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Ferramentas para avaliação de satisfação no trabalho

Ferramentas para avaliação de satisfação no trabalho

Por Tatiana da Luz Hilbig

Formada em Psicologia pela Universidade Luterana do Brasil. Tem 34 anos, mora em Porto Alegre. Experiência em recursos humanos, treinamento e desenvolvimento, técnicas de grupo, recrutamento e seleção, pesquisa de clima, desenvolvimento de equipes, resolução de conflitos, entre outros.

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Resumo: Investigou-se a satisfação no trabalho de 38 funcionários de uma empresa gaúcha de pequeno porte. Os participantes responderam um questionário sociodemografico e laboral e três instrumentos: a escala de satisfação no trabalho, a escala de envolvimento no trabalho e a escala de comprometimento organizacional afetivo. Nos resultados, a escala de satisfação no trabalho revelou um valor médio que indica indiferença, quando o indivíduo não está nem satisfeito, nem insatisfeito com seu trabalho. Na escala de envolvimento com o trabalho, o resultado constatado é desconfiança do indivíduo, naquele momento, sobre a capacidade do seu trabalho atual absorvê-lo. E a escala de comprometimento organizacional afetivo, indicou indecisão com o vínculo afetivo do indivíduo com a empresa. Foi verificado neste estudo que não há relação entre as variáveis sociodemográficas e laborais com a satisfação no trabalho. Portanto, realizou-se uma discussão, fundamentada em outros estudos, sobre os possíveis elementos causais de satisfação no trabalho.

