Artigos

Emoção – A Linguagem Da Diversidade

Os efeitos da globalização da economia,
apesar de muito questionados em aspectos de vantagens x desvantagens, acabam por
irradiar-se diretamente em nossas vidas de uma forma ou de outra. Na minha vida
em particular, o fato de o mundo ter se tornado uma “aldeia global”
proporcionou-me um imensurável crescimento profissional e pessoal. Desde meados
de 98, trabalhei com mais freqüência no eixo Rio de Janeiro – Lisboa e Cabo
Verde do que para as capitais brasileiras…Estas experiências me levaram a
refletir que, muito além de sabermos lidar com as diversidades culturais,
precisamos é saber lidar com as diversidades pessoais. E, neste caso, só
existe uma linguagem que é verdadeiramente universal – a linguagem das emoções
humanas.

Muito mais do que Língua Mãe e de alguns hábitos
transmitidos pela Cultura Colonizadora, temos em comum o fato de sermos gente
que deseja, sonha, faz projetos, tem receios, certezas ou incertezas, se arrisca
ou resiste ao novo… enfim, com todos os paradoxos dos sentimentos e do
psiquismo humano, expressos no riso, nas lágrimas emocionadas….

Diferenças na Língua, devido a influências
de outras culturas, descaracterização de alguns hábitos, motivos para piadas,
provocações, brincadeiras…. Vale notar na música… samba, fado ou morna
???

Posturas mais informais nos brasileiros e
cabo-verdianos, geralmente mais formais (e cautelosas) entre os portugueses e moçambicanos,
mas essencialmente as mesmas reações diante do lúdico, do novo, o mesmo
comportamento em relação ao processo grupal. No início os “ares” um
tanto desconfiados ou no mínimo curiosos, exprimindo: “Onde vamos chegar
com isto ? ” “Será que convém me expor ?”… Um certo
sentimento de ” estar sendo ridículo” por estar brincando como crianças,
… incertezas e receios em ser aceito pelo grupo…

Promovidas as oportunidade de “quebrar o
gelo”, de aproximar as pessoas em face das descobertas de afinidades, de
integrar o grupo num mesmo objetivo, de pactuar regras, podemos perceber um
salto qualitativo, uma sinergia, um clima totalmente favorável de aprendizagem,
em que já nem se percebem as diferenças no falar português, ”
brasileiro” ou crioulo (dialeto de Cabo-Verde).

Saímos da fase de inclusão, seguem-se as
atividades e começam as associações entre o que se passa na sala de formação
(como chamam os portugueses e cabo-verdianos) e os problemas reais do trabalho.
As discussões ficam mais inflamadas, as diferenças nas análises das causas,
dos efeitos e das buscas de soluções. Instala-se um aparente caos.

É difícil a arte do consenso. Uns acham que
“…se cedo pareço mais fraco que os outros ou Maria vai com as
outras…”, outros “…se mantenho a minha posição, demonstro ser rígido,
não saber trabalhar em equipe…” Enfim, ou chega-se a um consenso, ou
como ocorreu numa experiência recente, decidiu-se que não há uma solução
comum a todo grupo e apresentam-se duas propostas aparentemente antagônicas…
Como diria meu amigo Biscaia, supera-se a ” tirania do OU” e vence o
“paradoxo do E” .

Restabelece-se a “ordem”,
harmoniza-se, reforçam-se os aspectos positivos durante as avaliações, para
que o encerramento seja um espaço para um turbilhão de sentimentos agradáveis
pelo convívio e enriquecimento, em que a motivação mistura-se com sentimentos
de perda “pelo desfazer do grupo de formação” (incorporei mesmo esta
palavra ao meu vocabulário) e de incertezas sobre o futuro da
“semente”. Foi lançada, mas só no dia-a-dia, vou saber se germinou.
Concordo com Peter Senge, quando disse que os líderes devem ser jardineiros.
Penso que é bem este o seu papel, não deixar que a semente morra, cultivá-la,
dando condições para que a terra seja fértil (a empresa), para que as ações
de formação e de desenvolvimento resultem em frutos para a organização. Aliás,
é este o objetivo final de tais ações, traduzidas numa relação custo-benefício….

Diferenças … sim, noto-as em algumas situações,
mas ressaltam-se as semelhanças. Brasileiros, portugueses, cabo-verdianos, moçambicanos(posso
incluir alguns alemães) ou provavelmente qualquer cidadão do mundo (não sei
quanto aos orientais ? ) , normalmente: fragilizam-se diante do confronto com
suas limitações; fortalecem-se diante dos desafios; constrangem-se ou
envaidecem-se diante do elogio e do reconhecimento de seus pontos fortes;
frustram-se quando não conseguem atingir um objetivo ou corresponder às
expectativas de seu grupo; orgulham-se das conquistas; justificam-se quando
erram ou recebem feedback “negativo”….

Em cada novo grupo, um desafio vencido…ser
“formador”, instrutor, facilitador (conforme os modernos conceitos da
andragogia) não é profissão. Para mim, é uma missão que muitas vezes, mesmo
trabalhando 12 horas por dia (quando estou no exterior, faço duas turmas de 6
horas ) para aproveitar melhor o tempo, me sinto renovada e energizada a cada
novo dia, pois percebo que contribuir para a autodescoberta e
autodesenvolvimento do outro, é uma das experiências humanas mais edificantes
e, como diz meu amigo Marco Aurélio Vianna, ” é agregar valor ao universo
e à humanidade”.

Denize
Dutra

Consultora
Sênior do Instituto MVC

Por:

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of