Ergo vem do grego érgon, e significa
trabalho, e o dicionário do Aurélio define o maníaco como o indivíduo
obstinado, teimoso, obcecado por alguma coisa. Assim, o ergomaníaco é o
indivíduo obcecado, viciado
em trabalho. Workaholic
em inglês. Vamos conhecê-los?
Cena 1:
Reportagem principal de uma grande revista quinzenal de Administração e Negócios.
Na capa, o presidente de uma mega-empresa sentado na cozinha de sua casa
tomando o café da manhã. No caso, breakfast, e de executivo bem remunerado,
com sucos, geléias, ovos e louça fina. Sorridente, num terno elegante, ele
toma uma xícara de chá e se prepara para enfrentar uma jornada, segundo o
texto, de 14 horas diárias de trabalho. No corpo da reportagem, uma foto dele
beijando duas crianças com mochilas escolares, e uma legenda para explicar
que a cena era de seus filhos chegando do colégio.
Agora me explique:
O relógio que aparece ao fundo da foto na
cozinha marca 06h15minh da manhã. Terminado o café, ele deve sair. Como
trabalha no centro financeiro de São Paulo e certamente não mora no Brás,
mas nos Jardins ou no Morumbi, chega ao escritório entre 7h e 8h da manhã.
Somando-se as 14 horas de trabalho diário obtém-se 21h ou 22h. Claro,
considerando-se que ele come só um sanduíche rápido no almoço. Como o trânsito
é melhor à noite, ele chega a casa entre 22h30minh e 23h00minh. Oi, seus
filhos estudam numa escola noturna e chegam a casa depois dele todos os dias?
Verdade:
A foto deve ter sido tirada num domingo, pois
ele nunca vê seus filhos saírem nem chegarem do colégio, que deve ser dos
melhores da cidade, e funciona de manhã ou à tarde. Pode ser também uma
fotomontagem. Ou então eu não sei aritmética.
Cena 2:
Programa de entrevistas de uma apresentadora de televisão, exuberante,
exagerada, que consegue levar de strippers a ministros (às vezes, sentados no
mesmo sofá). Ao perguntar sobre os hábitos de trabalho de seu marido, a
mulher de um grande industrial confessa que mora, sim, numa casa excelente,
mas que há dez anos ele não arranja tempo para entrar na piscina, nem usar a
sauna, nem os aparelhos de ginástica. Importados, é claro. Sai cedo de casa,
chegam tarde todos os dias, inclusive aos sábados, e aos domingos não quer
exibir sua forma física para os amigos dos filhos. Êta felicidade!O que
existe de comum nesses dois casos reais? Pessoas ditas bem sucedidas, que
todos imaginam viver bem e ter qualidade de vida, viajar por lazer, ter
dezenas de outros interesses e desfrutar do muito que têm. Nada disso. Como
disse Domenico de Masi, não têm tempo para si próprio, para a família e
muito menos para os amigos. São escravos do trabalho. São ergomaníacos.
O ergomaníaco toma um porre todos os dias.
De trabalho. E muitas vezes se torna um chato e muitos o evitam. Você quer
falar de cinema ou música e ele quer falar de trabalho. Você quer falar de
esportes ou política, ele quer falar de trabalho. Você quer falar de
qualquer outra coisa e ele quer falar de trabalho. Você não quer falar nada
e ainda assim ele quer falar de trabalho! Já viu bêbado mais
inconveniente?Como curar esse mal? Como voltar a ser uma pessoa normal, que
usa a piscina de casa, que arranja aqueles 40 minutos para caminhar pela manhã
como o cardiologista recomendou que convivesse com seus filhos enquanto estão
crescendo (depois é tarde..), que consegue ir ao cinema, ler, sair de vez em
quando para jantar com a mulher e os filhos, que sabe falar de outra coisa que
não seja trabalho? E que quando fala de trabalho, o faz com correção e sem
monopolizar ou chatear a todos?
Sugestões que só vão doer no início
(ou nem isso):
· Descubra o que você fazia e acabou deixando de lado por conta dessa
overdose de trabalho. Não se passa a trabalhar 12 ou 14 horas por dia assim
sem mais nem menos. Com certeza, pessoas, interesses, hobbies e outras coisas
foram saindo aos poucos do seu dia-a-dia. Pois trate de recuperá-las, não
todas de uma vez, mas aos poucos e com firmeza, para que não voltem a
escapar. Ligue para a mais chegada dessas pessoas, tire o pó e mexa nos aviões
e barcos que você tinha tempo para montar, volte a assinar a National
Geographic, mande afinar o piano e ligue para o pessoal dizendo que vai ter
sessão de jazz ou MPB de novo (pagode também serve ninguém é perfeito
mesmo).
