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A HolÍstica, As MudanÇas De Paradigma E O Desenvolvimento Gerencial.

O momento é de profundas transformações dos valores da sociedade contemporânea e, em específico, das mudanças paradigmáticas. As organizações, como conseqüência, também são objetos deste processo, que em última análise afetam os homens que as compõem.
O avanço tecnológico é o grande delimitador dos contornos destas mutações. Ele vem, em tese, como libertador do homem oprimido por uma série de tarefas mecânicas no dia-a-dia, permitindo-lhe dedicar mais tempo a si mesmo. Na prática, porém, os efeitos da tecnologia são percebidos mais como escravizadores do homem, do que como formadores de condições para que haja um mundo melhor e, digamos até, mais justo. Qual seria a razão para tais resultados? Como compreender estes sinais de nossa vida moderna?
O indivíduo, geralmente, quando ingressa na organização está repleto de esperanças, idéias, criatividade e grandes expectativas em contribuir da melhor forma para o desenvolvimento da organização. Porém, a realidade vem mostrar que ele não poderá atender estas expectativas e aplicar suas idéias no decorrer de sua carreira, pois os comportamentos inovadores são punidos pela realidade dos procedimentos rotineiros da organização. De fato, o que se observa é que até então pouca importância se tem dado aos aspectos das relações do homem com o próprio homem. Somente agora se percebe a verdadeira importância de compreendê-las em profundidade, o que também advém do enfoque renovador de nossos dias. Particularmente, muitas das interações existentes no contexto deste relacionamento estão vinculadas ao cotidiano da vida nas organizações, pois estas se integram ao ambiente como transformadoras do mesmo e como vítimas desta transformação. O contexto organizacional é indissociável do social contemporâneo.
Não se pode negar que o homem dentro da organização, anteriormente encarado apenas como “ferramenta” de trabalho, está passando a uma condição diferente. A empresa de hoje deve reconhecer que está nascendo uma nova realidade, onde muito do dia-a-dia organizacional advém do contexto do comportamento humano, a começar pela inegável influência da personalidade humana no estilo administrativo das empresas. As orientações e ações decorrem igualmente dos desejos, das convicções, dos gostos e dos interesses pessoais, além das forças e valores intrapsíquicos e profundos.

Em verdade, estamos sob a proposição de uma nova dinâmica organizacional. Os aspectos da natureza humana – como emoções, desejos, fantasias, frustrações – passam a ser encarados como fatores determinantes dos resultados globais então ocultos, relegados a um plano inferior, e vêm trazer novos subsídios para a compreensão da maneira como deverão se portar as organizações.
Deve-se agora criar espaço para trazer à tona o homem como ele realmente é, estimulando o surgimento de sua realidade interna. É necessário se trabalhar esse lado afetivo, espiritual/cósmico, como forma de alcançar um equilíbrio, que hoje não existe. A tecnologia, ou melhor, a maneira como nessa sociedade a instrumentalizou, escraviza o ser humano no sentido de que lhe impõe novos esforços, novas cobranças e ritmo, sem lhe deixar condições de dedicar-se a si mesmo, sem lhe permitir aquele tempo livre para engrandecimento interior. Os formalismos das regras institucionais devem ser deixados de lado, como forma de flexibilizar as organizações e os elementos que delas fazem parte. Não se trata de pregação do anarquismo. Trata-se, sim, de encarar uma realidade que mostra o quanto é importante conhecer o lado oculto das pessoas, das empresas, pois, de fato, lá é que estão as respostas às muitas de nossas perguntas; e, dentro desse universo, muito pouco há de formal: pronuncia-se de maneira mais intensa a intuição, a emoção.
O imaginário das pessoas em postos de direção sempre desempenhou um papel importante na administração das empresas. Entender os processos administrativos significa refletir profundamente sobre a realidade do poder.
Além da visão, a administração implica necessariamente que a pessoa em posição de direção utilize e mobilize certas fontes de autoridade à sua disposição e, dessa forma, exerça o poder. O exercício do poder ativa ou reativa as fantasias. São os próprios fundamentos do nosso imaginário, tanto em sua dimensão cognitiva, quanto em sua dimensão afetiva: o desejo de ser amado, de ser admirado, o medo de ser insuficiente ou indigno, o medo de ir longe demais na utilização do poder, a ansiedade frente às mudanças de status e à competição, a inveja associada às inevitáveis injustiças, os desejos de igualdade e de independência, o desejo de ser excepcional, único, ímpar, o desejo de criar seu universo, seu mundo, seu nicho, sua competência particular.
O autor considera que a administração centrada no indivíduo pode trazer e, inclusive, tem trazido contribuições efetivas para o desenvolvimento da proposta holística.

