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Liderança para um caos criativo

caos criativo

*por Felipe Ladislau

Atualmente, noto que a tentativa de criar excessiva previsibilidade, ordenação e controle levam a cenários nada produtivos, seja porque a tentativa do controle acaba gerando seu oposto ou porque, à medida que o controle se instala, se sufoca o movimento e a energia capaz de produzir o novo ou um caos criativo.

Nova call to action

Pessoas, áreas e empresas muitas vezes perdem a capacidade de se reinventar e, em um mundo onde tudo está mudando em velocidade acelerada, a estabilidade leva ao desaparecimento.

A mentalidade de produtividade eficiente e a gestão por meio de comando e controle se tornaram obsoletas em um ambiente marcado pelas mudanças impostas pelos avanços tecnológicos, maior empoderamento do consumidor e disrupções de modelos de negócio por startups, que conseguiram desafiar gigantes de quase todas as indústrias.

Se por um lado a gestão por meio da eficiência e práticas de comando e controle são tão danosas, não podemos imaginar que a ausência de gestão seja a alternativa possível para conter a potência das empresas na nova economia. 

Penso então no mundo BANI, que pode ser considerado uma evolução do tão conhecido VUCA (termo traduzido para volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade). O criador do conceito, Jamais Cascio, participou de um grande congresso brasileiro em 2022 e afirmou que as lideranças no mundo BANI devem:

  • Se preparar para o inesperado.
  • Reconhecer a humanidade compartilhada.
  • Imaginar possibilidades.
  • Prestar atenção aos detalhes.

Entenda melhor cada letra da sigla:

 B – Brittleness (Fragilidade): O mundo é frágil e algo que acontece do outro lado do continente pode nos afetar

A – Anxiety (Ansiedade): A diferença entre sucesso e fracasso pode estar no tempo de resposta às fragilidades que enfrentamos

N – Nonlinearity (não linearidade): Altos e baixos não são proporcionais

I – Incomprehensibility (Incompreensibilidade): a sobrecarga de informação resulta na Incompreensibilidade

No entanto, historicamente aprendemos a gerir negócios de forma muito sistemática. Herdamos a mentalidade fordista de busca pela eficiência e criamos inúmeros mecanismos para controle de riscos, otimização de custos e ganhos de escala. 

E apesar dessa fórmula já ter deixado de funcionar há alguns anos, seguimos a mesma cartilha de forma quase automática. Com isso, torna-se urgente revisitar a forma como compreendemos a gestão do tempo e o que realmente significa produtividade na nova economia

liderança estratégica

Já pensou na possibilidade de um caos criativo?

É preciso buscar novas ferramentas para garantir a execução em meio à incerteza e falta de previsibilidade e encarar a gestão e o planejamento como processos criativos, fluídos e descentralizados.

Seja nos projetos de consultoria, nas mentorias ou mesmo em conversas mais informais, profissionais de todos os níveis hierárquicos se queixam da exaustão por estarem vivendo no CAOS. E eu sempre gosto de trabalhar com a desconstrução do viés negativo do caos, que o retrata como algo que deva ser eliminado ou controlado.

O caos é uma potência criadora, por isso a ideia de um caos criativo. A própria mitologia grega tratava do caos como o movimento inicial de criação, que ocorre pela separação, pela difusão. A tendência natural desse movimento é a dispersão, uma vez que nada possui uma tensão de ligação forte o suficiente. 

Na física, por exemplo, observamos que as moléculas dos gases estão em movimentação caótica, de forma que sem um recipiente para acomodá-los, os gases se dispersam no ambiente. Porém, com a devida acomodação, eles podem produzir valor.

Dessa forma a liderança orquestradora do caos é aquela capaz de manejá-lo sem comprimi-lo demais por meio das antigas práticas de gestão, ao mesmo tempo que fornece uma estrutura capaz de alinhar e extrair valor da potência criativa, o caos criativo.

Em minha visão existem 3 elementos-chave para uma boa orquestração do caos: 

  1. diversidade
  2. autonomia
  3. alinhamento.

Diversidade e autonomia são os dois elementos geradores de potência, um grupo diverso que tenha voz e espaço para executar vai alimentar o caos, enquanto o alinhamento exaustivo e frequente vai direcionar e canalizar a energia do grupo para que não seja apenas algo desperdiçado, mas que produza valor.

Para garantir o melhor balanço entre os três elementos, existem diversas ferramentas e práticas que podemos colocar em prática, seja do ponto de vista pessoal ou corporativo. Entre eles, destaco a necessidade de revisão dos modelos de contratação de pessoas para reduzir o impacto dos vieses individuais, que induzem a formação de times muito homogêneos, seja do ponto de vista sócio-demográfico seja do ponto de vista psico-comportamental.

Adicionalmente, não adianta formar times diversos sem lhes dar a devida autonomia, para isso é preciso trabalhar a delegação e o feedback como competências estratégicas. Como toda e qualquer competência, elas exigem muita prática para o aperfeiçoamento e devem ser valorizadas e incentivadas pela cultura e gestão da empresa.

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Já o alinhamento deve ser constante, pois garante o direcionamento de toda a energia da organização. O time deve saber para onde direcionar sua criatividade, quais problemas devem ser resolvidos, quais limitações existem e o que é inegociável para a empresa. 

Gestores habituados ao microgerenciamento perdem a habilidade de pensar estrategicamente e tornam as empresas mais engessadas e reativas.

Aqueles líderes que não conseguem gerenciar a complexidade do caos podem enfrentar situações muito corriqueiras, como pessoas que não compreendem o propósito de tanto trabalho e caminham para burnouts, excesso de iniciativas que não se concretizam, “cemitérios de produtos” pelo caminho etc.

Criar uma cultura orquestradora do caos não é algo rápido, leva tempo e tanto lideranças quanto times precisam desenvolver novas maturidades. Por isso, é preciso fortalecer cada um dos 3 elementos-chave de forma gradual e sem rupturas. 

À medida que esses elementos vão se solidificando novas dinâmicas vão sendo absorvidas pela cultura e vai se tornando natural trabalhar com mais leveza, saúde e criatividade.

Agora que você viu um panorama sobre a liderança para um caos criativo, confira outras dicas fundamentais que líderes atuantes utilizam na comunicação.

*Felipe Ladislau é sócio da Orgânica, aceleradora de pessoas e negócios

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