· Vá ao fundo de você mesmo e trate de
resolver o dilema entre ganhar sempre ou perder de vez
em quando. Aceite
coisas como “deixei de fazer um trabalho, perdi nos negócios hoje, mandei
alguém no meu lugar para resolver e ele pode errar, perdi um cliente porque
disse que não ia poder atendê-lo”, sem se sentir culpado nem a última das
criaturas por conta do ocorrido. Na verdade, lide maduramente com o fato,
reflita sobre seu comportamento e reações, admita que você não é o
super-homem tupiniquim. Pelo menos uma vez ou outra.
· Ouça o que sua família e amigos acham
desse vício de trabalhar tanto. Disponha-se a ouvi-los, não julgue nada nem
ninguém, não argumente nem justifique. Apenas ouça. Anote ou memorize o que
ouvir e dê um tempo para processar tudo. Depois fale com cada um sobre o que
pensou de cada feedback e o que pretende fazer a partir disso. Verdadeiros
amigos e família dão bons conselhos, doloridos por vezes, mas o que querem
eles senão vê-lo melhor e mais feliz?
·
Desenvolva seu interesse pela leitura. Anos antes de Cristo, Cícero já
dizia: “Casa sem livros, corpo sem alma”. Mas leia menos livros de negócios
e finanças, e passe longe dos do tipo Como ser rico, bonito, saudável e
desejado. Que tal romances, ficção ou história, agora que se fala tanto no
descobrimento? Descobrindo (ou re-descobrindo) o prazer da boa leitura, você
vai querer trabalhar menos para se dedicar mais a ela. E convenhamos, se o vício
for pelos livros, a causa será mais nobre, e deve ser trocado sem dó nem
piedade por reuniões infindáveis, dezenas de e-mails sem sentido para
responder e coisas do tipo que aparecem todos os dias.
· Analise seus objetivos de vida. Em
seguida, pergunte se seu trabalho o está ajudando a alcançá-los. Para quem
só sabe trabalhar o tempo todo, a provável resposta é não. Boa parte dos
ergomaníacos que conheço está sempre se queixando de que não pode fazer
isso ou aquilo porque o trabalho não permite. Alugam os ouvidos das pessoas
para repetir sempre a mesma cantilena. Então por que não mudam? Outra parte
acha bonito dizer que está sem tempo para fazer mais nada, mas que o trabalho
é só o que têm na vida. Nesses casos, confesso não saber como curar
pobreza de espírito.
· Crie ou encontre uma atividade de que você
goste e que o faça diminuir seu tempo no escritório. Atividade que sem você
não irá para frente. Ou que o faça tão feliz que não possa ser deixada de
lado. Coisas como coordenar atividades no clube que você freqüenta
administrar um lar para a velhice, participar de sua associação de
moradores, ganharem o campeonato estadual senior de boliche, ser ativista de
uma ONG, até mesmo saltar de asa delta (velho sonho juvenil!) ou sei lá o
que mais. Coisas que uma vez iniciadas não sejam abandonadas e que o farão
pensar seriamente se vale mesmo a pena ser um ergomaníaco convicto.
· Se as dicas anteriores não estiverem
funcionando, faça como os monges orientais e, como um mantra, repita dezenas
de vezes todos os dias para você mesmo: eu vou trabalhar menos. Um lugar
escurinho, incenso queimando e as pernas cruzadas, o corpo levemente balançando
para um lado e para o outro, o polegar e o indicador unidos pelas pontas e um
ar circunspecto e solene podem dar o clima e ajudar. Tambores, sinos e uma
bata também. Raspar a cabeça e deixar aquele fio longo caindo da nuca? É
quem sabe?
Agora, se nada disso funcionar, ou sua recaída após diversas tentativas for
daquelas sem volta, me arrisco a aconselhá-lo a procurar um psiquiatra, que
saberá cuidar melhor dessa sua fraqueza. Ou então, direta e simplesmente
falando: meu querido, você merece!