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Brasilianidade Iii

Coisa de brasileiro também é falar de coisas difíceis e achar que sabe mesmo do que está falando. Acho que o privilégio disto não deve ficar restrito a brasileiros. Isto é coisa do povo, de gentinha que não tem nada o que fazer, diria um catedrático chato de doer com quem convivi um semestre. Começar um assunto e mudar no meio, isto lhe chateia?

Em rodinha de amigos já escutei gente falar de comida quando o assunto era futebol. Falar de saúde sexual quando o assunto eram pratos exóticos. Falar de dinheiro e uns ficarem com taquicardia e outros reclamarem ainda do confisco da poupança de 1990. A maioria não se entende – nem em conversa de botequim – quando o assunto é economia. Somos um povo de técnicos de futebol e de economistas.

A história é que um assunto puxa o outro e assim prosando daqui e dali a gente vai se entendendo, como diz um amigo lá de Uberaba. Falar de coisas agradáveis e deixar o tempo passar é isto que precisamos nestas férias de julho. Até passar o efeito dólar, juros que sobem ou não sobem, luz que se acende no fim do túnel ou será que se apaga? Será que para viver a estabilidade precisamos ficar com está sensação estranha de desorganização? Um outro amigo, assim ‘zen’como eu me disse: “isto é o caos organizado”.

Parece que ele conseguiu me deixar tranquilo por uns dois dias, enquanto tentava entender o que ele quis dizer. Quando compreendi fiquei mais apreensivo. Veio a questão: o que é a teoria do caos? Antes de responder fiquei pensando em bloco, em outros países, o caos em outros lugares é maior do que aqui? Não temos guerras quase declaradas, como no Oriente Médio, que tristeza viverem naquele tipo de caos. Eles não se entendem e estão sempre tentando assinar tratados de não agressão para, em seguida, se agredir. Vivem em constante estado de tensão. E na África, aliás, nas muitas e diferentes Áfricas, que agoniza com a saúde infectada em uns países e nas disputas étnicas em outros. Fome misturada com pobreza, um binômio que até conhecemos.

Afinal, o caos brasileiro só poderia ser diferente dos outros, o caos nas estradas, no trânsito, na corrupção endêmica, nas distorções sociais e sua incrível distribuição de renda, na falta de educação social. Sim, brasileiro é o diferente igual. É mais criativo. Aqui o caos é muito mais caos. E muito menos complicado porque a gente leva tudo na conversa e no esquecimento. Será que deixamos para lá porque pensamos como na música que amanhã será outro dia?

Será que é a Síndrome da Abundância Cívica? Com esta tal perspectiva de riqueza nos subsolos? De pátria do futuro? Será que a pátria de chuteiras já caiu em descrédito? Cremos que “aqui em se criando, fazendo, plantando tudo dá”. Por isto a prosa e o verso.

Aí está mais uma coisa nossa a conversa na esquina. Quem fica conversando na esquina em Londres, Paris ou Nova York? Aqui a gente tem a padaria. Foi numa cidade do interior de São Paulo, lá em Itapetininga, entre quatro amigos, compenetrados e abnegados de um sistema de aposentadoria de um banco federal. Eles calorosamente falavam do que o Ministro Pedro Malan, disse no Jô Soares, um dia destes, retratava o alto grau de indignação de que não responderam nada que lhes interessasse.

Não que a entrevista não tivesse sido boa, só que não foi perguntado nada do que eles estivessem falando. “Mas a gente critica porque viu o cara falar”, respondeu um deles com toda razão. Em seguida, o papo foi para a costela do Marcílio que é a melhor da cidade, que é servida na mesa sem prato, só com farinha e umas faquinhas para você ir comendo com a mão.

Parece que o grave – que não era tão grave – problema econômico ficou temporariamente resolvido. A emoção e a eloquência são outros de nossos predicados.

Saindo dali foram ao banco conferir seus extratos. Um deles o mais velho, com seus 81 anos incompletos, como gosta de frisar, entrou na fila para checar sua senha do cartão magnético. Era exatamente a fila que não privilegia a idade no atendimento, mas ele ficou lá esperando a sua vez. Faltavam duas pessoas para ser atendido quando um outro senhor, que não era do grupo, mas se considerando idoso, passou na frente e foi à atendente. Foi direto: “olha é só uma informaçãozinha, será que este cartão está com a senha certa?”

O quatro amigos ficaram ainda mais indignados: “já não chega o Malan agora tenho que aturar este sujeito que pensa que é mais velho! Vem e fura a fila para pedir a mesma coisa que eu pediria. Isto é muita falta de educação”. Falaram tão alto que foi escutado por todos. Um rápido bate-boca instalado e o mal estar foi resolvido em questão de segundos. Os que erraram se retrataram e os insatisfeitos se sentiram compensados. Os cinco saíram rindo e conversando. Um deles descobriu que o não mais intruso era amigo da Dona Izilda, filha mais velha do Seo Vital, com quem esteve muitas vezes no banco.

Falaram do Malan, de novo. E do bolinho de frango da Marisa, na quermesse que a maçonaria fez em junho.

Coisa de Santo Antônio, São João e São Pedro. Uma nova performance do momento. 

Mario Enzio
Graduado em Comunicação, Pós em Administração de Empresas pela ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing; 
Cursou a Universidade Holística da Paz – Unipaz, em Brasília; e a Escola de Governo; Mestre em Reiki; .

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