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LEMBRANÇAS DE UMA INOCÊNCIA

SOU PSICÓLOGA JURÍDICA PELA PUCPR.

Lembranças da inocência

Numa parábola, um profeta relata a um outro homem: Haviam dois homens que viviam na mesma cidade, um rico e outro pobre. O rico possuía muitos gados e ovelhas, enquanto que o pobre tinha somente uma ovelha, que havia comprado. Ele cuidou dela, e ela cresceu na sua casa, junto com os seus filhos. Ele a alimentava com a sua própria comida, deixava que ela bebesse no seu próprio copo, e ela dormia no seu colo. A ovelha era como filha para ele. Certo dia um visitante chegou à casa do homem rico. Este não quis matar um dos seus próprios animais para preparar uma refeição para o visitante, em vez disso, pegou a ovelha do homem pobre, matou-a e preparou com ela uma refeição para o seu hóspede. O homem ouvindo esta estória argumenta: Este homem deve ser banido! O homem que fez isso deveria ser morto! Ele deveria pagar quatro vezes o que tirou, por ter feito uma coisa tão cruel. O profeta retrucou-o dizendo: Este homem é você!
Este exemplo, nos indica que o ser humano pode apresentar suas faces, figuradas e projetadas em diversas facetas, sejam no campo da fantasia ou mesmo na realidade de como elas são vividas. A frieza e a astrocidade do assassino que matou doze crianças e mudou o cenário de esperança e de inocência numa escola do Rio de Janeiro, revela que fantasmas podem habitar o nosso self, de forma a nos controlar em certos níveis da nossa vida.
Estamos de luto, a procura de justiça, porém quem devemos culpabilizar? Os atos como este ocorrido no Rio, parece mais um filme de terror :”Um massacre no Realengo”.
A escola foi o lugar escolhido por Wellington e nos fez refletir: O que estamos formando como seres humanos? No que estamos nos tornando? A escola é um lugar de conquistas, de valores e de construção da personalidade. Entretanto, tornou-se agora um lugar de destruição do eu.
Será que o Wellington vivenciou profundo sofrimento durante os seus vinte e quatro anos, e seus comportamentos passaram despercebidos? O “bobão”, assim como era chamado pelos colegas de classe, era apenas uma criança tímida e, posteriormente, um adulto instropectivo?
O que o motivou a cometer este crime? Psicopatia, desequílibro emocional, incompreensão social? O autor deste crime escreveu uma carta com palavras calcadas na religiosidade, não demonstrando conexão com o mundo. O mesmo não demonstrou laços familiares e pareceu desprezar os seres humanos por esses serem comunicativos. Pelo contrário, W. era introspectivo. Quando num parágrafo valoriza mais os animais, em outro fala de pais, porém quem são estes pais, que nem mesmo institui como seus? Seria um pensamento delirante? Um trauma de infância? O retrato deste sujeito indica manifestações de recalques psicológicos. Pureza, timidez, reedição da fase escolar, relações parentais e adolescência… Teria esta fase marcado a sua vida? E quem já não teve algum problema desta ordem?
Qual é o limite entre a loucura e a sanidade? Está longe de ser algo incomum. A vida, as pressões, um mundo cruel e insensível e o desfalecimento de laços afetivos nos revelam o que nos tornamos ou o que poderemos nos tornar.
Podemos estudar os comportamentos, porém não podemos evitá-los. Podemos perceber condutas e amenizar impulsos, porém não podemos contê-los.
Os especialistas se esforçam para achar respostas, os psicológos argumentam cientificamente, os politicos discutem medidas preventivas, os religiosos falam de esperança, os representantes dos direitos humanos defendem os vitimados. Mas afinal, em quem devemos nos amparar? Precisamos olhar para dentro de nós e descobrirmos quem realmente somos, pois a loucura e a sanidade estão em constante atuação em nossas estruturas psíquicas, e portanto não devem ser ignoradas.

Por: Fabiane

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