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Além da empresa, em direção a nós mesmos…

Além da empresa, em direção a nós mesmos…
Não sei se este título traduz o que quero dizer, muito menos se consegue captar o que estou sentindo. Sou uma pessoa que dedicou toda sua vida profissional a estudar e buscar entender o homem em seu papel profissional. O homem na empresa. Seu crescimento, os estímulos capazes de motivá-lo, o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal, a qualidade das relações pessoais no trabalho, no ambiente, muitas vezes, tóxicos das empresas e como tudo isso (e muito mais) se relaciona com os resultados que a empresa precisa e quer atingir. Tem sido muito interessante notar como, com o passar do tempo, a empresa e o mundo corporativo foi se deixando envolver pela onde de importância que as pessoas foram adquirindo. Avanços significativos foram conquistados, direitos e privilégios adquiridos, status estratégicos atribuídos às pessoas, que passaram a ser o fator de sucesso de uma organização. E quantas atividades e desdobramentos vieram na onda desta nova fase do mundo empresarial. Como se alguém tivesse descoberto, milagrosamente, que empresas são idealizadas e operadas por pessoas, por gente. E que essa “gente” precisava ser mais bem gerida, melhor liderada. E novas ondas vieram e com elas as escolas de administração e as teorias de liderança dando lugar a novos termos. Gestão no lugar de administração, colaboradores no lugar de empregados, talentos e competências no lugar de conhecimento e escolaridade obrigatórios, e muito, muito mais. Novas carreiras apareceram, novos cursos, muitas novidades na “gestão de pessoas”, muitos profissionais aprendendo a “surfar na onda da valorização do humano no ambiente profissional”. E a despeito de tantas mudanças e progressos reais, é constrangedor reconhecer como o humano tem ficado fora da realidade empresarial.
O humano continua fora do contexto empresarial na sua essência. Isto é, retirada às aparências de modernidade, poucos são os casos em que as pessoas são tratadas como todo o respeito e dignidade de que são merecedoras. Muitas empresas adotaram a valorização do ser humano como vantagem competitiva e não por acreditarem, de fato, que este é o caminho mais natural, mais lógico e consequentemente, mais vantajoso para todos os envolvidos. Não me refiro às conquistas regidas por lei e que fazem parte dos acordos de classe, garantidos pela CLT. Aliás, respeitar a lei vigente, cumprindo-a, não é só direito do trabalhador, é dever da empresa. Esta é a taxa, o ingresso, que se compra para entrar no jogo. Ganhá-lo já é outra história. Refiro-me ao dia-a-dia, aos pequenos gestos, as cobranças e posturas, a tantas chefias com mandos e desmandos, a uma liderança disfarçada para dar vazão ao espírito de casa e grande e senzala, a um vigente sistema de capatazia que teima em permanecer, oculto às vezes, mas vivo, onde manda quem pode e obedece quem tem juízo. Falo da relação entre as pessoas e das pessoas com a organização. A pessoa é muito importante para a empresa, mas quantas vezes e em quantos casos, são tratadas como se não tivessem a menor importância. E isso fica claro no relacionamento diário, no convívio, na forma como as pessoas são dirigidas. O humano fica fora da empresa, todas as vezes que a empresa não percebe que o ser humano é mais do que a tarefa que realiza. Quando não percebe que a pessoa extrapola suas atribuições. Todas as vezes que a empresa reduz o ser humano, ao cumprimento de suas obrigações sem perceber tudo o mais que o envolve, está interferindo negativamente na sua dignidade. Nega a ela – pessoa – seu maior direito que é, justamente, ser ela mesma, obrigando-a, não poucas vezes, a assumir um papel na empresa e outro fora dela.
Quantas pessoas, ainda, passam o dia todo olhando para o relógio a espera das 18 horas como a hora libertadora. E por que será? Quantas pessoas quando questionadas sobre seu horário de saída do trabalho respondem que “largam as seis”! Largar é para algo que atrapalha, pesado, chato. Algo do qual ela quer se livrar. Quantas pessoas acreditam e agem com base no “tenho que…”, “sou obrigado a…”, “preciso de…”. Quantas, ainda, não praticam o “eu quero que…”, “eu escolho…”, “eu concordo com…”, “eu me entrego a…”.
Será que essas pessoas então felizes nos lugares que estão e como estão? Será que, em sã consciência, escolheriam permanecer ali naquela empresa e daquela forma, caso pudessem realmente decidir?
Muitas coisas contribuem para a realização e para a felicidade das pessoas na organização. Entre elas e, talvez, a mais importante, baseado em tudo o que já ouvi em muitas entrevistas com profissionais, esteja o fato de sentirem-se pessoas plenas.
A questão da empresa é uma questão existencial. Não há como fugir disso. Empresas são pessoas. E pessoas têm sentimentos, emoções, necessidades, expectativas, desejos, motivações que começam muito antes do horário comercial e não terminam às seis da tarde. Pessoas levam para a empresa esta carga emocional quer queira, quer não. E mesclam as atividades profissionais com suas emoções e sentimentos. Portanto, perceber isso é vital para o relacionamento, na empresa e fora dele. Não perceber isso é não considerar o outro de forma inteira, é olhá-lo de forma reduzida, menor, distorcida e não ver o quadro todo.
Não perceber o outro como ele realmente é, com suas expectativas e necessidades, com sua visão de mundo, seus anseios e medos, suas conquistas e vitorias, seus altos e baixos, é a maior desgraça humana. Por que reduz o ser humana a coisa. Coisifica.
Centrar a gestão de pessoas mais nas pessoas e menos nas técnicas, nas chamadas ferramentas de gestão, pode levar a um ganho substancial para todos os envolvidos. Não é desprezar as técnicas, mas sim usá-las de forma a manter sempre as pessoas em foco. Pessoas são fundamentais e precisam estar à vontade para que seus talentos produzam qualidade de vida. E qualidade de vida quer dizer VIDA. Envolve tudo. O trabalho inclusive.
Sucesso sempre!
Eduardo Besana
www.eduardobesana.com

José Eduardo Besana é consultor empresarial e atua com treinamento desde 1974. Trabalhou em empresas como Wapsa Auto Peças S.A., MWM Motores Diesel, Seagram do Brasil e atendeu empresas como Federação do Comércio do Estado de São Paulo, Ford do Brasil, Sindicato dos Corretores do Estado de São Paulo, entre outros. Desde 1996 atua como consultor responsável da EDUARDOBESANA Consultoria, empresa de consultoria em gestão de pessoas, treinamento e implantação de sistemas de gestão estratégica e de competências.
Contato:
Eduardo Besana
eduardo@eduardobesana.com
www.eduardobesana.com
13 9762-6392

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