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Acm, A Vaca Louca E O Apagão

Para aqueles que pensam que a
época da mudança e crise é uma simples conseqüência de Gates & Cia.,
tendo a Revolução Infotecnológica como único viés, acredito ser muito útil
abrir seus horizontes e recolher dos fatos multifocais exemplos da própria
atitude. O tríduo que dá título a este artigo pode servir como forte
inspirador.

Em primeiro lugar, no caso do
“todo-poderoso” Antônio Carlos Magalhães, vemos claramente o exemplo
do aforismo que temos usado e abusado nos últimos anos: “As causas da vitória
do futuro são diferentes das causas da vitória do passado” ou ainda
“O passado não garante o futuro”. Com o respeito que todo ser humano
merece, é bom lembrar que de pai de futuro presidente a futuro presidente,
passando pelo domínio absoluto do poder da Presidência do Senado, Antônio
Carlos Magalhães vive no final da vida um turbilhão de pesadelos reais. É
sempre bom reforçar que para esta era de mudanças velozes, em ritmo estratosférico,
para quem quer subir ou se manter no topo, a vida tem que ser levada com a
seriedade e a estratégia de um complicado jogo de xadrez. Inteligência,
antevisão, arrogância zero, planejamento, respeito aos outros jogadores são
atitudes mínimas para a sobrevivência. Na frase de Antônio Carlos Magalhães
uma grande lição sintetiza muita coisa: “Meu único grande erro foi
tornar-me escravo do ódio”. Muita gente se esquece, mas, por baixo, como
essência e em suas mais fortes condicionantes, o humanismo é a raiz mais
importante de tudo que floresce nesta metade do século XXI.

Na vaca louca temos o estereótipo
da época de ambigüidade, incerteza e caos que vivemos. De repente, abrimos o
jornal e nos deparamos com a manchete: Vaca louca atropela o Mac Donald’s .
Assim como Nick Leeson derrubou Barings, a inadimplência inesperada dos
clientes derrubou a Arapuã, a especulação errada (ou quem sabe um serviço de
consultoria malfeita) acabou com o Marka, o maior fast-food do mundo se vê
tonto com a megamarrada da vaca louca. A lição é simples (e velha): como
nunca, não podemos depender exageradamente (desconfortavelmente seria um termo
mais apropriado) de nenhum subsistema ligado à organização.

Finalmente, vemos (sem má-fé)
no apagão o exemplo clássico de erro do planejamento tradicional. Eu
particularmente ouço desde 1992 de meus amigos cérebros da estratégia elétrica,
especificamente na Eletrobrás, a probabilidade quase total de ocorrência deste
fato muito grave.

Sem certeza nos detalhes técnicos,
apostou-se errado em São Pedro, previu-se errado na expectativa de investimento
privado, construiu-se errado o programa elétrico de privatização e foi feita
a prioridade errada no trade-off do investimento público. No final, temos a
história caricaturada pelo marketing da revista veja: parece filme de
terror, só que a luz não acende no final.

Para nós, atores da comunidade
empresarial, fica a lição em pelo menos quatro pilares. Nestes tempos atuais,
muita inteligência aliada a despojamento é atitude básica do jogo;
prejulgamento exagerado e sentimento de dono da verdade podem ser fatais. Em
segundo lugar, a clara compreensão do humano será a grande aliada neste
desafio cotidiano que está presente nestes tempos de hoje. Ódio, rancor,
raiva, vingança e mesmo o velho conceito da vitória – em que ver o adversário
perder é mais prazeroso e motivador do que o próprio ato de ganhar – são
sentimentos que obliteram a postura do triunfador do século XXI. Em terceiro
lugar, a preparação para o “pouco provável com alto impacto” é
estratégia indispensável ao desenvolvimento estratégico sustentável de
qualquer organização. Em época de grande incerteza, simplesmente não podemos
colocar na mão do outro a administração do nosso próprio negócio.

Finalmente, o mais óbvio ou
muitas vezes não aplicado nas coisas mais importantes se configura como uma espécie
de Antilei de Parkinson. O cuidado e a seriedade de um planejamento bem-feito,
conforme os métodos tradicionais, ainda são e serão sempre importantes
ferramentas de excelência de gestão.

Esta é a verdadeira expressão
do momento em que vivemos, pintada com detalhes e com suas conseqüências práticas
em três quadros diferentes. Todo cuidado é pouco para não sermos os pintores
de um próximo auto-retrato. Sai azar!

 

Marco
Aurélio Ferreira Vianna

Presidente
do Instituto MVC

 

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