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Liderança Humanista E Evolução


Como sempre, janeiro é um mês em que as
pessoas determinam a si mesmas, o que passamos a chamar de “resoluções de
ano-novo”. São, costumeiramente, resoluções positivas e que representam um
desbaste adicional na inexorável e necessária lapidação de cada pessoa em
busca da sua plenitude humana. Meu cotidiano tem como foco de trabalho, o
ambiente empresarial. Nele, costumo ouvir resoluções diversas como: “vou me
tornar um colega melhor”, “Vou compartilhar meus conhecimentos”, “Vou
crescer profissionalmente”… São, com certeza, resoluções merecedoras de
elogios, mas, face ao retrato da realidade social do nosso país, optei por
cumprimentar, de modo especial, os que, a despeito de viverem intensa e quase
estressantemente o trabalho e suas pressões características, decidiram por
contribuir com o aperfeiçoamento do humanismo, exaltando os sentimentos de
fraternidade e solidariedade. Os elogios serão mais efusivos se esses
profissionais forem líderes em suas empresas, pois o humanismo tornar-se-á
consistente entre nós, se for uma atitude incorporada ao conjunto de competências
de liderança. Refiro-me a uma liderança que enfatize o valor intrínseco do
trabalhador, o seu potencial de desenvolvimento, sua singularidade e
originalidade bem como o respeito às diferenças entre as pessoas.

É uma tendência forte, o “stablishment” desta forma de exercer a liderança,
a qual considera a abertura à experiência como uma característica da
criatividade auto-realizadora e identifica a criatividade como saúde emocional
e expressão das pessoas normais no ato de se auto-realizar. Totalmente
humanista, trata-se de uma liderança que reputa a interação pessoa-ambiente
como fundamental para a criação; quero dizer com isso, que não basta apenas o
impulso em auto-realizar-se: “também as condições presentes na sociedade, a
qual deve possibilitar à pessoa liberdade de escolha e ação”, fazem parte
do processo criativo. Entretanto, o ritmo dessa tendência deve ser acelerado,
sob pena de uma demora maior na correção das injustiças sociais em nosso país.

É sabido que a estrutura econômica condiciona e determina preponderantemente
as relações sociais. Quando essa estrutura sofre mudanças profundas,
alteram-se as relações de produção, acumulam-se novos conhecimentos, surge
uma nova consciência social e a necessidade de transformações na
superestrutura da sociedade como um todo. A isso sucede a influência no
planejamento dos governantes escolhidos pelo povo, o mais interessado nas
melhorias sociais. A nova consciência social tem acelerado, cada vez mais, a
intensidade das conquistas atuais tendo o desenvolvimento tecnológico exigido
que as transformações das relações de produção e organização política
operem na mesma intensidade. Tal relação, porém, não ocorre, porque as reações
do comportamento social, historicamente, imprimem um movimento mais lento ao seu
próprio movimento. O ponto de maior preocupação, a meu ver, está no
aproveitamento deste fenômeno sociológico, por parte dos governantes,
diminuindo o investimento na produção industrial e atividades econômicas,
desperdiçando a capacidade instalada no país e retardando a conseqüência
positiva que o espetáculo do crescimento pode gerar para a massa necessitada.
Povo com fome busca, exclusivamente, sobreviver, não havendo, assim, um
ambiente propício para o aperfeiçoamento do humanismo pleno e ideal na
sociedade. Pelo contrário, estimula a selvageria da competição individual num
clima favorável à conservação do controle autoritário pelo uso do
assistencialismo enganador e anti-desenvolvimentista.

A mudança do Brasil deve começar dentro das empresas, a partir da ampliação
da consciência social e do aperfeiçoamento do humanismo que repercutirá no
cenário externo à empresa. Esta receberá, em contrapartida, melhores conseqüências
financeiras das relações de produção, de um público “interno” que
trabalhará com motivação, boa vontade e de forma consciente. Cria-se, assim,
um circulo de vantagens e resultados positivos para empresas, empregados e
sociedade. O líder tem a “faca e o queijo” nas mãos e poderá
responsabilizar-se por parte dessa mudança, promovendo, por exemplo,
conhecimentos cada vez mais abrangentes às suas equipes de trabalho ajudando-as
a ser mais competentes – basta imbuir-se de inspirações humanistas. O
conhecimento não é um mero reflexo das coisas: são representações mentais
que criamos para ordenar nosso entendimento e a capacidade de operar mudanças
no mundo real. Poderá, também, dar objetividade a esse conhecimento, além de
valorizar a experiência como fonte de conhecimento.

Qualquer pessoa cresce e se atualiza, apesar dos fatores sociais, econômicos e
familiares que podem interromper ou dificultar esse crescimento; mas a tendência
fundamental é em direção ao crescimento. Ser um líder humanista implica em
impedir que a força do crescimento que foi reprimido volte-se contra o próprio
ambiente, e mais do que isso, implica em aceitar a pedra fundamental do
humanismo, que é a crença na pessoa como um ser de positividade e de construção.
Certamente não corrigiremos todos os males sociais, mas com essa atitude, o líder
ajudará muito na solução dos problemas psicológicos e sociais. Ajudará o
funcionário a crescer em direção a uma personalidade mais normal, mais
expansiva, criativa e produtiva.

O sonho principal contido nessas poucas reflexões é que a liderança humanista
coloque, enfim, o governo em xeque, a partir do aumento da consciência social
nas empresas, forçando-o a adotar posições igualmente humanistas. Quanto mais
um governo acredita num ponto de vista humanista, possibilidades existirão de
promover um clima, no qual as pessoas possam crescer e trabalhar mais
harmoniosamente, e no qual haverá mais compreensão ou respostas às suas
necessidades. Que todos percebam que, para a resolução de ano-novo de 2007, já
temos a régua e o compasso; resta-nos adicionar uma atitude correta, a vontade
de servir, o compromisso com o desenvolvimento humano (social e economicamente
falando) para, assim, andarmos resolutos em direção da grande obra humana: a
sociedade justa, sustentada por valores corretos e consistentes, permeados de
fraternidade e solidariedade. Talvez, uma mera utopia, mas sempre uma direção.

* Paulo César T. Ribeiro é psicólogo, consultor de empresas, sócio-consultor
e palestrante da CONSENSOrh

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