Introdução

Embora o estilo de vida moderno não estimule as pessoas a avaliar seus momentos de felicidade ou de completa realização pessoal, elas são diariamente incitadas a planejar o seu dia-a-dia para vencer os desafios da vida moderna como, por exemplo, conseguir e manter um emprego, proteger suas vidas da violência urbana, equilibrar as finanças, esquivar-se de hábitos ou estilos de vida que comprometem a sua saúde e, ao mesmo tempo, praticar ações que promovem a sua integridade física, emocional e social. Pesquisadores de diversos países estão empenhados em descobrir o quanto as pessoas se consideram felizes ou em que medida são capazes de realizar plenamente suas potencialidades (Siqueira & Padovam, 2008).
Deve-se levar em consideração que uma pessoa pode ser ou estar insana e se sentir muito feliz. Já outra pessoa pode estar bem em muitos aspectos de sua vida, mas não ser particularmente feliz. Somente o indivíduo pode experimentar seus prazeres e dores e julgar se está satisfeito com sua vida (Albuquerque & Tróccoli, 2004). Entre os pesquisadores da Psicologia, porém, a palavra felicidade costuma ser evitada, e em seu lugar são adotados termos menos populares e mais acadêmicos, como afeto e bem-estar (Albuquerque & Tróccoli, 2004).
O bem-estar no trabalho pode ser conceituado como a prevalência de emoções positivas no trabalho e a percepção do indivíduo de que, no seu trabalho, expressa e desenvolve seus potenciais/habilidades e avança no alcance de suas metas de vida. De acordo com Siqueira (2008) bem-estar no trabalho é concebido como um conceito integrado por três componentes: satisfação no trabalho, envolvimento com o trabalho e comprometimento organizacional afetivo. Esses três conceitos, representam vínculos positivos com o trabalho (satisfação e envolvimento) e com a organização (comprometimento afetivo).
Comprometimento organizacional afetivo é a intensidade com que um empregado nutre sentimentos positivos e negativos frente à organização em que trabalha. Ou seja, é o compromisso de base afetiva. Já, envolvimento com o trabalho, compreende o grau em que o trabalho realizado consegue prover satisfações para o indivíduo, absorve-lo completamente enquanto realiza as tarefas e ser importante para a sua vida. É um vinculo afetivo desenvolvido pelo indivíduo frente ao trabalho que realiza. (Siqueira ,2008).
Os elementos associados à satisfação no trabalho estão relacionados ao próprio trabalho e o seu conteúdo, possibilidades de promoção, reconhecimento, condições e ambiente de trabalho, relações com colegas e subordinados, características da supervisão e gerenciamento e políticas e competências da empresa (Martinez, Paraguay & Latorre, 2004). Quando se estudam os aspectos emocionais do trabalho, não se trata de identificar a presença contínua de sensações positivas em toda a vida, mas sim, detectar se em sua grande maioria as experiências vividas foram entremeadas muito mais por emoções prazerosas do que por sofrimentos. As análises sobre bem-estar podem estar muito mais relacionadas à freqüência com que se experimentam emoções positivas do que à intensidade dessas emoções (Siqueira & Padovam, 2008).
Há uma forte correspondência entre o quanto as pessoas apreciam o contexto social de seu local de trabalho e a satisfação que sentem em geral. A interdependência, o feedback, o apoio social e a interação com os colegas fora do seu local de trabalho estão fortemente relacionados com a satisfação no trabalho. Ela pode ser entendida como um conceito integrado por cinco dimensões. São elas: A satisfação com o salário, satisfação com os colegas de trabalho satisfação com a chefia, satisfação com a natureza do trabalho e a satisfação com as promoções. (Siqueira et al., 2008).
A dimensão satisfação com os colegas de trabalho refere-se ao contentamento com a colaboração, a amizade, a confiança e o relacionamento mantido com os colegas de trabalho. A dimensão salário envolve o contentamento com o que recebe como salário se comparado com o quanto o indivíduo trabalha, com sua capacidade profissional, com o custo de vida e com os esforços feitos na realização do trabalho. A dimensão satisfação com a chefia envolve o contentamento com a capacidade profissional do chefe, com seu interesse pelo trabalho dos subordinados e entendimento com eles. A dimensão satisfação com a natureza do trabalho envolve o contentamento com o interesse despertado pelas tarefas, com a capacidade destas em absorver o trabalhador e com a variedade das mesmas. A dimensão satisfação com as promoções envolve o contentamento com o número de vezes que já recebeu promoções, com as garantias oferecidas a quem é promovido, com a maneira como a instituição realiza promoções e com o tempo de espera pelas mesmas.
Existem evidências de que pessoas com níveis altos de contentamento com o trabalho são também as que menos planejam sair das empresas onde trabalham, são as que têm menos faltas, melhor desempenho e maior produtividade. Desse modo, o vínculo afetivo com o trabalho realizado, ou seja, a efetividade pelos cinco fatores que integram o conceito teórico de satisfação parece ter capacidade para reduzir taxas de rotatividade de pessoal, índices de faltas ao trabalho e elevar os níveis de desempenho e de produtividade dos indivíduos (Siqueira & Júnior, 2009).
Investigar satisfação no trabalho significa avaliar o quanto os retornos ofertados pela empresa em forma de salários e promoção, o quanto a convivência com os colegas e as chefias e o quanto a realização das tarefas propiciam ao empregado sentimentos gratificantes ou prazerosos.
O objetivo principal desse estudo foi identificar e avaliar a satisfação no trabalho entre os funcionários de uma empresa, como também verificar as cinco (05) dimensões constituintes da satisfação no trabalho: satisfação com os colegas de trabalho, com o salário, com a chefia, com a natureza do trabalho e com as promoções. Esse trabalho também se propôs a analisar as relações entre satisfação no trabalho, envolvimento no trabalho e comprometimento organizacional afetivo e examinar as relações entre satisfação no trabalho e variáveis sociodemográficas e laborais.

Método

Delineamento
Realizou-se um estudo quantitativo observacional descritivo.

