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Aprendizagem Corporativa

APRENDIZAGEM CORPORATIVA
DJALMA MORAES – CONSULTOR
djalmamoraes040@gmail.com

Recentemente, estive avaliando a evolução acelerada que ocorreu nos últimos dez anos em nosso país. Fiquei surpreso de ver tantas coisas diferentes que hoje temos e que não existiam há tão pouco tempo, mas, também fiquei preocupado com o uso que está sendo dado a cada uma delas, tanto na empresa, quanto na vida pessoal. Hoje é comum o uso de notebooks, net books, smartfones, ipod’s, e outras traquitanas tecnológicas em todos os ambientes, fazendo com que as pessoas mantenham-se conectadas o tempo todo, indiferente de estarem na empresa, no carro, metro ou em casa.
Considerando que as empresas são estruturas que possuem uma cultura, que além de ensinarem também aprendem, verifico que há uma generalização de comportamento, o que acaba conflitando com valores, pois, nem todas as empresas admitem o mesmo tipo de comportamento e nem todas as pessoas estão adaptadas a viver conectadas o tempo todo.
Dentro de uma organização, independente do porte, há troca de experiências que podem contribuir ou não para o alcance das metas e o sucesso das iniciativas, assim sendo, a partir do momento em que esta organização se conscientize de que é preciso selecionar os comportamentos mais adequados para atingir tal propósito, temos aí, o que chamamos de Aprendizagem Corporativa.
A convivência entre colaboradores é compostos de comportamentos manifestos e velados, que contribuem para o desenvolvimento da cultura empresarial, tanto em sentido positivo ou não. Por exemplo, as brincadeiras, apelidos, fofocas de corredor, são elementos que provocam exclusão, diminuição da auto- estima, rancor, etc. De outra forma, o estímulo ao hábito de falar baixo, não atender celular no local de trabalho, tratar os companheiros com dignidade, participar de campanhas solidárias, promovem mudanças significativas nos comportamentos das pessoas.
Em uma empresa, o aprendizado é constante, pois, todas as pessoas são observadas e avaliadas o tempo todo. O simples fato de participar de um happy hour, de maneira descontraída, também requer certo grau de etiqueta, para não extrapolar. Nas festas de aniversário, comemorações da empresas ou até mesmo na hora do almoço, é preciso cuidar para preservar o que há de melhor na cultura da empresa. Somos rotulados e identificados com o local onde trabalhamos e convivemos.
O comportamento de líderes e gestores que não estão alinhados com valores pessoais e corporativos provocam desconfiança, o colaborador não confiará em um chefe que fala mal do local onde trabalha ou de pessoas que atuam com ele. Da mesma forma, o colaborador que fala mal de seus companheiros, que não respeita seus companheiros, vive fazendo fofoca, faz comentários inadequados para as chefias acaba gerando um ambiente instável e carregado de energia ruim.
No processo de aprendizagem corporativa a soma dos talentos é melhor do que valorizar individualidades, pois, uma equipe motivada e criativa é sempre mais eficiente do que aquela que depende de estrelas solitárias. Todo gestor deve estar consciente dos benefícios da Inteligência Emocional, que é parte integrante do processo de aprendizagem corporativa, pois, todos aprendemos uns com os outros e, na medida em que cada um traz os seus saberes e experiências para compartilhar no ambiente onde passa a maior parte do tempo, também leva consigo os conhecimentos que adquiriu.
Quando se fala em Inteligência Emocional, levamos em conta as habilidades adquiridas e inatas, a maneira que elas interferem no comportamento e como o individuo se utiliza delas para solucionar problemas e desafios no seu dia a dia, também é altamente importante observar a maneira com estabelece relações com as pessoas à sua volta, como interage em momentos de pressão, de que forma mantém o controle sobre suas emoções.
A aprendizagem c orporativa está amplamente relacionada com a Alfabetização Emocional, pois, o colaborador que não tem domínio sobre suas ações e atitudes não poderá absorver de maneira satisfatória a cultura que emana do desenrolar dos processos e interações entre as pessoas, ele será sempre a pessoa fechada em suas próprias experiências, com dificuldade para vivenciar experiências mais amplas e coletivas, expor suas idéias de maneira negociada e flexível. Costumeiramente encontramos pessoas assim nos mais diversos postos, desde os menos exigidos até na alta administração, o que possibilita o surgimento do que podemos chamar de focos de resistência, ou seja, devido ao comportamento e atitudes desta pessoa, as que se relacionam de certa forma com ela, muitas vezes se recusam tacitamente a cumprir suas solicitações ou ordens, não contribuem para realizar em parceria ou mesmo dar ouvidos.
