Vitória De Pirro
Será que é preciso vencer,
vencer e vencer sempre? Será que a perspectiva da vitória é a única que
podemos viabilizar? Será que é humano vencer?
Imaginem esta alegoria. Uma
arena romana. Dois gladiadores em fim de combate. O imperador autoriza a execução
do perdedor. A platéia aplaude calorosamente a decisão...
Há mais de dois mil anos e um
bom tempo depois (lembram-se do faroeste?), a vitória era quase sempre sinônimo
de sobrevivência concreta. Matar ou morrer. Com o homem do século XX parece
que isto não aconteceu porque ele foi civilizado e distanciou-se pouco a pouco
da barbárie de seus ancestrais... Será mesmo?
A noção de um processo
civilizatório ou mesmo o referencial de ser civilizado como um bom
caminho social, foi um produto da modernidade. Antes dela ninguém se preocupava
com isto, ou seja, pouco importava ser civilizado para um imperador romano ou um
servo medieval. Eles até comiam com as mãos sem o menor constrangimento, por
exemplo.
Ser civilizado
representou para o homem moderno, entre outros aspectos, se diferenciar das
atrocidades cometidas pela humanidade no passado, com as quais o perfil moderno
não queria se assemelhar. E foi assim que passamos pelo século XX.
De fato, a civilização
ocidental embarcou no século XXI sem comer com as mãos há algum tempo. Mas,
por uma operação tão sofisticada quanto separar minuciosa e socialmente os
espinhos de um peixe com um talher, esta sociedade aprimorou os detalhes da barbárie,
de tal forma que eles passassem indeléveis pelo cotidiano.
A perspectiva de vencer sempre
diante, ora de uma competição, ora de uma negociação, ora de uma simples e
caseira relação interpessoal, foi parte deste mecanismo sofisticado da barbárie
politicamente correta que passou olimpicamente por todo o século XX. Era
preciso vencer na guerra, vencer na empresa, vencer na política, vencer na família...
Acontece que vencer, vencer e
vencer é tão bárbaro quanto matar, matar e matar, porque ambos partem do
mesmo princípio: o princípio da exclusão. Quando eu mato, excluo o problema,
o conflito ou o desafio. Elimino, enfim, o que me incomoda. Quando venço, faço
o mesmo. A diferença é que com o primeiro sou penalizado socialmente e com o
segundo sou calorosamente aplaudido pela platéia.
Mesmo com toda sua barbárie, o
Império Romano representou um passo largo de crescimento se considerarmos seus
ancestrais remotos, que tinham pêlo e comiam carne humana. Então, a pergunta
é: O que representaremos para os nossos ancestrais? Será que não seremos
ridicularizados no futuro pelo que somos calorosamente aplaudidos hoje?
Se o impulso da vitória é
excludente, por que não o trocamos pela perspectiva do sucesso, por exemplo?
Quando entro em uma negociação para ter sucesso ou quando me coloco no
ambiente de relações interpessoais com a mesma perspectiva, não parto do
princípio da exclusão. Ter sucesso é ter noção de continuidade e oferecer
ao outro a mesma possibilidade. Não importa quantas pontas façam parte de uma
negociação ou de uma relação interpessoal, todas podem ter sucesso se não
partirmos da noção de vitória; de exclusão do outro.
Uma empresa que se pauta pela
vitória e gere interna e externamente suas relações para esta perspectiva está
condenando a si mesma a um futuro nebuloso e excludente. Hoje pode vencer...
amanhã, quem sabe?
E será que precisamos excluir
o outro... a outra organização para termos sucesso? Será que este canibalismo
empresarial nos diferencia de nossos ancestrais remotos? Por mais bárbaro que o
Império Romano possa parecer aos nossos olhos hoje, ele agregou humanidade aos
seus remotos ancestrais. Parece que é hora de agregarmos mais humanidade aos
nossos predecessores.
Talvez seja hora de trocarmos
de talheres. Quem sabe, precisemos menos de instrumentos que separem e excluam
minuciosamente e mais de recursos que nos capacitem a viver oferecendo ao outro
e, portanto, a nós mesmos a possibilidade de sucesso, a possibilidade de
construir nossa existência plenamente.
Uma empresa que elimina hoje
pode ser aquela eliminada amanhã. Este é, por si só, um bom motivo para
pensarmos sobre o que fazer do presente para termos sucesso no futuro.
OBS.: Material retirado do Programa Comunicação
para Resultados do Instituto MVC.
Eunice
Mendes
Consultora
do Instituto MVC
Adriana
Canova
Doutora
em Sociologia pela UNESP
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