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A Droga Da Hipocrisia

A droga da hipocrisia

Antônio de Pádua Galvão*

A Praça Sete é desígnio de liberdade. É trilha para refletir sobre a emancipação. E no encontro marcado do Café Nice a polêmica sempre prospera. Em um desses repertórios, ouvi no calor do debate: “Pitei, mas não traguei droga nenhuma”. Nesta droga de vida repleta de conflitos: violência urbana, truculência cotidiana, trabalho repetitivo, sexo fugaz, barulho estridente, descarrego, ladainhas e pregação, muitos seres humanos não encontram silêncio e tranquilidade da alma. Lentamente vão sucumbindo, perambulam e tornar se zumbis urbanos.

Nesse contexto, o alívio de muitos vira o tormento para outros. O vício toma conta e escraviza. A droga é assunto complexo. Está repleto de adoecimento, delírios, violência, morte, preconceito e paixão. Não sou especialista, mas pago tributos e sou um cidadão que reflete sobre os valores das coisas e o insondável do psiquismo. Nunca gostei muito de fumo ou chumaço de cigarro. Fumaça somente da velha locomotiva, do trem de ferro ou de um bom churrasco. De excessos, permito-me o chopp ou a cerveja gelada, de preferência no bar do Marcinho, com um bom tira gosto.

Na juventude, nos idos da década de 70, confesso que pitei, mas não traguei. Nunca fui apreciador da cannabis. Não faço apologia às drogas ou qualquer vício. A sociedade carece de novos paradigmas para tratar desse grande problema. Neste turbilhão que envolve guerra de traficantes, viciados em crack, violência banalizada, excessos policiais, moralismo em ascensão e familiares destruídas, o debate é tão necessário quanto urgente.

Os EUA gastam bilhões e não conseguem dar conta deste bilionário mercado. A indústria multinacional da droga gera excessos de toda ordem. De acordo com a enciclopédia online Wikipédia, “algumas estimativas do comércio global puseram o valor das drogas ilegais a cerca de US$ 400 bilhões no ano 2000; que, somado ao mesmo tempo ao valor do comércio global de drogas legalizadas (tais como o tabaco e o álcool), corresponde a uma quantidade superior ao dinheiro gastado para a alimentação no mesmo período de tempo. Em 2005, o Relatório Mundial sobre Drogas das Nações Unidas informou que o valor do mercado ilícito de drogas foi estimado em 13 bilhões de dólares ao nível de produção, 94 bilhões ao nível de preço de mercado e a mais de um trilhão baseado nos preços de cultura, levando em conta inclusive as perdas”.

Precisamos deixar de ser hipócritas e tratar desse assunto com toda a sociedade de forma ampla e madura. A descriminalização da droga, o mapeamento dos produtores e consumidores, o gasto público com saúde e segurança pública na repressão e todo o aparato que as drogas ilícitas demandam, carece de ser debatido considerando a possibilidade de algum nível de legalização. É necessário reescrever o Estatuto da Droga convocando todos os especialistas, autoridades públicas, usuários, produtores, familiares, religiosos, educadores e todos que podem colaborar para desatar este nó da sociedade. Do contrário, continuaremos sofrendo com as drogas da hipocrisia e da indiferença.

Sou da geração que fumou cigarro de chuchu, palha, papel de jornal e depois evoluiu para a “maldita” ou “bendita” maconha. Frequentemente ouço comentários que fulano continua pitando, desde o tempo da faculdade, e vive bem. Dá conta dos seus compromissos familiares e profissionais. Esses pitaram, tragaram e não piraram. Muitos sucumbiram ao desatino.

Precisamos de muita ousadia para encarar o problema, promover debates, seminários sobre política de reparação de danos, aprofundamento da descriminalização de drogas “leves” e permitir manifestação da marcha da maconha. Para esse tema, não há uma resposta pronta e acabada, mas é necessário coragem para assumir um problema que inferniza nossa sociedade.

*Antônio de Pádua Galvão é economista, psicanalista e professor.

www.galvaoconsultoria.com.br

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