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No Escurinho Do Cinema

Sabemos que o cinema só se tornou um evento possível por conta de uma falha do olho humano que não consegue captar o espaço existente entre cada um dos fotogramas (quadros) que compõem um filme. Isto faz com que o cérebro não receba as informações de que os movimentos que assistimos na tela são na verdade uma sucessão isolada de imagens passadas a uma velocidade de 24 quadros por segundo. Nos primórdios do cinema, essa velocidade era de 16 quadros por segundo.

Curiosamente, entretanto, apesar da falha do olho humano, o cinema é um fenômeno essencialmente visual, ele tem o poder de transportar as pessoas para dimensões emocionais tão distintas quanto: comoção ou repulsa, excitação ou medo e isso só para falar das emoções básicas. Roteiristas e cineastas sabem disso melhor do que ninguém e usam sofisticados recursos de som e imagem para conquistar o público através dessas emoções. Apelando para apenas dois dos cinco sentidos humanos, os filmes são capazes de acionar mecanismos psíquicos e biológicos de um modo que não se pode controlar. Quem já não assistiu a um filme de terror à noite, na segurança de sua casa e, mesmo assim, encarou portas e janelas com desconfiança ou ficou estático e no mais absoluto silêncio enquanto o mocinho (ou a heroína) vasculhava armários e gavetas na casa de um violento e frio assassino, enquanto este aparecia retornando para casa? As assustadoras sagas O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre), iniciada em 1974 e A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street), de 1983, assim como o The Exorcist (O Exorcista) vêm assustando gerações há anos enquanto que, mais recentemente, O Chamado (The Ring), de 2002, já criou sua legião de fãs pelo mundo afora. Quantos de nós não cobrimos os olhos nas cenas mais chocantes de terror ou de escatologia?

Por outro lado, por que sentimos aquele apertado nó na garganta nas contundentes cenas de superação, perda, solidariedade e abnegação? Ou por que chegamos às lágrimas nas tristes e dramáticas cenas que envolvem pais e filhos, crianças desamparadas, idosos em situações extremas de solidão, de vida ou de morte? Quem já assistiu O Óleo de Lorenzo (Lorenzo’s Oil), Lado a Lado (Stepmom) ou A Corrente do Bem (Pay it Forward) certamente experimentou sensações semelhantes.

E por que caímos na gargalhada nas comédias? Muitas delas nos fazem sair do cinema com a ‘alma lavada’ ou com o ‘fígado desopilado’. E quantas vezes voltamos ao cinema para assistir mais uma vez a história que nos cativou mesmo sabendo tudo o que vai acontecer. E por que, ainda assim, experimentamos os mesmos sentimentos ou sensações de antes?

Eis, portanto, a força que um filme exerce sobre nós. E se exerce tal poder, por que não ajudaria o ser humano a compreender um pouco melhor as situações da vida? Um filme nos permite antever o desenrolar e o desfecho de uma situação nos dando um farto material no qual pensar. Todos conhecem a célebre pergunta: ‘a arte imita a vida ou a vida imita arte?’ Vejam o caso de filmes como Filadélfia (Philadelphia) – drama de um advogado demitido ao ser descoberto como soropositivo: Este pequeno libelo contra a ignorância e o preconceito pode ter ajudado muitas pessoas com dramas parecidos; ou o contundente Golpe do Destino (The Doctor) – onde um respeitado cirurgião se vê diante de um nódulo maligno na garganta. Da noite para o dia ele passa de médico a paciente. Seus valores mudam. Sua atitude se humaniza. O médico cai em si: é tão humano e tem sentimentos iguais aos de todos os pacientes que passaram por suas mãos. A providência lhe ajuda e o mal é extirpado sem deixar seqüelas. Em seu retorno, o sentido da vida é outro. Agora, cada paciente é muito mais que apenas um prontuário. Se ainda não o foi, este filme deve ser exibido à exaustão em todos os estabelecimentos hospitalares.

