Artigos

Estatuto Do Pedestre E O Estado Do Andarilho


Estatuto de pedestreo e o Estado do andarilho

Antonio de Pádua Galvao (*)

Sinto que este texto ficará inédito, guardado na memória do computador ou como folha solta na estante. Não cairá no gosto de algum editor para publicação. Mas pode ser que ainda exista sensibilidade para dar voz aos andarilhos urbanos. Ficará arquivado como é inédito todos os caminhos que inaugura uma olhar diverso do senso comum. Nós pedestres somos maiorias e nos comportamos como minoria no traçados, passeios e áreas das cidades. Ficamos quase sempre confinados nas calçadas das metrópoles. Acho que seria necessário refletir e construir o Estatuto do Pedestre ou Estado do Andarilho.

São muitos os movimentos e os caminhos que percorremos para sobreviver e realizar nossa natureza. Dentro da cidade o êxodo econômico é fluxo migratório da zona norte para zona sul. Caminho todos os dias observando, não por receituário médico, mas pelo simples prazer de andas. Nestas andanças desloco passos sereno ao lado dos idosos na sua peregrinação para o canto de fé ou busca saúde. Vejo os moradores de ruas encostados nos muros ou deitados nos fiados de gramas das praças. Os portadores de sofrimentos mentais suados, com os tênis rasgados, falando e resmungado de suas angustias internas. Os camelos exilados que ainda aventuram vender cd pirata, altas velhos, pilha de radio, cardaços sapatos e outras bugigangas, tudo barato. Tinha um que vendia pomadinha japonesa, imagine só, o Viagra do povo daquela época. Este sumiu do centro.

Nunca haverá jornada igual, uma manha, tarde ou noite. Nada é igual, tudo é perene e efêmero, em profunda transformação. Tudo se move lenta e gradualmente para o infinito.

Ando por que gosto de olhar os detalhes. Não é por contrição financeira ou por assombro. Mas por resignação e homenagem aos passos, aos primórdios da natureza humana. Do engatilhar para homem ereto sobre seus dois pés.

Andar é um luxo para quem sabe auscultar os movimentos. Andar é um prazer simples e singularmente prazeroso. Adoro andar no meio do expediente e ficar observado a pressa dos comerciantes, a graciosidade das mulheres jovens, o caminhar arrastado dos preocupados, a falação agitadora do louco social. Ando observados os olhos e os gestos. Não me canso de ser andarilho, me misturo ao povo nos mercados e nas praças.

Neste estado de andarilho que escolhi, de observar a vida e interferir no ritmo social com discrição. Nas minhas andanças gosto mesmo é de caminhar pelo centro da cidade. Aquele turbilhão de gente apressada para o ritmo do trabalho ou da escola. Parece um enxame de gente na faixa do pedestre e cruzando a Av. Afonso Pena.

Sou de família de andarilhos. Lembro do meu pai fazendo diariamente o caminho Sagrada família destino Floresta. Indo e vindo todos os dias para o trabalho na Rede Mineira de Viação. Andei muito de trem, que maravilha aquele som e balanço.

Minha esposa Deborah é caminhadora da pista de Cooper da Av. Andradas. Ela é do amor da mocidade. Já percorremos longas jornadas, são mais de vinte anos de relacionamento. Ela teima em dizer que não caminho. Que ando escrevendo ensaios com palavras, mas o estomago anda saliente. Sempre penso comigo: Quem caminha para fora emagreci, quem peregrina para dentro, desperta e escala a planície da sua alma e os vales serenos e tormentosos. Somos alpinistas da alma.

Sou daqueles homens esculpido de arte e sonho. Já participei de passeada com camisa estampada de Che, defesa da mata atlântica, do mico leão dourado, de movimentos sociais, da igreja e de partido. Já desfilei na avenida Afonso Pena no Sete de Setembro como os alunos do Barão de Macaúbas e participei dos Gritos dos Excluídos.

Agora o que quero mesmo é criar os elementos constitutivos para os pedestres. Debater com a sociedade e as autoridades públicas. Quero imaginar a Avenida Afonso Pena da Praça Sete a Praça Tiradentes a disposição dos caminhantes e andarilhos. Um espaço urbano para praça, cafeterias, bares, restaurantes, feiras abertas e shopping ao ar livre. Tudo muito bem arborizado e agradável para descansar os pés e apreciar o espírito. Espero que nos próximos 10 anos com a vinda do metrô, a fibra dos políticos do povo e os traços dos urbanistas engenhosos e sensível possamos criar o Estado do Andarilho e o Estatuto do Pedestre.

(*) Economista, Psicanalista e Professor

www.galvaoconsultoria.com.br

Por:

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of