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A ImportÂncia Dos Jogos Na FormaÇÃo Integral Do IndivÍduo

Os jogos infantis têm sido objeto de estudos e pesquisas, especialmente nos últimos dez anos, sendo reconhecido por especialistas como fundamental para o desenvolvimento e formação da criança, dentro do currículo pré-escolar. Os professores precisam ter consciência plena do quanto é importante um espaço, físico ou temporal, para o desenvolvimento desta atividade.

Os jogos são classificados por faixa etária, por área de desenvolvimento, por tipo de estímulo, pela origem, pela utilização ou não de objetos etc. Existem, também, os Jogos Tradicionais, que aprendemos com nossos pais e avós. Esses jogos não foram extraídos de livros, nem ensinados por professores, mas transmitidos pelas gerações anteriores a nossa ou aprendidos com nossos colegas. São os jogos que aconteciam na rua, no parque, na praça, dentro de casa ou no recreio da escola.

Estudiosos da matéria que se aprofundaram nos Jogos Tradicionais os definiram de diversas formas. Florestan FERNANDES, em sua obra Folclore e Mudança Social na Cidade de São Paulo, faz uma análise muito interessante, ao afirmar que através do “folguedo folclórico” a criança não só “aprende algo”, como adquire uma experiência societária de completa significação para o desenvolvimento da sua personalidade.

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Os elementos do folclore infantil, que constituem grande parte do patrimônio lúdico das crianças, são todos tradicionais, o que significa dizer que são valores vindos de nosso passado, do período da nossa formação, constituindo o ambiente moral em que nos formamos.

O iugoslavo, Ivan IVIÓ, especialista na pesquisa de Jogos Tradicionais, por sua vez, os define como sendo uma forma especial da cultura folclórica, em oposição à cultura escrita, oficial e formal. Segundo IVIÓ, o Jogo Tradicional infantil é a produção espiritual do povo, acumulada através de um longo período de tempo. Esses jogos mudaram no processo do esforço criativo coletivo e são anônimos. A forma de criação e o mecanismo de transmissão são os dois critérios que distinguem os Jogos Tradicionais.

As crianças aparecem como transmissoras desses jogos, ajudando a explicar o fato de os Jogos Tradicionais terem sobrevivido por séculos e de serem semelhantes em todo mundo.

O Jogo é um organismo vivo e a sua pesquisa dirige-se aos Jogos Tradicionais que vivem nas crianças todo dia e que constituem, junto com as criações verbais das mesmas, um folclore infantil separado que integra a sua vida social.

Já os estudos de caráter pedagógico sobre Jogos Tradicionais definem o jogo como um instrumento ou ferramenta educacional, como sendo a criança o sujeito da educação.

No Brasil, mesmo sem abordar especificamente os Jogos Tradicionais, podem ser citadas dentro desta linha de estudos, as obras de Nicanor MIRANDA, Ethel Bauzer MEDEIROS, HALLIER & MACEDO e o estudo de Maria Alice MAGALHÃES, que dão destaque para sua importância dentro do contexto educacional.

O Jogo Tradicional é memória, mas, também é presente. Se observarmos detalhadamente o jogo da criança de hoje em comparação aos jogos infantis de épocas mais antigas, constataremos que existem grandes diferenças. A televisão e a tecnologia dos brinquedos atuais mudaram a brincadeira infantil. A falta de espaço e de segurança pública, também modificaram algumas brincadeiras. Amarelinha, pião, papagaio, barra-manteiga, esconde-esconde e inúmeras outras brincadeiras estão hoje presentes na lúdica, sob outra forma ou com outra denominação. Mas o conteúdo continua sendo o mesmo.

Em segundo lugar, se faz evidente um aumento no consumo massivo de brinquedos, em consequência da evolução da indústria e da publicidade. Quais são as consequências imediatas que podemos observar? A criança está mais voltada para o brinquedo-objeto e “hipnotizada” com a telinha e suas mensagens. Em nosso país, especialmente nas classes de baixo e médio poder aquisitivo esta situação vem se modificando cabendo ao educador despertar nas crianças o interesse pela comunicação e a criatividade, através do aprendizado dessas brincadeiras tradicionais, que são para elas muito novas. Qual a criança que frente a um pião, com toda a técnica que o seu uso implica, não fica admirada com este “novo-brinquedo-velho”?

Finalmente, devemos destacar o papel fundamental que o Jogo Tradicional tem como instrumento para o desenvolvimento das capacidades físicas, motoras, sociais, afetivas, cognitivas e linguísticas nas crianças. Para ilustrar esta afirmação, devemos tomar como exemplo, o jogo de bolinha de gude. Se analisarmos o desenvolvimento deste jogo, como fez Piaget, poderemos classificá-lo como sendo um jogo de regras. Na transmissão das regras do jogo de bolinha, por exemplo, as crianças são influenciadas, primeiramente, pelos seus pais.

