Imagino que, se você é gestor em alguma
empresa, a pergunta acima lhe passou pela cabeça recentemente. Se pararmos
para pensar um pouco, a eleição de Lula significou, pelo menos no imaginário
de todos nós, uma ruptura com um modelo econômico que se tornara hegemônico
nos últimos 8 a 12 anos, dependendo do corte histórico que se quiser fazer.
É claro que nenhuma organização nega a
importância de se priorizarem ações voltadas para o social. Segundo
recentes pesquisas, muitas já estavam fazendo isso muito antes de surgirem
propostas como a Fome Zero.
Entretanto, nas organizações com finalidade
lucrativa, promover o incremento de vendas é parte dos desafios diários. Na
minha experiência como consultor e professor em cursos de Pós Graduação,
tenho observado que muitas empresas se contentam em aumentar as vendas,
independente do custo que isso gere. São, normalmente, empresas obcecadas
pelos ganhos de marketing share e suas conseqüentes implicações em
termos de economias de escala. Em outros artigos, já tivemos a oportunidade
de discutir que esse pode não ser o caminho ideal para muitas empresas.
Afinal, a vocação para atender nichos ao invés de amplos segmentos de
mercado não é demérita, uma vez que tem rendido muito dinheiro para aquelas
organizações que conseguem fazê-lo de forma original e diferenciada.
Por outro lado, dependendo do quanto
"alavancados" estejamos em termos de custos fixos, muitas vezes nos
vemos obrigados a perseguir tenazmente o aumento dos volumes de vendas. Para
consegui-lo, aceitamos praticar descontos enormes para as redes de distribuição
mais importantes (quem vende para Carrefour, Wal Mart ou Pão de Açúcar sabe
bem o que é isso), ou passamos a oferecer dispendiosos serviços para atrair
novos clientes (hoje em dia algumas seguradoras oferecem até serviços de
chaveiro e bombeiro hidráulico para diferenciarem-se de seus concorrentes).
Com essas estratégias conseguimos manter os volumes por algum tempo, mas
quando um concorrente passa a oferecer mais do que nós, ou cobrimos sua
oferta ou vemos os clientes correrem – sem qualquer drama de consciência
– para seus braços.
Acreditamos que existam duas alternativas –
ao alcance de qualquer empresa disposta a "pagar para ver" – que
permitiriam ganhos marginais expressivos nas vendas:
1a. Melhorar a competência
dos vendedores nas negociações comerciais
Parece incrível, mas a maioria dos
vendedores raramente participa de treinamentos de negociação. Em parte a
culpa disso é deles mesmos, que acreditam que nada mais lhes pode ser
ensinados e se contentam a praticar o que aprenderam na nem sempre eficaz
"escola da vida".
Por outro lado, muitos gestores comerciais se
sentem ameaçados quando percebem que o nível de capacitação de sua equipe
aumenta. Você pode pensar que isso é um absurdo – e é mesmo – mas a
explicação está na própria forma que as empresas fazem a seleção de seus
gerentes na área de vendas. Até hoje, infelizmente, são os melhores
vendedores que costumam ser promovidos a gerentes. Cabe perguntar: se eles
foram promovidos porque eram os melhores vendedores, a perda deste
"status" não vai ameaçá-los? Não quero cansar você com uma série
de reflexões sobre a natureza humana e a forma que lidamos com nossos medos,
mas proponho aqui uma analogia. Nos antigos filmes de faroeste, os melhores
pistoleiros precisavam provar continuamente sua habilidade. De
que forma o faziam? Matando todos aqueles que pudessem – no momento ou no
futuro – rivalizar com eles. Pense nisso.