Assim, tal como os homens do cinema descobriram no passado, os pedagogos, psicólogos e profissionais de recursos humanos também perceberam o poder dos filmes sobre as pessoas e estão aproveitando essa força como recurso de aprendizagem. Seja em escolas, universidades, seminários e empresas o cinema chegou para fazer história… . Com o advento dos videocassetes e sua popularização no início dos anos 80, surgiram as primeiras fitas no formato VHS destinadas à educação em geral. Entretanto, a maioria dos filmes produzidos para este fim se revelou um recurso didático maçante e improdutivo. O didatismo dos temas e a artificialidade dramática das produções era tanta que alunos professores torciam o nariz. Poucas produções dessa época conseguiram furar o cerco da mediocridade e se transformarem em material de real valor para a aprendizagem.

E foram essas inadequações que levaram mestres e pedagogos, psicólogos e agentes de recursos humanos a introduzirem os chamados filmes de circuito. Uma vez exibidos, a expectativa em sala era outra. Muitos alunos e executivos chegavam às salas de aula curiosos sobre o filme ou filmes que seriam exibidos durante o curso. Lembro de Spartacus (Idem) ser usado como ilustração sobre estilo de liderança ou liderança inspiradora. A célebre seqüência onde o personagem-título se declara o líder dos amotinados, sendo seguido por todos os seus discípulos fez história nos cursos de administração das universidades e nas salas de treinamento das empresas.

Num nível mais pessoal, questões como rótulo, preconceito, linguagem não verbal, aceitação das diferenças e formação de grupos puderam ser ilustradas pela impecável abertura do filme O Baile (Le Bal) do italiano Ettore Scola. Um belíssimo filme sem diálogos realizado em 1983. De lá para cá os filmes ganharam espaço entre educadores e aprendizes, além de qualidade e diversidade. Hoje praticamente todos os temas que afetam a vida humana estão retratados em filmes. Do septuagenário Tempos Modernos (Modern Times), de Charles Chaplin, obra de 1936, e sua famosa seqüência inicial mostrando o homem como mais uma peça da enorme máquina que é uma organização até o recente The Devil Wear Prada (O Diabo Veste Prada), de 2006, onde uma jovem se vê engolida pelos meandros da famosa Maison para a qual trabalha, essas produções podem traduzir em imagens, o que educadores gastariam um sem-número de palavras para explicar. Com estes dois filmes, é possível mostrar que as lideranças evoluíram muito pouco nestes últimos setenta anos. Este contraste pode ser bastante impactante se for apresentado antes de se iniciar um curso ou treinamento sobre liderança.

E as temáticas não param por aí: Desde aprender como se relacionar com seus alunos – assistam Ao Mestre com Carinho (To Sir, With Love), Dangerous Minds (Mentes Perigosas), Mudança de Hábito 2 (Sister Act 2: Back in the Habit), Clube do Imperador (The Emperor’s Club), O Espelho tem duas Faces (The Mirror has a Two Faces) ou Um Novo Homem (Renaissance Man) – até temas como Inveja – retratada em filmes como A Malvada (All About Eve), antigo melodrama em branco e preto sobre uma atriz novata que rouba, gradativamente, a carreira, os amigos e o prestígio de uma veterana, O Talentoso Ripley (The Telented Ripley) e nas inofensivas animações Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs) ou Rei Leão (Lyon King) -, Ética, assunto sempre em baixa no Brasil, muito bem abordada em produções como O Advogado do Diabo (The Devil’s Advocate)¬ – advogado que, iludido pelos ganhos pessoais que sua profissão pode lhe trazer, degenera sua família e a si próprio, A Árvore dos Sonhos (The War), a luta de um ex-combatente de guerra para manter seus valores de paz e harmonia diante de uma sociedade hostil e violenta, Perfume de Mulher (Scent of a Woman), reflexivo drama onde um militar põe em cheque uma honrada instituição de ensino, Com Mérito (With Honors), comédia em que um mendigo questiona os valores éticos de uma sociedade ou, ainda, em O Mentiroso (Liar, Liar), a hilária história de um advogado impossibilitado de mentir por vinte e quatro horas, e passando por indivíduo e sociedade, através de filmes como FormiguinhaZ (Ant Z) e Vida de Inseto (A Bug’s Life) ou por trabalho em equipe com o sofisticado A Fuga das Galinhas (Chiken Run), o cardápio de produções é extenso e prodigioso.

