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A Adrenalina da onipotência

A adrenalina da onipotência

Quando nos colocamos no topo da auto-suficiência durante muito tempo – “muito tempo” é uma medida que varia individualmente – a casca criada é tão falsamente forte, que ao primeiro sinal de rachadura o impacto interno é devastador.

Um mundo inexorável de sensações ambíguas de “ser cuidada” versus a dominância interna da “cuidadora Nata”, ou seja, aquela que nasceu pra resolver, fazer e acontecer e quando isso começa a desmoronar, parece que o chão vai junto.

E qual o motivo dessa rachadura? Sejam motivos internos ou não, em algum momento as questões afloram. Afinal, que papel eu quero desempenhar agora?

E então, para somar-se à primeira questão, vem a segunda: E por que ter que escolher? Estamos todos afinal condenados a condição eterna da escolha?

E a terceira… Por que essa sensação de querer viver tudo “muito”? Tudo tão intensamente como se somente pudesse ter o melhor de uma fruta se eu somente comesse uma de cada vez, embora a salada de fruta seja um misto de tudo e é tão bom.

E após a terceira, vem a quarta: Qual o sentido disso tudo?

E a quinta e quantas mais brotarem de seu interior. E no fim das perguntas?

Vem então a hora de transferir a responsabilidade e o preço da autoconsciência. E é muito instintivo, parece que já vem programado na sua alma. E o ritual começa: Colocar a culpa na numerologia, nos hormônios, na discriminação da mulher, inferno astral, cosmos, visinhos, amigos, mal olhado, família, criação, inveja e mais uma lista de possíveis motivos pelos quais essa sensação devastadora – de não conseguir encontrar um lugar dentro de si – te assola por completo.

Mas afinal, como se chega nesse lugar sem se dar conta? De que forma mágica eu caminhei essa estrada que me levou direto ao mundo atual impalpável, duvidoso e incerto recheado de sensações de estar perdida e sem rumo? Em que momento eu errei as placas de sinalização de saída de emergência?

E chega a vez da negação – A síndrome de Gabriela:

…Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo sim, vou ser sempre assim Gabriela… (Modinha para Gabriela de Dorival Caymmi)

Essa desculpa esfarrapada e desgastada dura pouco. Somos resultados de um conjunto de vivências únicas e que mudam e mudarão ao longo de toda vida. Como assim eu vou ser sempre assim? Nem que eu quisesse muito.

A sensação pode ser comparada a de estar no mar aonde ondas vem e vão, me levando para frente e para trás.

Mas tem um momento que eu consigo por meus pés no chão e logo me alivio. Nesses momentos até penso que exagerei em considerar que tudo estava fora de controle e que tudo vai ficar bem. Posso até ensaiar um sorriso de alívio afinal.

E então, eis que sem pedir licença vem o Tsunami da realidade, arrastando o meu chão e levando todas as minhas novas expectativas para bem longe, varrendo tudo que eu entendia durante muito tempo como completo, inteiro e correto.

Este é o momento singular, aquele em que percebo que qualquer mudança exige adaptação e por lógica um movimento para fora do cantinho pseudo-seguro construído durante anos. Anos gastos na construção de uma pessoa bem sucedida sim, mas que agora se questiona sobre a permanência nessa estrada rodada, conhecida e inóspita. Permanecer ou não no processo desgastado de viver o que não se quer mais?

Eu sei que toda mudança causa um reboliço e até uma rebordosa, por melhores que elas sejam. Permiti-me sim, ficar paralisada pela abstinência da adrenalina de ser, estar, parecer, permanecer e ficar. A adrenalina da onipotência. Eu precisava desse momento. De “ouvir o nada”, de “pisar no freio” e de “franzir as sobrancelhas”.

Usei algumas as teclas do controle remoto da minha vida: O play, e então o forward – acelerando fundo – e até o pause, para avaliar a situação em todas as suas nuances. E estou bem na hora do stop, para que eu possa reiniciar, voando acima das nuvens.

Embora seja um processo de melhoria continua e diária, sei ao menos para onde não quero mais ir e em que lugar eu quero estar. Esse foco é o combustível para uma mudança que ferve internamente e se estrutura para permanecer pelo tempo que eu quiser. E então sim, eu experimentarei a onipotência de ser feliz, com tudo que vier, mas do meu jeito. A felicidade e a liberdade que moram dentro de mim.

Nayra Magalhães
Personal & Professional Coach
Membro da Sociedade Brasileira de Coaching
www.nayramagalhaes.com.br

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