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Lendo as Entrelinhas do Futuro

Lendo as Entrelinhas
do Futuro


“O futuro não é como costumava ser”
Poeta francês Paul Valéry

Valéry tem hoje
muito mais razão do que no passado. Enquanto na maior parte do século XX as
pessoas viviam obcecadas pela crença de poucas oportunidades de trabalho para
uma população sempre crescente, o próximo século será marcado pela escassez
de trabalhadores. Entretanto, este momento atual de reengenharias, demissões,
atividades que desaparecem, afeta de forma adversa a vida de muita gente e
produz medos semelhantes aos que a Depressão de 1929 provocou nas pessoas. O
que precisamos compreender é que as circunstâncias de hoje são completamente
diferentes de outras do passado e as perspectivas para o futuro são
substancialmente melhores para o mercado de trabalho – simplesmente porque a
população mundial vai cair acentuadamente. Só precisamos é não deixar que a
parte triste desta mudança nos contamine e cumprir a responsabilidade de nos
prepararmos para este novo mundo através de uma educação séria. Hoje essa
demanda por educação já se mostra bem evidente. As melhores e mais bem
remuneradas ofertas de trabalhos não conseguem ser preenchidas por recém
formados cuja capacitação está muito aquém do que as empresas
necessitam.”

Esta foi a abertura da
brilhante palestra de Herbert I. London, presidente do Hudson Institute –
reconhecida instituição de estudos prospectivos criada por Hermann Khan -,
durante a conferência de 1999 da World Future Society. Além da objetividade
com que abordou o futuro, o tema escolhido parece ter sido feito sob medida para
nós brasileiros: o mal que a insistência na divulgação e no consumo da versão
pessimista das notícias provoca nas pessoas. Para mostrar como este foco único
deturpa perniciosamente as expectativas que criamos quanto ao futuro London, em
suas freqüentes palestras em universidades, dirige sempre três
perguntas-pesquisa aos alunos que, em geral, as respondem da forma computada
abaixo:

  1. Vocês acham que vão ser bem sucedidos no
    futuro?
    Invariavelmente, uma
    maioria de 95% dos estudantes costuma responder que sim.

  2. Vocês acham que os EUA serão bem sucedidos
    no futuro?
    Nesta, as respostas
    positivas costumam cair para cerca de 55%.

  3. Vocês acreditam que o resto do mundo será
    bem sucedido no futuro?
    Nesta última,
    o resultado habitual despenca para 25%.

Para o palestrante, os
estudantes demonstram com suas respostas não só uma absoluta falta de lógica
na análise das notícias como também refletem o viés de pessimismo que está
contaminando a nossa cultura e faz a festa dos que ganham ao divulgá-las. Esta
expectativa capenga de um futuro individual magnífico em meio a um mundo que
desmorona se assemelha à de um passageiro que viajando na primeira classe do
Titanic, vê o navio afundar mas acredita piamente em sua sobrevivência.

m sua cruzada contra o
negativismo, London adota um estilo rolo-compressor em suas apresentações,
rebatendo com uma lógica brutalmente simples todo e qualquer argumento
pessimista relacionado aos grandes temas do futuro. Desfilando seu fantástico
conhecimento enciclopédico e uma facilidade impressionante para argumentar,
nesta palestra concentrou sua metralhadora giratória sobre o que denomina
“profecias lúgubres” da moda, relatadas a seguir:

  1. Nós vamos em breve enfrentar uma tremenda
    superpopulação no mundo
    – na última
    semana de julho a CBS americana levou ao ar um programa sobre este tema;

  2. As terras aráveis estão acabando no mundo
    – a frase do Vice Presidente americano Al Gore, “estamos perdendo 58
    acres de terra arável por hora”, é na opinião de London, síntese da
    tendenciosidade com que o tema é tratado;

  3. Estão terminando as reservas de energia e
    recursos minerais do mundo
    ;

  4. Esta aumentando o gap
    entre ricos e pobres
    .

A divulgação sistemática
destas questões como ameaças insolúveis, fora de um contexto de transformação,
tem o poder de imobilizar as pessoas – sentem-se impotentes diante dos fatos
– e cria na mente de nossos filhos uma visão extremamente deturpada do mundo
futuro. Segundo a mídia, vivemos em uma sociedade sofredora pelo uso extremado
e indevido de tecnologias, com problemas de superpopulação e falta de
alimentos, com problemas evidentes de falta de energia etc.

No limite, que tipo de informações
nossos jovens estão recebendo como heranças? Que mudanças estão ocorrendo
hoje cujas histórias têm sido relatadas de forma tão deturpada por essas
negras profecias? Para London, estas são questões que todos devemos ter em
mente quando pensamos em nossos filhos. Para ele, a análise fria dos fatos
mostra que estamos passando por uma fase de criação e morte de várias
instituições. É um período de intensa criatividade destruidora em que novas
organizações vão surgir e outras vão morrer. À medida que a gente faça,
por exemplo, mais compras pela Internet, estamos provocando maiores mudanças
para os shoppings e lojas de varejo. Se subitamente todos passassem a
utilizar a Internet, as demais instituições tradicionais deixariam de existir
e os investimentos a elas direcionados estariam todos perdidos.

O momento atual se assemelha
portanto ao momento inicial de formação de uma gigantesca onda de mudança
cujas oportunidades serão enormes para o escasso e valioso capital humano do
futuro desde que adequadamente educado para aproveitá-las.

SÉRGIO DUARTE VELASCO
VICE-PRESIDENTE DO INSTITUTO MVC
(A íntegra deste texto está contida na edição nº 25 do boletim do futuro do
Instituto MVC, Ameaças & Oportunidades – consulte-nos para recebimento
por e-mail) www.institutomvc.com.br

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