Participantes
Participaram do estudo 38 funcionários de uma empresa de pequeno porte que presta serviços médicos localizada em Porto Alegre, RS. Desses, 27 são mulheres e 11 homens. A idade variou de 19 a 52 anos, sendo a média de 31 anos. Com relação ao estado civil, 22 participantes são solteiros, 08 são casados ou com parceiro, 07 divorciados e 01 viúvo. Relativamente à raça/etnia, 32 participantes são brancos, 04 negros, 01 pardo e 01 misto. Com relação à religião, 28 são católicos, 01 evangélico, 04 espíritas e 05 relataram outras religiões. Quando se analisa a escolaridade, 03 participantes têm nível básico, 25 tem nível médio (incluem-se os superiores incompletos), 07 nível superior completo e 03 com pós-graduação.

Instrumentos
Foram utilizadas três escalas que compõem as medidas de bem-estar no trabalho: escala de satisfação do trabalho, escala de envolvimento com o trabalho e escala de comprometimento organizacional afetivo. A escala de satisfação no trabalho (EST) tem o objetivo de avaliar o grau de contentamento do trabalhador frente a cinco dimensões do seu trabalho: colegas de trabalho, salário, chefia , natureza do trabalho e promoções.
A escala de envolvimento com o trabalho (EET) refere-se ao envolvimento do indivíduo com o seu trabalho. Compreende o grau em que o trabalho realizado consegue prover satisfações para o indivíduo, absorve-lo completamente enquanto realiza as tarefas e ser importante para a sua vida. É um vinculo afetivo desenvolvido pelo indivíduo frente ao trabalho que realiza.
A escala de comprometimento organizacional afetivo (ECOA) permite avaliar a intensidade com que um empregado nutre sentimentos positivos e negativos frente à organização em que trabalha. Também foi aplicado um questionário biosociodemográfico e laboral que investigou variáveis da pessoa (sexo, idade, escolaridade, entre outras) e do seu trabalho (função, tempo de trabalho, carga horária, etc).

Procedimentos de coleta e análise de dados
Durante três meses no ano de 2013, foram feitas visitas à empresa para a aplicação dos questionários, os quais foram aplicados de forma privada e individual. Os dados foram tabulados no programa SPSS versão 18.0 for Windows. Foram realizadas análises estatísticas descritivas (freqüência, percentual, média e desvio padrão) e estatísticas bivariadas (teste t de Student e correlação de Pearson) para verificar as relações entre: satisfação no trabalho, envolvimento no trabalho, comprometimento organizacional afetivo e variáveis sociodemográficas e laborais.

Resultados
Com relação aos resultados do estudo, a escala de satisfação no trabalho apresentou um valor que indica indiferença, quando o indivíduo não está nem satisfeito, nem insatisfeito com seu trabalho. Analisando o comprometimento afetivo dos participantes com a empresa, através da escala de comprometimento organizacional afetivo, o resultado indicou indecisão com o vínculo afetivo com a organização. Isto pode significar que as pessoas estão mais emocionalmente ligadas ao seu trabalho e as suas atividades do que à empresa onde trabalham.

Itens da escala de satisfação no trabalho:
1 – Espírito de colaboração dos meu colegas de trabalho.
2- Número de vezes que já fui promovido nessa empresa.
3 – Meu salário comparado com o quanto eu trabalho.
4- Tipo de amizade que meus colegas demonstram por mim.
5 – Grau de interesse que minhas tarefas me despertam.
6 – Meu salário comparado à minha capacidade profissional.
7 – A maneira como esta empresa realiza promoções de seu pessoal.
8 – A capacidade do meu trabalho absorver-me.
9 – Oportunidades de ser promovido nessa empresa.
10 – Entendimento entre mim e meu chefe.
11 – Meu salário comparado aos meus esforços no trabalho.
12 – A maneira como meu chefe trata-me.
13 – Variedade de tarefas que realizo.
14 – Confiança que eu posso ter em meus colegas de trabalho.
15 – Capacidade profissional do meu chefe.