É muito interessante observar que entre crianças de uma mesma geração, dentro de um mesmo espaço, existem inúmeras maneiras de jogar bolinha. De um grupo para outro, mudam as regras. A regra do jogo consiste em colocar algumas bolinhas num quadrado para depois pegá-las, deslocando-as por meio de uma bola maior que as demais. Embora seja simples, essa brincadeira tem muitas funções úteis, como possibilitar à criança a aprendizagem de algumas regras morais, a obtenção de noções de espaço e tempo, o trabalho com noções de matemática e física, assim como a sua sociabilização, através da cooperação e da competição. Este jogo contribui também para o desenvolvimento da cognição, levando a criança a pensar, analisar e tomar decisões.

Do ponto de vista físico e motor, adotam-se uma postura e movimentos específicos do corpo para se jogar corretamente. A criança desenvolve também a motricidade fina, já que existe uma forma certa de segurar as bolinhas e jogá-las. No plano afetivo, podem ser observadas diversas atitudes nas crianças, que podem ser desenvolvidas ou mudadas através do jogo: se a criança é exaltada ou calma, se tem paciência ou não, as reações que ela tem frente ao sucesso ou ao fracasso etc. A capacidade de aprender desenvolve-se, também, através do aprendizado de regras, métodos etc.

Existem inúmeros critérios para classificar os jogos e isto tem sido tarefa de vários autores e estudiosos de diferentes áreas: Sociologia, Psicologia, Pedagogia etc. Existem, inclusive, classificações especificas para brincadeiras tradicionais utilizadas em projetos internacionais.

PIAGET elaborou uma classificação baseada na evolução das estruturas mentais. Existem três formas básicas de atividade lúdica que caracterizam a evolução do jogo na criança, de acordo com a fase do desenvolvimento em que aparecem:

• Jogos de Exercício – caracterizam a etapa que vai do nascimento até o aparecimento da linguagem, apesar de reaparecerem durante toda a infância. O jogo surge primeiro sob a forma de exercícios simples cuja finalidade é o próprio prazer do funcionamento. Esses exercícios caracterizam-se pela repetição de gestos e de movimentos simples e têm valor exploratório. Dentro desta categoria podem ser destacados os seguintes jogos: sonoro, visual, tátil, olfativo, gustativo, motor e de manipulação.

• Jogo Simbólico – entre os dois e os seis anos a tendência lúdica predominante surge sob a forma de jogo simbólico. Nesta categoria o jogo pode ser de ficção ou de imitação, tanta no que diz respeito à transformação de objetos, quanto ao desempenho de papéis. A função do jogo simbólico consiste em assimilar a realidade.

É através do faz-de-conta que a criança realiza sonhos e fantasias, revela conflitos interiores, medos e angústias, aliviando tensões e frustrações. Ao reproduzir os diferentes papéis, de pai, mãe, professor, aluno etc., a criança imita situações da vida real. Nele, aquele que brinca dá novos significados aos objetos, às pessoas, às ações, aos fatos etc., inspirando-se em semelhanças mais ou menos fiéis às representadas. Dentro dessa categoria destacam-se os jogos de faz-de-conta, de papéis e de representação. Estas denominações variam de um autor para outro.

• Jogos de Regras – começam a se manifestar entre os quatro e sete anos e se desenvolvem entre os sete e os doze anos. Aos sete anos a criança deixa o jogo egocêntrico, substituindo-o por uma atividade mais socializada, na qual as regras têm uma aplicação efetiva e as relações de cooperação entre os jogadores são fundamentais. No adulto, o jogo de regras subsiste e se desenvolve durante toda a vida por ser a atividade lúdica do ser socializado. Há dois casos de regras:

– regras transmitidas – nos jogos que se tomam institucionais, diferentes realidades sociais se impõem por pressão de sucessivas gerações, jogo de bolinha de gude, por exemplo.

– regras espontâneas – vêm da socialização dos jogos de exercício simples ou dos jogos simbólicos. São jogos de regras de natureza contratual e momentânea.

Os jogos de regras são combinações sensorimotoras (corridas, jogos de bola) ou intelectuais (cartas, xadrez), com competição dos indivíduos e regulamentados por um código transmitido de geração a geração, ou por acordos momentâneos.

Por tudo que foi exposto, tem-se fundamental a introdução do jogo de regras na pré-escola, e foi nesta linha que KAMII e DEVRIES destacaram a importância do Jogo em Grupo e analisaram a sua aplicação, a partir da classificação adotada seguir. Esta classificação enfatiza a importância dada por PIAGET ao papel da ação e à ideia de que a ação mental e a física estão muito relacionadas. As categorias são: jogos com propósitos definidos (jogos de bolinha); corridas; jogos de perseguição (pega-pega); de escondidas; de adivinhar; de baralho com tabuleiros (dominó) e jogos envolvendo comandos verbais.

A partir destes oito tipos mencionados, temos os jogos de papéis paralelos, onde todos os jogadores fazem a mesma coisa; e os jogos de papéis complementares, onde os jogadores fazem coisas diferentes, complementares.

No jogo motor e individual (desde o nascimento até os três anos), a criança brinca sozinha, fazendo várias coisas com os objetos: pega, mexe, levanta, junta, sacode, esconde, acha objeto etc.

