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Você é Kairos Ou Chronos?

 

A festa estava realmente muito animada. Eu conversava com um grupo que acabara de se formar naquela noite, mas parecia que já nos conhecíamos há anos. Sabem, aquelas reuniões para as quais se é convidado e não conseguimos dizer não. Mas daquelas em que preparamos estratégias antes de entrar, do tipo se fulano estiver na sala, passo de fininho, digo olá e sigo para o outro extremo da casa. E um grupo bem interessante acabou se formando naquele extremo da casa, certamente cada um fugindo de algum fulano. Falamos de tudo, jogamos conversa fora e ouvimos histórias interessantes. E na hora em que falávamos sobre o significado do tempo (o papo estava sério mesmo!) chegou-se ao grupo o Zezo, um dos fulanos da sala. Não, não era o fulano que me fizera ir para aquele local, mas o fulano que fizera com que Judite se juntasse ao nosso grupo. Quando Zezo chegou, ela educadamente perguntou-lhe como estava passando, e como tinham sido suas recentes férias no exterior. O pior é que ele contou.


Mais ou menos assim.

Foi razoável, mas com muitos contratempos.

- O vôo de ida saiu quase no horário, mas o de volta atrasou quase quatro horas, e eu fiquei super irritado com a empresa aérea, que me deixou sem qualquer atendimento ou informação sobre os motivos do atraso, plantado no aeroporto.

Além disso, o hotel me fez cumprir o horário de saída ao meio-dia, mesmo sabendo que o vôo era à noite. Fiquei esperando um bom tempo no hall, cheio de malas e sem nada para fazer.

Quando ia continuar, Zezo foi chamado de volta à sala para contar para outro grupo um fato ocorrido na viagem, e Judite deu força para que ele fosse.

- Vocês me desculpem, mas volto assim que puder.

Tão logo o Zezo saiu, Judite voltou ao papo sério de antes:

- O grego tem duas palavras ligadas ao tempo: chronos e kairos. Zezo é chronos, tempo para ele tem a ver apenas com horários, atrasos, prazos e duração de eventos e atividades, e isto é o que nos diferencia. Tempo para mim é kairos, tem a ver com valores e qualidade no uso do mesmo.

Paulinho comentou logo a seguir:

- Mas Judite, como é que você contaria a mesma história do Zezo? Afinal, deve ter sido uma chatura ficar no hall do hotel sem fazer nada, e pior ainda esperar por quatro horas num aeroporto, louco para embarcar de volta para casa.

Ao que Helena Maria acrescentou:

- É, não dá para dizer que tudo isso é natural e que nada aconteceu...

- Tem razão, disse Judite, mas a percepção do que aconteceu e a escolha do que fazer é que fazem a diferença entre um chronos e um kairos.

Paulinho então pediu:

- Judite, se fosse você contando o ocorrido, como teria sido?

Judite falou:

- É claro que não vou alterar os fatos, pois isto não faz sentido. Talvez teria interpretado e dito de uma maneira diferente. Mais ou menos assim.

- A viagem foi cheia de surpresas. Visitei todos os lugares que havia planejado, e ainda dei uma fugida de dois dias até Boston, pois sempre tive muita curiosidade sobre a cidade, e nunca aparecia uma oportunidade. Você sabe, trabalhei numa multinacional, e toda viagem internacional era do tipo casa-avião-trabalho-hotel-trabalho-avião-casa. Dessa vez consegui!

No dia do retorno, tentei um late check-out no hotel, mas não obtive. Pois pouco depois do meio-dia botei as malas no maleiro do hotel e fui almoçar no Four Seasons, e só me dei conta da hora quando eram quase quatro da tarde! Aquele restaurante é demais e, é tão nós podermos ficar perdido no tempo, sem qualquer compromisso imediato... Resolvi então voltar a pé, olhando vitrines e demorando o quanto quisesse em cada uma delas, já que só no final da tarde iria para o aeroporto. E não é que o vôo atrasou? Fiquei uma fera no balcão, falei que queria ser tratado com consumidor, que tinha horários para cumprir ainda no dia da chegada ao Brasil, mas ao final pensei: bem, como gastar quatro horas num aeroporto sem se chatear muito? Nas free-shops e nas livrarias. E foi o que fiz, e quase perdí a hora do vôo...

Helena Maria então disse surpresa:

- Oi, é verdade que ele foi até Boston por dois dias, e que também almoçou no Four Seasons?

- Não, apenas ele foi até Boston, mas não pôde visitar o MIT porque senão iria se atrasar. E me disse que na próxima viagem vai arranjar um tempo para ir ao Four Seasons para almoçar...

- Mas que bobagem, disse Paulinho, a oportunidade estava lá e ele não a aproveitou...

Esta pequena história é bem próxima da que realmente aconteceu a menos dos nomes das pessoas envolvidas, ela mostra claramente duas possíveis interpretações para o mesmo fato a partir da visão do que significa o tempo para cada um de nós. A realidade não mudou, e não estamos defendendo uma visão exclusivamente kairos do tempo. Mas pensar apenas chronos é limitar e estreitar o uso do tempo ligando-o apenas ao relógio, aos afazeres e tarefas, deixando de lado o usufruir, o aproveitar e o usar o tempo com qualidade e não como quantidade. S. Covey nos lembra que o tempo é algo para ser experienciado, e que a essência do kairos é o que você obtém dele, ao contrário do chronos, que se preocupa com quanto você gastou dele. A escolha é livre, depende apenas de cada um de nós, mas esta opção preferencial por uma ou outra visão do tempo pode nos tornar mais pacientes, alegres e de bem com a vida e com os demais.

E afinal, você está sendo mais chronos ou kairos com o seu tempo?

Fernando H. da Silveira Neto
Professor dos Departamentos de Informática e Eng Industrial/Produção da PUC-Rio, professor dos MBAs da FGV em Gerência de Projetos, mestre em Eng. Industrial e Eng. de Telecomunicações e consultor.

 

 



 

 

 

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