Outra questão importante quanto ao
desenvolvimento das habilidades em negociações comerciais é que, no
passado, a maioria dos treinamentos que se propunham a isso se limitavam a
tentar "ensinar" técnicas de pressão psicológica, pressão de
tempo e outros truques e falcatruas. Aqui no MVC, quando trabalhamos com esse
público, preferimos valorizar o que os americanos chamam de "personal
touch". Isso não significa que nos descuidamos do processo, mas
preferimos enfatizar a importância dos comportamentos e estilos durante a
negociação, ao invés de tentar robotizar (ou neurotizar) os participantes.
Se você conversar com clientes que investiram conosco nesta área vai
verificar que, na maioria das vezes, seus vendedores passaram a obter melhores
acordos com seus clientes, ao invés de ficarem solicitando maiores margens de
desconto junto a seus gerentes.
2a. Perder as esperanças de
vender
Você pode pensar que endoidei, mas não é
nada disso. O filósofo Spinoza – provavelmente inspirado em Platão –
dizia haver uma significativa diferença entre esperança e vontade. Segundo
ele, a esperança significaria a expectativa de que alguma coisa que não
depende de você (ou sobre a qual você não tenha poder) aconteça. Já a
vontade representaria a disposição de lançar mão de coisas que você mesmo
controla a fim de obter um determinado resultado.
Na visão de Spinoza, seria totalmente sem
propósito uma pessoa começar o ano com a esperança de emagrecer. Se você
quiser iniciar o próximo verão com um corpo elegante e fazer inveja a
qualquer modelo, é preciso ter VONTADE e... fechar a boca e malhar
muito.
Assim sendo, não adianta termos esperança
de vender. É preciso que nos preparemos e tenhamos VONTADE de fazê-lo.
Como podemos nos preparar? Em primeiro
lugar é preciso entender e aceitar que vivemos numa era em que a informação
e o conhecimento são o mais importante capital de uma empresa. Nos últimos
anos, vivemos uma indiscutível evolução e expansão do conceito de
marketing, que passou a absorver novas funções, expandiu as fronteiras,
aproveitou-se de novas tecnologias e incorporou sucessivas inovações. Mas,
por mais incrível que pareça, a maioria das empresas ainda não assumiu as rédeas
do relacionamento com seus clientes.
Pensemos no exemplo das companhias de seguro.
Você tem uma seguradora preferida ou um corretor de confiança? Pode parecer
incrível, mas no caso das seguradoras, a gestão do relacionamento é
"terceirizada". Isso não acontece apenas nesse segmento. Ao começarmos
qualquer trabalho de consultoria em vendas sempre fazemos a seguinte resposta:
quem detém o histórico de relacionamento com os clientes? Na maioria das
vezes a resposta é: os vendedores que os atendem (uma variação é aquelas
que dizem que a área financeira possui esse histórico). Quando perguntamos
se a empresa sabe quanto custa cada visita feita pelo vendedor, normalmente se
instala um silêncio constrangedor. Ao inquirir se as margens de contribuição
de cada produto são conhecidas; se os clientes são alvo de uma classificação
do tipo ABC para se determinar a melhor forma de atendê-los (diretamente, por
via remota, através de revendedores); se a equipe comercial é cobrada por
outros indicadores de performance que não apenas o volume de vendas; se há
uma preocupação em adequar o perfil do vendedor ao perfil da clientela, e,
se existe alguma política sistemática de distinção entre clientes de maior
valor, de maior potencial e clientes que geram margem de vendas negativas, o
mais comum é nosso interlocutor tergiversar e mudar o foco da conversa.
Para nós essas são empresas cheias de
esperança, mas sem qualquer vontade de vender mais (não é à toa que nessas
empresas costumamos ouvir a clássica ladainha de que o mercado está em
recessão, os concorrentes são desonestos e o governo não ajuda e sim
atrapalha).
Em suma, se você quer vender mais e obter
melhores resultados financeiros em 2003, treine suas equipes, fortaleça a
autoconfiança de seus gerentes e perca as esperanças, mas... faça crescer
sua VONTADE de ser bem-sucedido.
João Baptista Vilhena
Diretor do MVC
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