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Assalto Ao Chefe De Pessoal

Aparício – este é o nome do herói desse RH POSITIVO! – era um Chefe de Pessoal dos mais completos. Hoje, deve estar aposentado, pescando lambari e jogando truco, no que mostrava-se a pior das criaturas, entre blefes, gritos e manobras pouco dignas de um cidadão que pudesse ser escolhido como modelo de virtudes (quem joga truco sabe do que se trata e quem não joga, nem imagina!).

Conhecia tudo, da administração de pessoal. Tudo mesmo. Sua palavra era acatada sem a menor discussão. Quando dizia que podia ou não podia, até mesmo a gerentada da empresa aceitava o seu veredicto, sem pestanejar. Além disso, conhecia como ninguém as “manhas” das estratégias de Relações Industriais, isso lá pelos idos de 1980 e fumacinha! Tinha uma frase famosa, quando aquele que consultava o DP recebia um “não pode” como resposta: “Leis é leis e regras é regras!” Assim mesmo, com o verbo “ser” conjugado erradamente, como fazia de forma consciente, só para, quem sabe, suavizar um tiquinho a secura do imperativo “não pode!”.

Aparício ia muito além do cumprimento do dever. Por exemplo: quando um novo empregado tinha dificuldades com os documentos para o seu registro, o Aparício orientava-o direitinho e fazia uns dois ou três telefonemas e, em dois dias, o funcionário estava todo feliz, devidamente registrado na empresa. Quando um dos trabalhadores tinha problemas com os processos da Previdência Social, o Aparício entrava no circuito e tudo se resolvia. O funcionário estava sem saber o que fazer diante das intimações da justiça para o pagamento da famigerada Pensão Judicial, o Aparício entrava em contato com os advogados do sindicato e a tudo se resolvia na forma da lei, sem traumas. Demissão de trabalhadores? O Aparício fazia mais alguns dos seus famosos telefonemas e conseguia reempregar a maioria. Dizia-se, na empresa, que o Aparício já tinha conseguido emprego para várias centenas de trabalhadores da área fabril. Um grande carinha, o Aparício.

Um dia, eis que o Aparício consegue realizar seu sonho de consumo: um carro conversível, vermelhão! Todo faceiro, comprou e exibia um Del Rey conversível. Ao entrar na fábrica, gostosamente “tascava” a mão na buzina e mandava adeuszinhos para todos e beijinhos marotos para as moças e todos se divertiam. O Diretor de Relações Industriais até autorizou que o Aparício estacionasse o “possante” na área reservada para os gerentes e ele, o Aparício, dizia para todos: “Já que ninguém tem uma Ferrari por aqui, o papai aqui deixa todo mundo curtir pelo menos o vermelho Ferrari da minha viatura!”.

Dois meses depois, voltando de uma festa de família, às três da manhã de sábado, em Santo André, SP, o Aparício é assaltado: levam o carrão, os documentos, dinheiro, tudinho! Na segunda-feira seguinte, ele entra na empresa, de carona, triste, abatido, recebendo o consolo e a solidariedade de todos, já sabedores do ocorrido, quando recebe um envelope do segurança, endereçado para ele. Aberto o envelope, lá estão os documentos, a carteira, todo o dinheiro e um bilhete, escrito à mão, em papel comum, que dizia mais ou menos assim: ” Sr. Aparício. Uns colegas meus fizeram esse ganho em cima do senhor e eu falei com eles e estamos devolvendo tudinho. O seu carro está no estacionamento tal, na rua tal, número tal e as chaves estão no escapamento e o papel do estacionamento está dentro do porta-malas. O senhor perdoe a gente. Nós cuidamos do carro direitinho. Falei para os meus colegas que é senhor é um homem bom demais para passar por mané e que eu fui muito ajudado pelo senhor quando trabalhei na fábrica. Não fica dando bobeira por aí com esse carrão porque chama a atenção do pessoal. Um abraço para o senhor.”

O resto da história, o caro leitor pode imaginar: o Aparício feliz com seus pertences de volta e com o Del Rey conversível, vermelho Ferrari brilhando novamente no estacionamento.

A “equipe” do RH POSITIVO sente-se especialmente feliz ao resgatar essa história e, assim, homenagear a todos os Aparícios que estão por aí, “segurando a barra” do desafio da Administração de Pessoal! 

Benedito Milioni,
54 anos, é graduado em Sociologia e Administração de Empresas e, por vocação e escolha, um especialista em educação empresarial. Sua carreira começou em março de 1970, como instrutor substituto de programas de treinamento de pessoal de supervisão industrial.

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