Trabalho Em Demasia
Um dos papéis
fundamentais do analista e pesquisador das mudanças e tendências estratégicas
é eliminar os exageros maniqueístas extremados e tentar antecipar o que
realmente vai ocorrer. Saindo da retórica para a prática, em 1993, quando todo
mundo falava em crise, escrevi o livro Que crise é esta? (Editora
Gente), onde foram enumerados pelo menos sessenta casos, instituições e até
pessoas que cresciam na turbulência, apesar de tudo que ocorria à sua volta.
Quando o Brasil
voltou a crescer, lancei uma palestra / conferência chamada Cuidado! O
Brasil vai crescer, em que demonstrei que, mesmo em épocas de forte aceleração
econômica, muita gente iria quebrar.
O momento atual
tem me preocupado de forma demasiada (chega de trocadilho) com as teses do
brilhante sociólogo italiano Domenico de Masi, cujas idéias estão fortemente
disseminadas aqui no Brasil. O Sociólogo do Ócio, como é conhecido, tem
divulgado aos quatro ventos pensamentos que têm sido recebidos pela comunidade
em geral, especificamente a empresarial, da seguinte forma: "A sociedade
caminha inexoravelmente para o aumento consistente do tempo de lazer e a conseqüente
diminuição do tempo de trabalho". Como conseqüência direta desta tese
central, temos: fins de semana maiores, férias mais longas, menor dedicação
às atividades profissionais, etc.
Estas colocações
diferem não só daquilo que tenho vivenciado com meus clientes, empresas
brasileiras e multinacionais, no Brasil e no exterior, como na maioria dos casos
é absolutamente confrontante. Parece-me que jamais caiu tão bem a assertiva de
Marco Polo para o imperador chinês: "Quem faz a narrativa não é a voz,
é o ouvido". Daniel Piza, fazendo a crítica do último livro de De Masi,
afirma mais ou menos com estas palavras: "o autor fala aquilo que as
pessoas gostam de ouvir".
Em todos os
estudos e pesquisas que tenho desenvolvido, existe uma única conclusão com
relação ao ambiente de mudanças: ainda teremos pelo menos 15 a 20 anos de
intenso processo de modificações estruturais, que vão impactar a todos nós,
em todas as dimensões. Recentemente, fiz um resumo das idéias de vinte dos
mais importantes pensadores do mundo empresarial contemporâneo. Uma das poucas
convergências foi a unanimidade em torno desta questão: viveremos nos próximos
anos um período de ambigüidade, incerteza e caos.
Ora, o ócio é
simplesmente incompatível com este estado de coisas. As pessoas deverão estar
preparadas nestes próximos anos não só para aprender o novo - muitas vezes
desaprendendo o velho, o que é muito mais difícil - , como para melhorar e
otimizar o existente. Ao mesmo tempo, terão que incorporar as rupturas da
tecnologia, que serão uma surpresa a cada manhã. Terão também que saber
lidar com os postulados de uma Nova Economia. Neste caminho de novidades,
possivelmente deixarão de ser "empregados", para ter um
"trabalho". E grande parte, como patrão de si mesmo. Outras línguas,
antes aprendidas na base do "the book in on the table" terão que ser
usadas em diálogos reais com gente globalizada. Se de um lado a Internet
facilita o caminho da busca da informação, o conhecimento deverá ser um edifício
construído com muita energia e persistência. Estudar e aprender serão
atividades profissionais, fatores críticos de sucesso de todos; jamais um pedaço
do ócio criativo. O tempo será limitado porque outros paradoxos nos acompanharão.
A revolução da natureza
humana nos impulsionará a uma utilização mais plena de nossas virtudes. Vamos
querer participar mais do desenvolvimento social, porque somos, cada vez mais,
cidadãos do mundo, do universo, da humanidade. Vamos querer estar mais perto de
nossa família, porque, simplesmente, cada vez mais desenvolvemos a nossa
capacidade de amar. E, finalmente, porque aumentamos o nosso nível de
auto-estima, vamos querer mais tempo para nós mesmos, para o corpo, para a
mente, para o espírito. É necessário mudar o ouvido desta narrativa, para que
no futuro a gente não se arrependa com a ilusão da fantasia da espera de um
novo tempo que não chegou. E mais do que tudo, com o preço que se pagou.
Consultor - MARCO AURÉLIO FERREIRA
VIANNA / PRESIDENTE DO INSTITUTO MVC – M. VIANNA COSTACURTA ESTRATÉGIA
E HUMANISMO
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