Entende-se por administração centrada no indivíduo o enfoque que considera o sujeito como centro do processo de trabalho, pois é através dele que a tarefa é executada, indicando também aspectos reforçadores e facilitadores do desempenho individual e grupal. Entre elas, citam-se:

 A liderança tende a propiciar autonomia às pessoas e aos grupos;
 Há uma tendência acentuada de estabelecer uma liberdade pessoal: o indivíduo tende a assumir a administração de seu próprio tempo ( o momento) no ambiente de trabalho;
 Há facilitação do processo de aprendizagem;
 Ênfase na independência tanto em termos do pensamento como da ação;
 Valorização da criatividade inovadora, acentuando a realização individual e/ou grupal;
 Estímulo a uma postura em que prevaleça o feedback nas interações pessoais e profissionais;
 Ênfase na maximização das potencialidades, tornando as aptidões e habilidades compatíveis com as tarefas;
 Focalização do aspecto que proporcione ao indivíduo auto-desenvolvimento, levando-o à busca de satisfação na realização de atividades adequadas a sua pessoa;
 Estímulo ao desenvolvimento com ênfase nos estados empáticos, projetando-se no lugar do outro;
 Ênfase às relações interpessoais, tendo em vista o contexto socioprofissional.

Quando o universo organizacional flexibiliza-se, o homem sente-se mais à vontade para deixar aflorar suas reais características e, por sentir-se mais autêntico, torna-se mais integrado, responsável, participante; uma parte do todo, ou o todo em uma parte, como no enfoque holográfico. Nesse sentido, as nossas inter-relações e intervenções em todas as nossas atividades reais representam inteiramente as dimensões de nossa personalidade que podem
entrar em ação e ser ativadas, sobretudo as dimensões afetivas, naquilo que ela têm de mais profundo e inconsciente. São realidades imaginárias que podem ser usadas produtivamente nas práticas de administração e liderança, dependendo da adaptação a uma dada situação. Do ponto de vista gerencial, deverá haver a supremacia da competência interpessoal sobre a competência técnica, dentro do modelo holístico (concepção globalizada do mundo e, por extensão, da própria organização, onde nada é estanque, havendo inter-relações entre as partes e o todo). Para isso, profundas modificações na cultura organizacional serão necessárias, resgatando a valorização do ser humano sobre a tecnologia.
De fato, tudo isto reflete um emergente balizamento de um processo de desenvolvimento organizacional. Um processo lento é necessário, pois não se pode alcançar resultados rapidamente, uma vez que são necessárias assimilações de novos conceitos: sabe-se que mudanças geram resistências em grau proporcional ao estilo pessoal de cada dirigente, cada subordinado. Sob certos aspectos, estas são até saudáveis, devendo ser removidas com abordagem franca, oriunda até mesmo do estudo do processo psíquico dos elementos envolvidos.
Não haverá futuro se não encararmos com realismo as “novas”, ou melhor, recentemente despertas necessidades e características do homem. As organizações devem contribuir para o atendimento destas, porém, em última análise, os efeitos comportamentais do humano ditarão sua continuidade no tempo. Do ponto de vista da Holística, o melhor modelo organizacional para o futuro seria o que permitisse ao homem alcançar sua plenitude, conviver com a velocidade do mundo sem ser obrigado a andar com ela, ser flexível e sentimental sem que isto denote um suposto enfraquecimento pessoal, pois haverá espaços para o subjetivo. A implementação desta proposta será árdua, mas necessária, pois, do contrário, inviabilizar-se-ão a sociedade, as organizações e, evidentemente, o próprio homem.

¬¬¬¬¬¬¬(*Psicólogo, Mestre e Doutor em Ciências junto à Universidade de São Paulo; Professor do CEAPOG/IMES e Sócio-diretor da Roka Consultoria em Recursos Humanos. Coordenador do Mestrado em Administração junto à Unimonte. Autor do livro: Comportamento Humano nas Organizações: O Homem Rumo Século XXI, Ed. Atlas 1999, 2ª edição.

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