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Lições de gestão da Chapecoense e o legado pós tragédia

Há uma semana, a tragédia que dizimou a delegação da Chapecoense, parte da tripulação e profissionais da imprensa, passou a fazer parte de nossas vidas de alguma forma, pois à todo momento, independente do veículo de comunicação, nos deparamos com notícias que envolvem esse triste acontecimento.

E com isso, vamos tomando conhecimento de histórias de vida, de detalhes desconhecidos dos vitimados e dos sobreviventes, seja uma curiosidade, um sonho, um acontecimento ou uma passagem interessante de vida.

Não há como não se comover com tanta vida perdida e não pensar no que todos ainda teriam para realizar: o jogador Tiaguinho que havia descoberto recentemente que seria pai, o narrador Deva Pascovicci que de forma valente havia vencido dois cânceres, o comentarista (ex-técnico e ex-jogador) Mário Sérgio que não iria cobrir esse jogo mas foi escalado de última hora, o filho do técnico Caio Junior que não embarcou por ter esquecido o passaporte, dentre tantas e tantas comoventes histórias de vida, especialmente quando lembramos que se tratavam de profissionais em viagem, a fim de exercer seus respectivos ofícios de forma vibrante e profissional.

E diante disso tudo, a Chapecoense que já vinha em uma ascendente projeção nacional desde 2009, passou a se tornar um time de dimensões internacionais. Para quem como eu que acompanha futebol já sabia que o motivo dessa ascensão, considerada meteórica, se dava fundamentalmente à sua gestão responsável e consciente e hoje como toda essa repercussão, fica a torcida de que o sucesso dessa gestão torne-se um legado para os dirigentes que restaram, que deverão promover uma restruturação para que o clube possa se reerguer e que essa tragédia tenha o menor impacto possível.

Para que todos possam compreender as lições de gestão da Chapecoense é necessário voltar um pouco no tempo, em 2008, quando o paranaense Sandro Luiz Pallaoro, empresário do ramo de alimentos em Chapecó, aceitou o convite para presidir a Chapecoense e assim, levou toda a sua expertise executiva para a administração de um time de futebol e dá-se o início uma avassaladora ascensão, nunca vista antes no futebol nacional.

A Diretoria de Conselho, que normalmente em outros clubes apenas fiscaliza os trabalhos da Diretoria Executiva, na Chapecoense atuam em conjunto e isso proporciona um ganho significativo e uma sinergia nos trabalhos de ambas diretorias em prol de uma gestão responsável.Entre 1973 – ano de sua fundação até 2008, a Chapecoense passou por muitas situações, desde momentos de conquistas de três campeonatos catarinenses nos anos de 1977, 1996 e 2007 até sérios problemas financeiros que obrigaram a Chapecoense a mudar de nome e personalidade jurídica para saldar dívidas em 2003.

Essa ascensão entre 2009 e 2014 foi considerada avassaladora e o mais surpreendente nessa história é que a permanência de um time médio, de forma tão consistente na elite do futebol é incomum, e a Chapecoense tem se mantido de forma muito digna na série A, o que reflete a eficiência e a eficácia de sua gestão.

Em 2008, a Chapecoense contava com um orçamento de 9 milhões de reais (pouco para o mundo do futebol nacional) e 300 associados e embora fosse campeã catarinense por 3 vezes, só havia disputado o campeonato brasileiro nos anos de 1978 e 1979 e só retornaria para a série A em 2014, quando passou a administrar um orçamento de 35 milhões de reais, contando em 2016 com um orçamento de 60 milhões de reais.

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A gestão do presidente Pallaoro era baseada em 4 pilares: planejamento, comprometimento, responsabilidade e transparência. E tinha como premissas manter o equilíbrio financeiro tratando o clube como um negócio com uma gestão responsável para dar lucro e investir em benefício da própria equipe principal e de base e na estruturação do clube, a política salarial do clube é baseada em piso de 30 mil reais e teto de 100 mil reais, premiações por metas alcançadas e pela primeira vez, o clube premiaria a equipe com o pagamento do 14º salário, incomum no futebol nacional e característico em empresas privadas estruturadas financeiramente.