Cabem aqui dois relatos interessantes, há alguns anos, quando fazia pesquisa de clima em uma empresa, restava entrevistar a responsável pela faxina e o café. Na hora exata, ela apareceu, preocupada, insegura, cabeça baixa, começamos a conversar para ver se relaxava, mas, seu receio era tanto, que começou a chorar, paramos ali mesmo. Pedi para que saísse e fosse descansar e que agendaria outra data. O processo de consultoria e entrevistas continuou, foram feitas mudanças e adaptações na empresa para dar mais conforto aos colaboradores. Passados alguns meses, retornei para reavaliar a pesquisa de clima e vi as mudanças que foram introduzidas, agendei as entrevistas, sendo que aquela funcionária se antecipou aos demais e quis ser entrevistada antes, achei interessante e aceitei. Ela chegou feliz, arrumada com uma peruca de cabelos longos, e encaracolados, falando com facilidade me disse que resolvera mudar de comportamento, pois, antes era muito rancorosa e ranzinza e daquela maneira, ninguém gostava muito dela, mas, agora era diferente, tinha amigos, voltara a estudar e a empresa tinha lhe dado melhores condições para trabalhar. Todos na empresa atestavam a mudança, até o café ficou mais saboroso.
O outro relato diz respeito a um diretor com que trabalhei, suas atitudes arrogantes e grosseiras não motivavam a equipe de vendedores, se fosse preciso passar por cima do colaborador para efetuar a venda, ela assim o faria, o clima era horroroso e as vendas baixíssimas. Suas atitudes iam do céu ao inferno em três segundos, era capaz de passar uma descompostura em alguém independente do lugar em que estivesse, mas, ao mesmo tempo, sacava dinheiro do bolso para ajudar a pagar a condução de um colaborador. No outro extremo, podia sentar-se em uma mesa de negociação e aceitar todas as condições impostas para não perder a venda, e depois, quebrar a cabeça para adequar os custos, mesmo que tivesse que reduzir a comissão dos vendedores, num outro momento, desembolsava dinheiro para a compra de ternos para a equipe, mas, se negava a cumprir a promessa de conserto do carro de um dos colaboradores, sem a mínima cerimônia.
Nos dois casos, podemos observar situações opostas, se a funcionária teve a capacidade de perceber que precisava mudar para conseguir ter a aceitação dos seus pares, por outro lado, o diretor era portador de analfabetismo emocional, pouco se importando com os sentimentos e valores dos outros, desde que alcançasse o que almejasse.
Em mais outro caso, um colaborador atuava a mais de dez anos na empresa, sempre dedicado, sentia-se ligado a ela, pois, fora ali que amadurecera, crescera e casara. Estava lotado em um setor distante, mal conservado e escuro, mas, fazia o seu trabalho com amor e dedicação, era muito procurado pelos novatos que não sabiam como executar tarefas mais complexas, e ele sempre solícito orientava e acompanhava o desempenho deles.
Quando o entrevistei, fiquei emocionado com seu relato de amor e comprometimento, pois, vira a empresa nascer, seus sócios evoluírem, os filhos assumirem parte dos negócios, e em muitos momentos, ele fora chamado para auxiliar na orientação dos jovens empresários. Sentindo-me tocado por seu relato, pedi ao presidente da empresa que lhe fizesse uma homenagem, ofertando-lhe uma placa de vidro com palavras de agradecimento.
Passado algum tempo, eu o reencontrei e perguntei-lhe como estava, e ele me disse que se sentia radiante após a homenagem que recebera naquele momento, ele percebeu a gratidão que e empresa tinha por ele, sendo que também fora convidado para assumir as operações de um dos setores da empresa, comandando uma equipe de quatro pessoas. Assumiu o posto e introduziu melhorias, gerando mais eficiência e credibilidade, o que provocou espanto e admiração nos administradores que vinham tendo prejuízos constantes com aquela área.
Um belo dia, o presidente da empresa, ao visitar a localidade, disse-lhe que o local não era muito importante para a empresa e que ele não precisava se empenhar tanto, a resposta foi imediata, deixando o diretor boquiaberto, o colaborador falou-lhe que, muito pelo contrário, a área era importante, senão, o que ele estava fazendo lá, seria melhor deixá-lo onde estava, mas, que ali ele poderia fazer a empresa ter lucro, otimizando processos e melhorando a qualidade dos produtos.
Sempre me atenho a uma frase dita por Rimbaud (1854/1891), “Todo home que conheço sabe mais do que eu, portanto, tenho muito a aprender com cada um deles.” Para mim é a essência da aprendizagem corporativa, todos aprendendo o tempo todo e contribuindo para o aprendizado do outro, existem pesquisadores que nos mostram que nossa capacidade de aprender é infinita e que podemos desenvolver diferentes habilidades para solucionar os mais diversos problemas, assim sendo, nosso cérebro nos permite adquirir o que precisamos das formas mais diversas possíveis, consciente ou inconscientemente. Quando interagimos com as demais pessoas, obtemos a oportunidade de ampliar nosso aprendizado, o que só ocorrerá se tivermos a mente e o coração aberto, deixarmos de lado nossas resistências e preconceitos e procurarmos participar mais ativamente das atividades que ocorrem ao nosso redor.

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