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Colcha De Retalhos

O
título desta nossa conversa deve-se ao fato de que não tratarei de um único
tema, como tem sido habitualmente, mas sim, estarei compartilhando algumas
reflexões pessoais que, apesar de não estarem necessariamente relacionadas
entre si, tratam de paradoxos e questionamentos sobre o cotidiano das pessoas e
das organizações:

 

   Não
tenho dúvidas que as pessoas emocionalmente inteligentes aprendem com os erros,
fracassos e frustrações. É, porém, interessante reparar que, nem sempre,
este aprendizado ocorre imediatamente após a experiência negativa, e que
precisamos de um tempo para digerir as emoções, ativar o racional e aprender.
Isto que acontece no âmbito pessoal, também ocorre nas organizações, que
precisam de um tempo para rever as suas estratégias e reformularem seu
planejamento.

 

   Também
consideramos inteligentes emocionalmente as pessoas determinadas, persistentes,
“aquelas que não desistem nunca”, características estas, consideradas críticas
para o sucesso pessoal. Mas, muitas vezes, o preço que se paga por ser assim é
o de não estar preparado para desistir; para perceber que não vale a pena; que
podemos sair perdendo, se fizermos uma análise de custo
versus benefício.
Não me refiro só às perdas financeiras ou materiais, àquelas mais fáceis de
serem recuperadas, mas sim das perdas afetivas, da perda de energia, da perda do
tempo (recurso esgotável) e outras mais complexas e de difícil reposição. Já
observei que, na maioria das vezes, temos sinais sutis para considerarmos a
possibilidade de: não ir; não fazer; não investir; enfim, de desistir, mas,
como não temos, naquele momento, dados, números e fatos, não valorizamos a
intuição e mantemos a decisão anteriormente tomada. Mais tarde, lá na
frente, nos damos conta de que não precisaríamos ter passado por aquela situação.
Como temos a liberdade da escolha, resta-nos assumir o ônus ou o bônus
inerente às decisões tomadas. Lembro-me agora de um exemplo extremo, de uma
grande amiga, que lutou durante cinco anos contra um câncer e que, num
depoimento emocionado, disse-me que havia lutado tanto para viver, que não
havia se “preparado” para morrer (desistir)!

 

Aqui
também cabe refletir sobre as organizações, pois na desenfreada
competitividade, cobram das pessoas esta determinação (sem dúvida necessária),
mas nem sempre as preparam para saber que, em alguns momentos, o melhor é, de
fato, desistir daquele projeto, investimento, cliente, etc., para depois, se for
o caso, até retomá-los, mas fazendo-o de outra forma.

   Escutamos
inúmeras vezes, algum comentário sobre o paradoxo: teoria
versus prática.
Recentemente, num evento acadêmico, em Lisboa, onde excelentes trabalhos foram
apresentados no campo das investigações sobre o comportamento organizacional,
ouvi um depoimento, muito interessante, dado por uma profissional do RH de uma
famosa multinacional, sugerindo uma maior aproximação entre a academia e as
empresas, no sentido de buscarem soluções mais consistentes e adequadas para
os diversos problemas enfrentados na gestão de pessoas, nas organizações
modernas. Seria muito conveniente utilizar este rico potencial dos
investigadores e estudiosos para, além de explicarem as causas, também
identificarem as possíveis soluções e orientarem as organizações neste
sentido. De fato, saí deste evento pensando: são tantas investigações
interessantes, mas, em que medida, isto tem contribuído para a melhoria das
condições de vida e para uma maior realização das pessoas? Se bem utilizado,
isto significaria melhores resultados para as próprias organizações.

 

   Esta
reflexão me retornou ao início do meu mestrado, momento onde tive de fazer um
grande esforço para me adaptar à hermética linguagem e a um estilo muito mais
denso de escrita, em que nenhuma opinião podia ser emitida, sem que eu a
fundamentasse num autor que tivesse mais credibilidade que eu. E atualmente,
praticando, vivo buscando um equilíbrio entre a consistência conceitual e a
fundamentação das minhas idéias, sem cair no extremo que, muitas vezes,
ocorre na academia onde lemos muitos autores, mas, ao terminar tantas leituras,
fica a pergunta: e aí, o que eu faço com isto? Ou, às vezes, o pior: o que
ele (o autor lido) quis dizer com tudo isto?

 

   Também
fico pensando como, apesar de tantos estudos, literatura, formações, enfim ações
que objetivam tornar as organizações lugares interessantes para se trabalhar
ou, na expressão de
Peter Senge, organizações de aprendizagem, ainda
nos deparamos com situações tão primárias de relacionamentos, políticas e
práticas de pessoal desatualizadas. Recentemente, participei de um chat, como
“tutora virtual”, com um grupo de pessoas, que haviam feito um curso de
E-learning sobre Equipes de Alta Performance, do qual sou co-autora, e percebi,
durante as discussões, a dificuldade de as pessoas pensarem na aplicação prática
dos conceitos no seu dia-a-dia, e na possibilidade de mudarem seu comportamento,
de forma a contribuírem para a melhoria da performance das equipes das quais
fazem parte. Elas traziam para o debate, questões salariais, ou de posturas
inadequadas das chefias, etc. Pelas perguntas feitas, fui percebendo como é tão
mais fácil buscarmos as soluções fora de nós, do que nos questionarmos
sobre: O que podemos fazer? O que isto tem a ver comigo? De que forma EU posso
contribuir?

 

   
Ainda, na linha de organizações de aprendizagem, o
quanto todos poderíamos aprender se houvessem mais fóruns de discussões entre
as pessoas, sobre suas experiências pessoais com seus filhos, por exemplo, já
que se trata de um relacionamento tão complexo, que, similarmente, envolve
tantas competências de gestão. O quanto nós aprenderíamos se ao invés de
ficarmos reclamando da situação degradante da política, procurássemos
analisar as atitudes que criticamos e pensássemos no quanto temos de estar
atentos para não reproduzi-las nas nossas organizações, fazendo perguntas
como: Será que eu demitiria este Tal político se ele fosse um executivo da
minha empresa?

 

   Isto
tudo me fez pensar na edição especial da Revista VOCÊE S/A-EXAME (Brasil),
que publica uma pesquisa sobre as 150 melhores empresas para se trabalhar, onde
mostra claramente, que além de não fazer milagres e nem ter mistérios, basta,
muito além de seguir leis e modernas teorias de gestão, fazer aquilo que o bom
senso, a justiça, o respeito ao SER HUMANO, tudo aquilo que nos parece tão óbvio,
que é: sair do discurso e ir para a prática. Cabe ressaltar que não deve ser,
por acaso, que todas estas empresas têm excelente performance nos negócios!

 

 

Retirado
dos Programas de Desenvolvimento Interpessoal e Pocket MBA Gestão de Pessoas e
de Negócios.


DENIZE DUTRA

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