Somos Novos Bárbaros
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Se
o rádio levou 38 anos para atingir 50 milhões de usuários, a Internet
conseguiu igual façanha em apenas quatro anos. Hoje, o mundo fala com
desenvoltura sobre robótica, transplante, teste de DNA e realidade virtual.
Para
a educação brasileira, este é o maior desafio: formar pessoas capazes de
acompanhar de perto a intensidade e a rapidez como se processam as intensas
mudanças tecnológicas. A impressão geral é de que não estamos fazendo o
dever de casa.
Os
dois cases a seguir ilustram a questão.
Receita
de Cheeseburguer
O
hotel, novinho em folha e up-to-date, disponibiliza toda a
sofisticação tecnológica, capaz de fazer seu afortunado hóspede sentir-se
como passageiro de uma nave interestelar.
Resolvi
embarcar nessa aventura e cheguei justo no dia do Brasil e França. Cinco horas
de viagem do Rio a Natal – a esculhambação aérea já vem de longa data –
e meus cem quilos exigiam algo mais substantivo do que as míseras barrinhas de
cereal, oferecidas pela Gol.
Como
Galvão Bueno já berrava o início da batalha, procurei com sofreguidão o
ramal da copa – a fim de providenciar os nutrientes necessários para temperar
meus nervos e ansiedade.
Pedi
uma coca light, para acalmar minha consciência, e um cheeseburguer, para
pacificar meu estômago.
Vai
daí que: jogo vai, jogo vem; Roberto Carlos ajeita as meias, Zidane come a bola
e nada de o meu pedido chegar. Final do primeiro tempo, e o estômago já pedia
clemência.
-
Room Service, boa tarde.
-
Olha, eu pedi um sanduíche há mais de meia hora – e até agora nada.
-
Ah! O senhor é que fez o pedido do Xbúrgui? Eu já ia mesmo ligá pro sinhô e
dizer que não tem Xbúrgui. Nós só faz hambúrgui, queijo quente e misto
quente. Xbúrgui que é Xbúrgui mesmo, nós num faz.
Como
a situação demandava raciocínio rápido, disparei sem demora:
-
Vocês têm hambúrgui? OK! E aquele pão redondinho de hambúrgui, vocês também
têm? Maravilha! Pois então eu vou te ensinar uma receita genial: pega duas
carnes de hambúrgui, acrescenta quatro fatias de queijo, põe tudo na chapa e
esquenta aquele pão redondinho, que você usa pra fazer hambúrgui.
Em
quinze minutos, estava comendo o cheeseburguer mais gostoso e reconfortante da
minha vida.
Conheço
um lugar...
Um
simples programa de computador é capaz de armazenar todas as informações
suficientes para levar o cliente a se sentir no paraíso. Resta apenas saber
como utilizá-las.
Conheço
um hotel que leva a sério o fator humano como diferencial competitivo. Sempre
que nele me hospedo, sou recebido com um: Boa Noite, professor. Na recepção,
minha ficha já foi digitada; basta assinar (Vocês têm idéia de quantas
fichas um Consultor tem de preencher na vida?). Ato contínuo, a recepcionista
me entrega a chave com um: Seja bem-vindo à sua casa (A frase me faz economizar
horas de sessão de análise).
No
frigobar do quarto, bananada sem açúcar, muita água mineral, sucos e
refrigerantes light (Chocolates, bebidas alcoólicas e outras delícias são
prazeres interditos a um diabético).
Quanto
é que o hotel gastou, com tanta “mordomia”? Quase nada, se comparado ao
retorno maravilhoso que esses simples agrados são capazes de proporcionar.
Se
a tecnologia nos dá condições de reunir informações valiosas sobre o
cliente e se o processo já não é mais nenhuma novidade – as pessoas, no
geral, sabem disso – por que muito poucos passam da teoria à prática?
A
escola brasileira nesse contexto
Por
enquanto, a escola brasileira ainda não percebeu – honrosas exceções –
que o mundo mudou radicalmente nos últimos dez anos e que o processo
educacional vai muito além de sala de aula, quadro, aluno, professor e giz.
As
ferramentas digitais estão aí mesmo, para que delas possamos tirar o maior
proveito. Hoje, é facílimo criar um banco de dados, com todas as informações
sobre alunos, família, professores, funcionários, fornecedores, o que
facilitaria enormemente a comunicação – e a integração – entre todos os
participantes da comunidade escolar.
Partindo
da premissa que o correio eletrônico é uma realidade, por que não utilizá-lo
na comunicação entre escola e pais, em substituição aos surrados recursos do
recadinho na agenda ou do telefonema da mãe representante?
Falar
nisso, não seria interessante usar o e-mail para informar periodicamente como
seu filho vem se saindo nas notas, quais as atividades extracurriculares do mês,
e outras tantas informações absolutamente necessárias ao dia-a-dia da escola?
Seria
tão revolucionário assim pensar na troca de informações entre pais e
professores? Quantas vezes você recebeu um e-mail dizendo que Seu filho vai
muito bem, obrigado ou então que Seu filho anda meio disperso nas aulas. Algum
problema de que devemos tomar conhecimento?
Por
que está fora de cogitação enviar um e-mail – com o resumo dos assuntos
discutidos – aos pais que infelizmente não puderam comparecer à reunião?
Por que não se pensar em criar um site da escola verdadeiramente interativo,
que seja um espaço onde pais, alunos e professores possam discutir, opinar e
sugerir os melhores rumos para a escola?
O
uso do computador deve ir muito mais além das tarefas administrativas de
secretaria: cadastro de alunos, boletins, folha de pagamento. Agir dessa forma não
é inteligente.
Devemos
sepultar de vez o sistema de outorga, por meio do qual nosso direito se
restringe à escolha da instituição a quem confiaremos cegamente a educação
de nossos filhos, sem que nos seja dada a oportunidade de participar
democraticamente dos rumos do projeto pedagógico.
Este
talvez seja o melhor da era digital: permitir a comunicação rápida, instantânea
e imediata, por meio da qual a sinergia entre os agentes dos diferentes
processos revele o comprometimento de todos.
A
escola deve entender que a excelência só se conquista com a contínua capacitação
das pessoas e a melhoria de produtos e serviços.
Quem
souber incorporar com inteligência as novas ferramentas tecnológicas ao seu
dia-a-dia terá enfim conseguido seu diferencial competitivo. Caso contrário
ficará impotente como nosso atônito cozinheiro de hotel: com todos os
ingredientes à sua disposição, mas sem saber como prepará-los.
José
Paulo Moreira de Oliveira
Consultor
Sênior do Instituto MVC
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