Não imaginamos a quantidade de assuntos que podemos abordar usando tal recurso. Mas há um aspecto fundamental diretamente ligado a essa técnica e que diz respeito ao educador: sua habilidade na administração do recurso sob o risco de deitar fora todo o potencial da obra e todas as possibilidades de aprendizagem do aluno. O fato é que para usar esse material os profissionais da educação precisam estar preparados. Não basta exibir o filme. É preciso contextualizá-lo para a turma, ajudar os aprendizes a extraírem exatamente o necessário para que a aprendizagem aconteça. Antes disso, uma etapa anterior é conhecer o filme. Assisti-lo muitas vezes até dominar seu potencial narrativo. É preciso, também, habilidade (e paciência) para extrair dos alunos suas percepções sobre a temática da obra (ou trecho) que acabaram de assistir.

Se o filme emociona ou diverte, compete ao educador usar esse sentimento do grupo para reforçar ou estimular a reflexão sobre os aspectos positivos do tema apresentado. Maestria e agudo senso de percepção são instrumentos importantíssimos para o educador. O quanto se pode levar para além das imagens vistas as conjecturas e inferências? A maestria está na capacidade do coordenador de usar a metodologia da melhor forma possível observando o momento mais adequado do curso para exibir o filme, na habilidade de falar sobre a história resguardando o fator surpresa para aqueles que não conhecem a obra, em criar condições que favoreçam a aprendizagem a partir do que foi visto e, sobretudo, na competência de explorar o material de modo a extrair sua essência conjugando-a com a vida ou realidade dos alunos. Já o agudo senso de percepção se refere à sensibilidade do coordenador de estimular, fomentar e acompanhar os depoimentos direcionando-os para que o objetivo da aprendizagem seja alcançado.

Mas para dominar essa técnica com segurança é preciso, além de gostar de cinema, conhecer o universo mágico da dramaturgia. Conhecer a Teoria dos Papéis, saber que para cada papel (personagem ou protagonista na linguagem dramatúrgica) há o correspondente contra papel (ou antagonista). Entender a função de alguns coadjuvantes (muitos deles tão importantes ou mais do que os próprios heróis das histórias). No filme O Poder Além da Vida (Peaceful Warrior), sensível drama sobre um jovem atleta que tem sua carreira interrompida depois de sofrer um grave acidente, o coadjuvante ‘Sócrates’ tem a função de personificar (dando imagem e voz) a consciência do protagonista. E essa função termina no momento em que o rapaz recupera sua autoconfiança e decide voltar aos treinos. Tanto que o personagem ‘Sócrates’ desaparece misteriosamente.

Em outro filme, Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind), a presença física de três coadjuvantes (dois homens – um sempre suplicante, o outro sempre autoritário – e uma menina) é muito mais importante para a narrativa do que propriamente seus diálogos. Eles representam os arquétipos que fomentam a esquizofrenia do protagonista principal da história. Aliás, esse filme, junto com outros, vem sendo bastante usado nos cursos de psicanálise e/ou psicologia, dada a sua interessante abordagem para o assunto. A história, baseada num fato verídico, pode vir a ser a luz e a alternativa para muitas pessoas que padecem desse mal ou convivem com pessoas portadoras desse distúrbio.

Além dos personagens, outro elemento constitui parte integrante da narrativa: a alegoria. Voltando ao filme Uma Mente Brilhante, a casa abandonada onde o perturbado protagonista desenvolve seus trabalhos secretos como espião, na verdade representa os subterrâneos de sua mente doentia. Isto fica claro quando a esposa vai até a casa e ao abri-la se dá conta, horrorizada, que o marido precisa de ajuda. É como se ela tivesse tido a oportunidade de penetrar na realidade insólita vivida por seu marido. No filme O Show de Truman – O Show da Vida (The Truman Show) quando o personagem de Jim Carrey, já no final da trama, fura o cenário com a popa de seu barco, está rompendo, na verdade, o útero materno e saindo para a vida real. A comédia O Feitiço do Tempo (Grundhog Day) – em que um jornalista egocêntrico além de ficar preso numa cidade do interior por conta de uma forte nevasca, torna-se, também, prisioneiro do tempo acordando todos os dias no mesmo dia. Como só ele sabe o que está acontecendo, tem a rara oportunidade de experimentar atitudes diferentes para as mesmas situações que enfrenta até descobrir que a melhor coisa a fazer é aquela que também se considera os interesses do outro. O tempo volta a fluir somente depois que ele cai em si e reformula seu modo de viver.

