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A Professora E O Líder


Por estes dias a imprensa noticiou fartamente um fato muito lamentável ocorrido em Nova Odessa, cidade do interior de São Paulo: numa escola municipal de educação fundamental, um garoto de sete anos foi colocado de castigo pela professora atrás da porta da sala de aula e esquecido lá! A escola foi fechada, e o menino passou mais de quatro horas no mesmo lugar até ser encontrado pela mãe, às 19h20, uma hora e meia depois de a escola já ter fechado. Depois de resgatado pela mãe, o garoto precisou ser medicado com calmantes. 

Uma semana antes desse fato, ainda segundo a imprensa, a Câmara dos Lordes, no Reino Unido, aprovou um projeto de lei que considera “aceitáveis”, as palmadas “moderadas” dos pais desde que não prejudiquem física ou mentalmente as crianças e os adolescentes… 

Sem comentários. Eu não vou voltar a este assunto (que já foi tema de um recente artigo meu, “A Liderança das Palmadas”), porque me tira do sério, pela insensatez e insensibilidade que demonstra. Concordo inteiramente com a psicóloga Maria Amélia Azevedo, fundadora do LACRI (Laboratório de Estudos da Criança do Instituto de Psicologia da USP) quando diz: “Não existe palmada light. De qualquer forma, bater é um desrespeito à criança. Se bater em adulto é agressão, se bater em cachorro é crueldade, por que bater na criança é educação?”. Se alguém tiver uma resposta convincente, por favor, me diga. 

Como já disse naquele artigo, não sou especialista em educação infantil. Trabalho com comportamento organizacional e os fatos que citei apenas servem de pretexto para entrar na minha seara. Por exemplo: que inferências e analogias podemos fazer entre a ação da professora de Nova Odessa e um líder de qualquer empresa? Muita l Daria um excelente debate nas aulas de Administração de algum MBA ou faculdades de administração, já que se propõem a formar líderes. Fica aqui a sugestão. 

O que quero destacar agora é o seguinte: acredito firmemente que certas atividades e profissões jamais serão exercidas com excelência apenas à custa de conhecimentos acadêmicos, administrativos ou técnicos. Apenas estudar para ser professor ou gerente não garante a nenhum profissional eficácia e eficiência no desempenho do seu trabalho como educador ou gestor de pessoas. 

Estou convencido de que não é nas universidades que aprendemos a ser “gente” – e para funções de educador ou de gestor de pessoas, é absolutamente fundamental ser “gente”, gostar de pessoas, ama-las, respeita-las, estar motivado em contribuir para a realização e felicidade delas. 

Um professor na escola e um gerente na empresa têm algo em comum: a ambos compete desenvolver pessoas, motiva-las a aprender e a aceitar, pela admiração, sua liderança. Portanto, ambos são lideres. E é aqui que está o “x” da questão. O que é Liderança? Como se consegue ser um verdadeiro Líder? 

No seu livro “O Monge e o Executivo”, James C. Hunter diz com muita propriedade: “Liderança não é estilo, liderança é essência, isto é, caráter. Liderança e o amor são questões ligadas ao caráter. Paciência, bondade, humildade, abnegação, respeito, generosidade, honestidade, compromisso. Estas são as qualidades construtoras do caráter, são os hábitos que precisamos desenvolver e amadurecer se quisermos nos tornar líderes de sucesso, que vencem no teste do tempo”.

Com freqüência, vivo me perguntando: que tipo de treinamento pode ser dado às pessoas para que elas desenvolvam aquelas competências da Liderança relacionadas pelo Hunter? E mais: como identificar num candidato a líder ou a professor, se ele as possui e as pratica? Antes de contratados e efetivas, professores e gestores deveriam passar por aquele treinamento e por aquele processo seletivo. 

No entanto, o mesmo Hunter, no livro já citado, faz uma terrível constatação: “Ao trabalhar com pessoas e conseguir que as coisas se façam através delas, sempre haverá duas dinâmicas em jogo – a tarefa e o relacionamento. Então a chave para a liderança é executar as tarefas enquanto se constroem relacionamentos. No entanto, existe um conceito de liderança defeituoso, devido ao qual pessoas voltadas para as tarefas provavelmente ocupam a maioria dos cargos de liderança”.

Olha só: eu não tenho bola de cristal, mas sou capaz de apostar que esse filme vai mudar de enredo. Nos dias de hoje, as pessoas em geral – e particularmente os funcionários e alunos, em todos os níveis e de todas as idades – estão muito mais conscientes do direito ao respeito, à justiça, ao reconhecimento, ao desenvolvimento, à qualidade de vida. E vão começar a exigir isso dos seus lideres, sejam chefes ou professores. E novos modelos de gestão de pessoas serão adotados e praticados.

No meu livro mais recente, “A Terceira Inteligência” (Butterfly Editora), proponho um novo conceito comportamental que se contrapõe – ou no mínimo complementa – à famosa teoria da Inteligência Emocional, do Goleman, e ao uso obsessivo da Razão como orientadores “perfeitos” das nossas ações – o que não é verdade. 

Não quero ser pretensioso e sei que meu livro não vai vender nem um centésimo do que vendeu o do Goleman, mas uma coisa eu garanto a vocês: se professores e gestores desenvolvessem e adotassem a Terceira Inteligência, não existiriam jamais crianças de castigo atrás de portas, nem funcionários chorando nos banheiros de empresas. 

E, creiam-me, a alegria, a paz e a felicidade seriam artigos muito mais presentes e abundantes na vida das pessoas, das empresas e da sociedade.

Floriano Serra
Psicólogo, com Pós-graduação em Propaganda e Marketing (ESPM), e Especialização em Análise Transacional (ALAT).

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