No jogo egocêntrico (entre dois e seis anos), a criança imita e também brinca sozinha ou paralelamente com outras crianças, mas sem a intenção de ganhar: o outro não importa. Aos cinco, seis anos mais ou menos, a criança começa a adquirir a capacidade de se ver em relação a outras crianças. Quando isto acontece, ela começa a comparar resultados e a coordenar as intenções do outro. A cooperação incipiente que aparece entre os sete e oito anos e a codificação das regras aos onze, doze anos.

A classificação feita permite enquadrar perfeitamente os Jogos Tradicionais dentro de cada categoria Este enquadramento pode ser útil principalmente para o professor ter uma melhor orientação quanto ao tipo de jogo tradicional a ser utilizado em cada situação, levando em conta seus objetivos, a faixa etária das crianças, e permitindo uma análise das possíveis áreas de desenvolvimento que o jogo possa propiciar.

É importante ressaltar o papel do monitor numa brincadeira tradicional. O professor pode propor as regras do jogo em lugar de impô-las. Desta forma as crianças têm a possibilidade de fazer as regras.

É, também, muito importante compreender que a criança pré-escolar (dois a seis anos) tem um pensamento diferente quando está frente a uma brincadeira de grupo que implica competição. Por exemplo, sua atitude frente a uma corrida é a de que cada um pode ganhar; quando brinca de esconde-esconde a criança, muitas vezes, “mostra” onde está escondida; em “corre-cotia” o pegador pode correr em volta da roda sem realmente fazer esforços para pegar o colega. É importante o educador refletir sobre esta questão, pois muitas brincadeiras devem ser modificadas para ir ao encontro do pensamento infantil. Para tal, o professor deve, depois de ter explicado a regra correta do jogo, seguir a forma como as crianças brincam. Outra possibilidade seria introduzi-lo de forma não competitiva.

O poder do adulto deve ser reduzido para motivar a cooperação entre as crianças, permitindo que elas tomem decisões por si mesmas, desenvolvendo, assim, a sua autonomia intelectual e social.

Na hora de explicar o jogo, o professor deve ser claro e breve. A sua intervenção na brincadeira será mais necessária no começo, devendo ser evitada quando as crianças conseguirem brincar sozinhas.

O fato de a criança pré-escolar não respeitar as regras é normal, pois, inicialmente, ela é egocêntrica, desenvolvendo, gradualmente, a habilidade de coordenações e pontos de vista com os outros.

Se uma criança não quer participar do jogo, ela não deve ser obrigada a tal. O professor deve prestar atenção a estas situações, pois, muitas vezes, o medo é uma das razões para que ela não queira brincar. Na hora da escolha, o mais importante é destacar qual é a sua função do ponto de vista educacional.

Nas brincadeiras tradicionais é interessante notar que os objetos de brincar são muito simples e fáceis de arrumar. A criatividade quanto à variação dos mesmos depende de cada educador.

Alguns objetos, logicamente, serão somente encontrados nas chamadas “lojas de brinquedos educativos” (por exemplo, o pião). Mas também eles podem ser confeccionados pelas próprias crianças como montar uma pipa, desenhar a amarelinha, construir uma peteca etc., o que contribuirá para o desenvolvimento da criatividade.

Para avaliar a validade de um jogo é muito importante observar as crianças brincando. Se elas se mostram interessadas e mentalmente ativas, o jogo é bom para esse grupo.

Durante a observação podem ser obtidos dados muito importantes para o professor, tanto em relação ao jogo quanto ao comportamento das crianças.

A partir daí podem ser feitas diversas análises com os mais variados enfoques, segundo o interesse do professor.

JOGOS TRADICIONAIS MAIS CONHECIDOS

• Jogo de bolinhas • Jogo das pedrinhas • Pular corda • Amarelinha • Elástico • Lenço-atrás • Passa-anel • Perna-de-pau • Catavento • Pião • Patinete • Estilingue • Peteca • Papagaio • Corrida de saco
• Corrida de pneu • Gato e rato • Berlinda • Pega-pega • Esconde-esconde • Cabra-cega • Policiais e ladrões • Queimada • Barra-manteiga • Acusado • Elefante colorido • Estátua • Ludo • Pingue-pongue • Baralho • Dama • Dominó • Xadrez • Víspora • Plantar bananeira • Jogo do barbante • Ovo na colher • Futebol de meia linha • Duro ou mole • Mão na mula • Ioiô • Taco • Futebol de botão • Bola ao cesto • Loto • Brincadeira de roda • Briga de galo • Cavalos e cavaleiros • Sela corrente • Jogo de malha • Par ou ímpar • Alerta • Coelhinho sai da toca • Caça ao tesouro • Pé na lata • Pau-de-sebo • Pular sela • Escravos de Jó • Brincar de casinha, mamãe, comadre, escolinha, médico, polícia, vendeiro, banqueiro etc. • Costurar, brincar com soldadinhos de chumbo, usar ferramentas, montar cavalo de pau.

Prof. Esp. Alexandre Costa
Pedagogo Organizacional, Escritor, Palestrante,
Personal, Professional e Leader Coach
alexandre@plenacommkt.com.br

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Por: Prof. Esp.

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