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Gente que faz

Amélia Scolcon tinha 20 anos quando chegou à fábrica. Com a experiência profissional de faxineira diarista em casas de família, não ousava sonhar. Foi contratada para fazer limpeza, seu primeiro emprego com carteira assinada. E único. Hoje, Amélia está prestes a completar 25 anos como funcionária da fábrica de calçados Azaléia, que fica em Parobé, no Rio Grande do Sul, chefia uma equipe de 50 costureiros e se prepara para prestar vestibular para o curso de psicologia. A moça que deixou a escola na quinta série do Primeiro Grau e virou faxineira encontrou apoio e incentivo para os sonhos que não ousava ter. A profissão de costureira e montadora Amélia aprendeu nas oficinas de profissionalização da empresa. Todos os estudos, até a conclusão do Segundo Grau, foram feitos na escola que a Azaléia mantém nas dependências de sua fábrica. Se passar no exame vestibular neste mês, 80% do curso de psicologia serão financiados pela indústria. Hoje, 25 anos depois de bater na porta da fábrica procurando emprego, quando ela deixa o trabalho é como se saísse de casa para casa. Na creche da Azaléia, na hora do almoço, é o neto Bruno de 3 aninhos que pega no colo. Amélia já visitou muito sua filha Renata, mãe de Bruno, no mesmo berçário.

A empresa mudou a vida de Amélia. E para melhor. A Azaléia também ganhou com isso. Conta com uma funcionária dedicada, qualificada e que faz tudo para a empresa crescer cada vez mais.

Quem cuida bem de seus funcionários acaba investindo no próprio sucesso. (Veja texto na página ao lado.) Há uma série de benefícios que empresas conscientes de seu papel social podem fazer por seus empregados, como incentivo à educação, apoio à maternidade, programas de saúde preventiva e de qualidade de vida, valorização do bom relacionamento entre chefes e subordinados e até facilidade de crédito financeiro.

Desejo de mulher
Viviane foi promovida quando seu filho Vinícius completou oito meses

No Brasil, as mulheres já respondem por mais de 40% do mercado de trabalho, e por isso algumas empresas mantêm programas específicos às necessidades femininas. O apoio à maternidade é um dos mais importantes. Permite conciliar trabalho e filhos sem prejuízo para mãe ou para a empresa. Pela lei brasileira, as firmas com mais de 30 funcionárias acima de 16 anos de idade devem pagar um auxílio-creche em dinheiro. Mas algumas vão além da obrigação legal e fornecem um local adequado para os filhos das empregadas dentro da própria empresa. Faz toooda a diferença. As indústrias de cosméticos Avon, Natura e O Boticário, todas com o quadro funcional de maioria feminina, são exemplares. Não só dispõem de berçários e creches-modelo na empresa como oferecem cursos para gestantes e facilidades para que as mães saiam em certos horários* do expediente para amamentar seus filhos.

*Quando o berçário da Avon foi instalado na empresa, há 21 anos, apenas 20% das funcionárias amamentavam seus filhos até os seis meses de vida. Hoje, 80% das mulheres fazem o aleitamento materno.

As funcionárias trabalham mais tranqüilas e satisfeitas, o que aumenta a produtividade, diz a diretora de recursos humanos da Avon, Sara Behmer. A planejadora de incentivos da indústria, Viviane Aparecida Bachini, de 29 anos, é uma prova dessa afirmação. Viviane foi promovida quando seu filhinho, Vinícius, completou oito meses de idade, no começo deste ano. Levei o Vinícius para a creche logo que saí da licença-maternidade. Ele se adaptou muito bem e isso me deixou sossegada para trabalhar com gosto. Meu pique no trabalho aumentou muito desde que sou mãe, diz Viviane. Na Natura, os elogios se repetem. Eliane Munford, de 38 anos, que trabalha no planejamento financeiro da fábrica de Cajamar, em São Paulo, conta que seu filho Rafael, um garoto espevitado de 3 aninhos, simplesmente a-d-o-r-a quando ela precisa fazer horas extras na empresa. Eu relaxo e trabalho feliz sabendo que meu menino está em boas mãos, diz Eliane, que contará com a creche até o aniversário de 4 anos de Rafael. No Boticário, as crianças entram ainda bebês no centro educacional e saem com 7 anos, já alfabetizadas.

O lucro de quem cuida

Apesar de ser impossível de demonstrar com números o quanto a Azaléia e outras empresas conscientes de seu papel humano e social lucram investindo em Amélias, um empregado feliz é mais produtivo, interessado e representa lucro certo para as organizações. Em vários sentidos. Em primeiro lugar, economiza-se com despesas de contratações e demissões, por causa da baixa rotatividade dos trabalhadores. Cada vez que um funcionário substitui outro que pediu a conta ou foi demitido, a empresa arca com o equivalente a um ano de salário da função em encargos sociais. O compromisso com a empresa ainda estimula os funcionários a buscar soluções e idéias para lidar com um dos grandes desafios dos negócios da atualidade: a capacidade de uma organização se adaptar a mudanças. E não só.

Tão importante quanto o empenho dos funcionários são os pontos positivos que as empresas conscientes ganham em relações institucionais e de marketing. Explica-se: para competir no mercado, principalmente exportar produtos, as empresas precisam cuidar – e muito – da imagem de sua marca. Nos anos 60, o valor de uma empresa era medido principalmente por seu patrimônio, fábricas, propriedades e lucros. Hoje, só para ter uma idéia, há marcas cujo valor representa 40% do patrimônio total de uma organização. A reputação de uma grife influencia consumidores, revendedores, financiadores, preço de ações em bolsas de valores… A Nike, por exemplo, experimentou queda de cerca de 50% nas ações quando se descobriu que utilizava mão-de-obra infantil, em 1997. Isso porque num mundo altamente competitivo, onde praticamente qualquer categoria de produto, a partir de um certo nível de preço, funciona com a mesma eficiência, a marca é uma das poucas armas que restam às empresas para garantir a lucratividade e a fidelidade do consumidor. Valorizá-la é essencial. E a imagem de uma marca começa em casa, justamente com a preocupação da empresa com os seus funcionários. E funcionárias.

Fonte:Revista Criativa – Editora Globo

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