas duas variáveis. Uma esta sempre pressionando a outra para obter um
nível mais satisfatório para si, o que gera uma espécie de fricção social,
uma "resultante" que, por sua vez, é a responsável pelo desempenho
geral do sistema.
Independentemente do que queremos como resultado do nosso investimento em
treinamento e desenvolvimento de pessoal (produtividade, motivação, satisfação
no trabalho, obediência, etc.), é necessário que, em primeiro lugar,
consideremos esta interdependência. O problema ocorre quando se investe única
e exclusivamente em ações de treinamento e desenvolvimento de pessoal sem
preocupação com a variável institucional. As justificativas usuais para o
fracasso deste tipo de investimento (apresentadas acima) são uma constatação
de que este comportamento, infelizmente, é uma prática no meio empresarial.
Inicialmente, todo investimento em treinamento e desenvolvimento de pessoal, se
bem administrado, é capaz de alterar, ou melhor, sugerir mudanças à estrutura
da variável individual. Mas, devido a forma com que a variável institucional
está estruturada, tais mudanças não irão se efetivar da forma como desejamos
que ocorra. Em outras palavras, os esforços de mudança na estrutura da variável
individual, através de programas de treinamento e desenvolvimento, podem ser
"combatidos" pelas condições da variável institucional, caso os
propósitos de ambas não sejam sinérgicos, ou melhor, caso a interação entre
elas não seja saudável.
Em termos práticos, seria um total desperdício investir isoladamente em um
programa de educação para o trabalho em equipe se a empresa em questão possui
um sistema de remuneração variável que joga os indivíduos uns contra os
outros. Da mesma forma, seria inútil conduzir um programa de desenvolvimento de
criatividade aplicada isoladamente em uma empresa altamente centralizada e
burocrática.
Porém, verificar o quando este resultado é insatisfatório pode ser bastante
simples. As pessoas que passam por programas de treinamento e desenvolvimento,
em circunstâncias como as descritas acima, normalmente experimentam o seguinte:
fase da empolgação: todos estão excitados com os novos "insights"
que receberam em suas seções de treinamento, bem como motivados a aplicar tudo
que aprenderam no dia-a-dia do trabalho. Se bem conduzido, as pessoas terão a nítida
impressão de que o treinamento foi "fantástico".
fase de choque: quando retornam à realidade do trabalho, percebem que tudo o
que pretendiam aplicar não passa de pura utopia; muitos passam a criticar esta
realidade com base nos próprios conceitos e idéias absorvidos no programa. Há
frustração geral.
fase de retorno às origens: após a frustração geral, as pessoas acabam por
esquecer que aquilo que aprenderam pode ser empregado no trabalho e, quase que
automaticamente, retornam à antiga mentalidade. Muitos podem também
desenvolver uma visão generalizada sobre os programas de treinamento e
desenvolvimento, taxando-os de fúteis ou hipócritas e gerar uma atitude
altamente negativa de descrédito em relação a eles, capaz de destruir as
iniciativas futuras.
Portanto, o investimento isolado em programas de treinamento e desenvolvimento
de pessoal pode representar um desperdício muito maior de recursos do que
poderia parecer inicialmente, quando exploramos as razões triviais do seu
fracasso. Como evitá-lo então? A resposta não exclui os cuidados usuais como:
garantir que haja apoio suficiente da alta administração, assegurar que o
investimento esteja de acordo com a real necessidade e direção estratégica da
empresa e que eles sejam "ortodoxamente" mensuráveis e aferíveis.
Mas, acima de tudo, devemos nos preocupar em trabalhar sobre a variável
institucional, com a mesma naturalidade que trabalhamos sobre a individual.
Se percebemos que determinados programas de treinamento e desenvolvimento não
estão produzindo a mudança esperada em nossa empresa, devemos investigar a
interação entre as duas variáveis para verificar qual é raiz de tal ineficiência.
Muitas vezes, os problemas podem ser solucionados ou reduzidos a partir de mudanças
na variável institucional, não precisando passar, necessariamente, por ações
de treinamento e desenvolvimento.
Portanto, a mudança pode ser provocada de duas formas nas empresas: através de
alterações na variável individual ou institucional. Mas, sempre que não
houver coerência entre elas, a mudança simplesmente não se efetivará. Nos
casos de planos ousados de mudança organizacional, faz-se necessário, sem dúvidas,
uma atuação conjunta e estruturada em ambas.
Marcos Luís Procópio -
Consultor
marcos.procopio@ig.com.br |