Com relação às variáveis sociodemográficas e laborais, realizou-se uma análise para se verificar se havia ligação entre elas (idade, sexo, horas extraordinárias, função, idade, estado civil, nível da organização, religião, raça e escolaridade) com a satisfação no trabalho. Não foram encontrados resultados significativos.

Discussão
Investigar satisfação no trabalho significa avaliar o quanto os retornos ofertados pela empresa em forma de salários e promoção, o quanto a convivência com os colegas e as chefias e o quanto a realização das tarefas, propiciam ao empregado sentimentos gratificantes ou prazerosos.
Com relação aos resultados do estudo, a escala de satisfação no trabalho (EST) revelou indiferença, isto é, quando o indivíduo não está nem satisfeito, nem insatisfeito com seu trabalho. Com relação à escala de envolvimento com o trabalho (EET), o resultado constatado é também indiferença ou desconfiança do indivíduo naquele momento, sobre a capacidade do seu trabalho atual absorvê-lo. Analisando o comprometimento afetivo dos participantes com a empresa (ECOA), as respostas indicaram indecisão com o vínculo afetivo do indivíduo com a empresa. Isto pode indicar que os funcionários se comportam de maneira tranquila, não demonstrando grandes preocupações com a empresa, mas talvez estejam mais satisfeitos com a convivência com os colegas e superiores do que com as tarefas que realizam ou com a organização em trabalham.
Analisando-se as variáveis que compõem a satisfação no trabalho, percebem-se diferentes resultados conforme a dimensão avaliada. Na satisfação com os colegas de trabalho e com a chefia, os valores indicaram satisfação. Esses resultados podem significar que em sua grande maioria, as experiências vividas no local de trabalho com a chefia e os colegas de trabalho foram permeadas mais por emoções prazerosas do que por sofrimentos. Também se percebe que o contato social e a interação com os colegas e a chefia estão fortemente relacionados com a satisfação no trabalho. Com relação à chefia, a percepção dos funcionários da empresa sobre seus gestores, de uma maneira geral, é a de estão devidamente preparados para exercer a função de liderança, estão capacitados profissionalmente e sabem orientar e auxiliar seus subordinados quando estes necessitam apoio.
As respostas para a variável salário, acusaram insatisfação. Com isso, percebe-se que as pessoas acreditam que seus esforços na realização dos trabalhos e também o que recebem comparado ao quanto trabalham, não estão sendo devidamente recompensados pela empresa. Há uma grande incompatibilidade entre salário e atividades desempenhadas. Em outras pesquisas, a variável que mais indica insatisfação é também a variável salário. As respostas para promoções e satisfação com a natureza do trabalho acusaram um estado de indiferença, quando o indivíduo não está nem satisfeito, nem insatisfeito.
De acordo com diversos estudos, a satisfação no trabalho é um sentimento extremamente sensível às políticas e práticas gerenciais, especialmente aquelas que revelam se a empresa está comprometida com seus trabalhadores. Ou seja, é uma função do nível de preocupação da empresa com o bem-estar do funcionário e da retribuição que ela está disposta a fazer para reconhecer seus esforços e investimentos aplicados na organização. Sugere-se de fundamental importância para a satisfação no trabalho, portanto: Percepções de justiça, o grau com que o sujeito percebe seu trabalho como importante, valioso e significativo, o quanto se sente responsável pelos resultados do trabalho que executa, a autonomia dispensada a ele por parte da empresa, “feedback” dos superiores, relacionamentos interpessoais, comunicação interna na empresa e possibilidades de crescimento. Sabe-se que a satisfação é intrínseca, e por isso, não pode ser comprada ou importada pela organização, apenas estimulada, seja por meio de condições físicas de trabalho adequadas ou por incentivos financeiros e sociais.

Referências

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Siqueira, M.M.M. e cols. (2008). Medidas do comportamento Organizacional. Porto Alegre, Artmed Editora S.A.

Por: Tatiana Da

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