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As transformações previsíveis da vida… de uma lagosta

Há tempos tem-se falado das diferentes gerações: baby boomers, X, Y, e suas respectivas características, mas a verdade é uma só – embora cada um de nós esteja sempre crescendo, evoluindo ou envelhecendo, “o sistema vital interior tem seu próprio relógio, é obstinado e cheio de idiossincrasias, é provável que em algum momento da vida todos nós nos sintamos como o homem que geme, sem que ninguém nos escute”….Esta frase é do livro – Crises previsíveis da vida adulta de Gail Sheehy que li aos meus trinta anos.
Nesta obra a autora separa e define os estágios da vida, mostrando as vicissitudes do comportamento humano e suas conseqüências em cada estágio. Observando cada uma das etapas, percebemos o que fomos, o que deixamos de ser, o que insistimos em ser e como vamos nos reescrevendo ao longo do tempo.
Aos vinte anos – fase de arrancar as raízes – temos uma necessidade de aceitação dos grupos, dos pares e um sentimento de ambivalência forte quanto a deixar o ninho. Aqui temos a convicção que as escolhas feitas são irrevogáveis. É mais ou menos como se estivéssemos cantando o tempo todo – should I stay or should I go….Mas sempre dando a impressão que não temos essa ou qualquer outra dúvida. Acreditamos no poder da vontade e tudo o que fazemos aqui é a mais pura manifestação da verdade e do único caminho existente.
Aos trinta, novas escolhas precisam ser feitas, algumas refeitas, pois nem tudo deu certo, surgem alguns culpados, pai, mãe, marido, chefe, filhos, irmãos. Opções revisadas, vontade de expansão profissional, de vida social, de reconhecimento, de auto estima. A vida se torna menos provisória, pensamos ou revisamos nosso propósito e muitas vezes, nos damos conta de nossa solidão.
Perto dos quarenta anos, apertamos o acelerador com mais força ainda como se fosse a última chance de chegar em primeiro lugar. Cansamos, paramos, repensamos – Será tudo isso a vida, ou só isso!??? As prioridades começam a mudar, vem a renovação ou resignação… não sabemos ainda bem ao certo. Se o equilíbrio for recuperado, avançamos, se insistirmos em bater o pé, nos resignamos e tudo pode ser visto como um abandono, desolado e entediante – “O mundo caiu ou pouco me resta daqui para frente”.
Se a primeira opção se instaurar, a do o equilíbrio, pode-se ouvir: “Não posso esperar que ninguém me compreenda perfeitamente, embora eu possa compreender perfeitamente os outros”. Sensacional não é mesmo? O lema deste estágio, já próximo dos cinqüenta anos, pode ser – “Daqui pra frente nada de besteiras”. Ou daqui pra frente nada de esforços sem sentido.
A realidade é que as tarefas que consideramos essenciais nos períodos da vida, nunca são plenamente finalizadas, elas se esgotam em si mesmas quando renunciamos às respectivas ilusões de cada fase. Não é somente uma questão de escolhas, é uma questão de sobrevivência junto ao meio e de evolução frente a nós mesmos.
Precisamos em cada etapa mudar de cadeira, mudar de chapéu. Cadeira nova é pouco confortável, chapéu velho também é melhor! – Porém, somos como uma lagosta que cresce formando cascas duras e protetoras e com o passar do tempo, torna-se vulnerável e desprotegida por um tempo, até vir outro revestimento. A cada sentimento de desamparo, há uma evolução. A cada crise uma transformação. Mudar de cadeira, de chapéu ou de casca é supremo. Como diria se fosse a lagosta nas transformações previsíveis da vida: “Se eu me atrasar, tirem a casca de mim!

Carla Virmond Mello – Especialista em carreira e diretora da Acta Carreira, Transição e Talento e da DBM no Paraná e Santa Catarina.

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