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Aprendizagem, Conhecimento E Engano.

Existe um fundamental relativismo nas atividades humanas. Os mesmos caminhos que nos levam ao êxito podem também ocasionar o fracasso, a substância que cura também pode matar, tudo é uma questão da dose e da aplicação.

Vejamos o caso da repetição: Repetir é uma das condições necessárias à aprendizagem. 

Dizemos que alguém aprendeu determinada função, ação ou conhecimento, quando é capaz de repetir em situações idênticas ou semelhantes a mesma seqüência, raciocínio ou processo. A capacidade de repetir a performance adequada é uma das características de que houve um aprendizado satisfatório.

Porém, nossa capacidade de repetir nos conduz inúmeras vezes ao engano. Na aprendizagem, somos apresentados a um problema e conduzidos pelos caminhos que o solucionam, depois generalizamos (a generalização é condição inerente ao aprendizado) para poder aplicar de maneira mais universal o que passamos a denominar conhecimento, ou seja, o fruto da interação entre a aprendizagem e a realidade de novos problemas passíveis de solucionar pelos caminhos que “aprendemos”.

Justamente ai, começam os problemas. Aprendemos a abrir uma porta, generalizamos e começamos a abrir todas as portas fechadas que encontramos. Até que um dia encontramos uma porta que em várias tentativas não se abre…Puro engano. Apenas a maçaneta ou o sentido da chave se encontram invertidos; nos sentimos travados diante de uma pergunta que não aceita a mesma resposta que já funcionou centenas, milhares de vezes.

Falácia da nossa aprendizagem que não deveria interromper-se com a mera absorção de um conjunto de procedimentos capazes de abrir uma porta, mas sim processar todo o mecanismo lógico e conceitual de como e porque ocorre o fechamento e a abertura de uma porta.

Repetição é uma das fases do processo de aprendizagem não corresponde ao conceito de aprendizagem e a tudo o que ele engloba. A maioria das pessoas congela na fase da repetição e quando ela não funciona desistem desestimulados achando-se incapaz de fazer coisas extremamente simples, tão somente porque apaixonaram-se por um paradigma. Seres humanos afeiçoam-se de tal maneira a paradigmas que eles passam a ser uma segunda natureza.

Quando congelamos na fase da repetição ocorreu uma fase do processo de aprendizagem mas não iniciou-se a mais importante delas a que dá origem à construção do conhecimento, cuja principal característica é a capacidade de multiplicar-se, diferenciar-se e reordenar-se diante do novo desafio.

O engano é filho legítimo da aprendizagem interrompida na fase de generalização. A lógica se compõe de premissa, tese e antítese. A aprendizagem interrompida não elabora conhecimento. E transforma imediatamente premissa em tese sem sequer se lembrar do dever de elencar uma “anti” tese que ao contrariar a primeira nos permite julgar sua validade. Muitas vezes caímos vítimas do seguinte silogismo crítico:

As portas se abrem girando a maçaneta para a direita.
Estou diante de uma porta. Giro a maçaneta para a direita e a porta não abre, logo…
Não posso abrir essa porta.

Quando o mais correto seria:

Uma grande quantidade de portas se abrem girando a maçaneta para a direita.
Estou diante de uma porta. Giro a maçaneta para a direita e a porta não abre, bom…
Que tal tentar girar para a esquerda? Sim, posso abrir essa porta, basta compreender como esta fechada..

A Sabedoria é a fase onde conseguimos diferenciar aprendizagem de conhecimento e este do engano (pseudo conhecimento), percebendo que na relatividade são aspectos diferentes de um mesmo fenômeno. Parece maluco não é? Existe mais sanidade na loucura que busca a sabedoria, do que na impossibilidade de abrir uma porta só porque a maçaneta está invertida. Pense nisso!

Carlos Hilsdorf
marketing@carloshilsdorf.com.br
Autor e consultor de empresas, profundo pesquisador do comportamento humano.

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