Os 4 pilares e as premissas trazidas do mundo corporativo fizeram toda a diferença para o impressionante crescimento da Chapecoense em 7 anos e a consequente permanência do time na série A por 3 anos consecutivos, e o mais incrível, sem rondar a zona de rebaixamento em nenhum dos últimos anos, diferentemente do que vem acontecendo com clubes de maior renome, visibilidade e orçamento. Conquistando vaga para disputar a Copa Sulamericana, seu primeiro torneio internacional e hoje, com a notícia da chancela da Commenbol em atribuir o título da Sulamericana à Chapecoense – como proposto pelo Atletico Nacional da Colômbia, pela primeira vez no próximo ano o time de Chapecó irá disputar a Taça Libertadores.

Uma prova de que, grandiosidade do clube, marca forte, orçamento gigantesco e grandiosos títulos não garantem uma boa colocação em campeonatos e não evitam rebaixamentos.

O que faz toda a diferença em tempos de alta profissionalização do futebol é a sua gestão. Uma administração forte, responsável, profissional, composta por pessoas sérias e comprometidas com o todo, ou seja, com o clube.

E por que o mundo corporativo deve levar o exemplo da Chapecoense, uma vez que o clube se inspirou em administrações corporativas para sua gestão? Resposta simples essa!

Simplesmente porque existem muitas empresas de pequeno e médio portes que ainda não possuem uma gestão nestes moldes.

Até tentam, mas a cultura da “amizade”, a cultura do “todo mundo faz tudo de qualquer jeito e no final dá certo”, a cultura do “dono que dá pitaco em tudo”, a cultura do “dono que desautoriza seus líderes”, da cultura do “jeitinho brasileiro”, da cultura do “quem manda aqui sou eu”, a cultura do “manda quem pode e obedece quem tem juízo”, a cultura do “atropelo”, a cultura do “reduzir quadro para quem fica dar conta do serviço de meia dúzia”, da cultura “coleguismo”, da cultura do “protecionismo por camaradagem ou gratidão”, da cultura de “regras existem para serem quebradas”, do “passar a mão na cabeça de profissionais desrespeitosos, mas que dão resultados”, enfim, ficaria o dia todo elencando fatores comuns em determinadas empresas neste vasto mercado de trabalho.

Tudo isso em detrimento das competências, da reciclagem, da qualificação, da capacidade de liderança, da capacidade de gestão, da visão macro, da visão holística, da responsabilidade corporativa, da transparência organizacional, do alinhamento financeiro, da ética empresarial, do respeito aos colegas de trabalho, de respeito às hierarquias, entre tantas outras.

Você, conhece empresas assim? Já passou por alguma empresa assim? Certamente, todos nós em algum momento de nossa trajetória profissional já atuamos em empresas com esse tipo de gestão.

Quando o ex-presidente da Chapecoense deixa seu legado de planejamento, comprometimento, responsabilidade e transparência, ele nos demonstra o quanto o mundo corporativo ainda tem muito a aprender com ele. Pois esses 4 pilares são fundamentais para combater essas culturas corrosivas, que dinamitam a Gestão de Pessoas e a Gestão Financeira de qualquer empresa.

Torço para que a nova diretoria da Chapecoense faça jus à gestão de Pallaoro e prossiga com uma gestão responsável e transparente para que o clube sinta o menor impacto possível e consolide seu crescimento em nome dessa delegação dizimada por essa triste tragédia. E que o restante do mundo corporativo possa se espelhar na Chapecoense para que reflita sobre sua gestão, seu modelo de estratégia organizacional e se inspire no que de bonito a Chapecoense nos ensinou.

Deixo esse texto como reconhecimento de uma administração modelo até para o mundo corporativo e fundamentalmente, como uma homenagem para a Associação Chapecoense de Futebol.

#ForçaChape

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