O educador precisa, portanto, estar atento a esses detalhes para que possa explorá-lo junto aos grupos que estiverem coordenando. Essas interferências são muito positivas para que cada um se identifique com um ponto da história e possa externar seus sentimentos e conclusões sobre o que viu e até, quem sabe, sobre si mesmo. Mas precisamos ter alguns cuidados. Como o universo de possibilidades temáticas abertas pelos filmes é muito amplo, cada educador deve fechar o escopo de seu trabalho sobre aquilo que sabe e conhece com profundidade e aporte teórico e deixar isso claro para seus alunos. O risco de se enveredar por temáticas que não se domina conceitualmente é introduzir conteúdos equivocados e sem respaldo teórico, além de fugir do foco para o qual o filme foi escolhido.

Os filmes Maré Vermelha (Crimson Tide) e Duelo de Titãs (Remember theTitans), por exemplo, mostram o conflito entre dois estilos distintos de liderança e o impacto desses estilos sobre a equipe, Coach Carter – Treino para a Vida (Coach Carter), em que a determinação de um treinador transforma a visão de mundo de um grupo de jovens jogadores e os amenos Jamaica Abaixo de Zero (Cool Runnings) e Forrest Gum, O Contador de Histórias (Forrest Gump) nos falam da capacidade humana de superar obstáculos. Teoricamente essas produções encerram seu conteúdo sobre os temas elencados acima. Mas pode ocorrer um desvio temático: Em Maré Vermelha a discussão pode recair sobre direitos e deveres (os dois tomaram atitudes corretas e de acordo com os pressupostos da Marinha Norte-Americana) conforme fica esclarecido no final da fita; em Duelo de Titãs o racismo – que é muito evidenciado na trama – pode ser o foco trazido pela turma. Se não for esse o objetivo da apresentação do filme, compete ao educador retomar o objetivo original e dar continuidade à discussão; Coach Carter – Treino para a Vida pode se desdobrar em questões sociais e falta de apoio do Estado aos carentes ou como em Jamaica Abaixo de Zero pode gerar frustração uma vez que o grupo perde a prova oficial. Em Forrest Gump – O Contador de Histórias o retardamento mental do personagem principal pode ser a primeira discussão do grupo sobre o filme. Mas a fita não é só isso. Ela fala, além da superação, de valores puros que um homem conservou durante toda a sua vida.

Outro dado importante a ser lembrado é a escolha do filme e que cenas/seqüências deverão ser mostradas. Explico: Como não sabemos para quem estaremos exibindo a fita, devemos tomar cuidado com o material que mostramos. Cenas de sexo, de escatologia, de violência extrema ou até mesmo de deficiência física ou mental, assim como doenças crônicas, incuráveis ou terminais devem ser evitadas. Afinal, podemos ter participantes, por exemplo, cuja religião é contra cenas libidinosas ou sensuais, pessoas cuja rígida formação moral as impede de assistir a determinadas imagens que possam agredi-la. E se as situações acima ainda não forem suficientes, sugiro que o bom-senso deve pesar bastante na hora da seleção. Afinal, não há situação mais constrangedora numa sala de aula do que pessoas pouco íntimas entre si, serem obrigadas a assistirem tais filmes ou cenas.

Ainda na linha do bom-senso, é sempre eficaz avaliar se vale a pena exibir a fita na íntegra ou apenas trechos dela. No filme O Espelho tem duas Faces, as cenas que mostram a diferença de estilo entre dois professores estão espalhadas ao longo da narrativa. O melhor a fazer, neste caso, é programar o DVD player para exibir somente as cenas que interessam ao tema da aula. Assim como em Pretty Woman (Uma Linda Mulher), cujas duas únicas seqüências que mostram bem a questão do atendimento estão perdidas no meio da narrativa e também devem ser pinçadas e mostradas. Todo o resto da história não acrescenta nada ao assunto atendimento. Já Duelo de Titãs ou Encontrando Forrester, com os quais se pode trabalhar temas como coaching ou liderança, são filmes cujo aproveitamento é melhor se forem exibidos integralmente.

Os filmes, portanto, podem se constituir em excelentes materiais didáticos desde que usados com sabedoria e critério.

Fonte: http://www.webartigos.com/articles/2302/1/Cinema-E-Treinamento/pagina1.html#ixzz0rEsRAKNM

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