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O ano do desbalanço

*Nilson Pereira 

O início de um novo ano é sempre convidativo a reflexões, tanto no aspecto pessoal quanto no profissional. É um momento reservado para fazer uma retrospectiva, que vai desde as conquistas até aquilo que eventualmente não saiu como havíamos pensado. Mas se, por um lado, essa revisão é esperada, a análise sobre 2020 está sendo muito diferente do que estávamos habituados. 

Em um ano tão atípico, marcado por uma pandemia, recessão econômica e forte alta do desemprego, tudo se transformou. A Covid-19 veio para mostrar como somos frágeis, como não temos controle das coisas e que, da noite para o dia, tudo pode mudar. Como é possível, então, fazer um balanço do ano, quando vivemos tantos desbalanços? 

Nova call to action

Neste momento desafiador que estamos atravessando, tudo se tornou mais incerto e urgente e cabe ao líder o papel de ser o condutor de todas essas transformações. Foi preciso parar, respirar fundo e lidar com a necessidade de tomar decisões imediatas, mas não definitivas – tendo em mente que a realidade do dia seguinte poderia ser completamente diferente do que se vivia no momento da decisão.  

Foi preciso mudar a nossa mentalidade. Em um dia, estávamos definindo os detalhes e a logística da agenda do nosso CEO global que viria ao Brasil participar de um Congresso Internacional. Uma semana depois, em um cenário totalmente diferente, estávamos reunindo nossos gestores para a primeira de muitas reuniões virtuais, visando definir as diretrizes da mudança de nossa rotina. Era o primeiro passo para a implantação do home office e da liderança digital. Em apenas três dias, com muita união, determinação e resiliência, todos os colaboradores da empresa tinham a estrutura necessária para desempenhar suas atividades em suas casas e com segurança.    

Toda essa situação fez com que o gestor, que normalmente já tem um olhar mais estratégico, se tornasse, obrigatoriamente, mais humano. E que também fizesse o exercício de avaliar e entender melhor cada situação sob prismas muito diferentes. Foi necessário trabalhar a ansiedade e ter a sensibilidade de entender todo o cenário que estávamos vivendo e definir o que realmente é urgente e prioritário, para o bem dos colaboradores e da empresa.  

Com tudo isso, a relação entre líderes e liderados mudou. Hoje, em meio à correria do dia a dia, a preocupação com o futuro e com a doença, as pessoas querem um líder disposto a ouvir e desabafar, sendo ele o CEO ou não. Talvez esses sejam os momentos que, na rotina corporativa, façam a real diferença.   

E, apesar dos enormes desafios, a confiança dos líderes em suas equipes fez com que o trabalho fluísse da melhor maneira possível. Essa relação se constrói no longo prazo. Sempre procurei manter um estilo de liderança em que busco o desenvolvimento das pessoas, proporcionando confiança e segurança no potencial de cada um. Este olhar mais cuidadoso para o colaborador é essencial para a manutenção do bem-estar e produtividade de todos – um dos grandes aprendizados que a pandemia proporcionou. 

Também aprendemos a pensar no curto prazo. O futuro é agora. As lideranças devem entender as limitações impostas e traçar ações tangíveis para o período. O isolamento social fez com que trabalhadores ao redor do mundo se readequassem à nova realidade, até então, desconhecida e inimaginável para muitos. Vimos setores da economia se reinventando para manter a sustentabilidade de seus negócios, mas também observamos segmentos batalhando pela sobrevivência, enquanto profissionais passaram a rever suas carreiras. 

Apesar de todo o ônus que a crise sanitária trouxe para o mundo, tivemos também aprendizados e lições que servirão para sempre. Paradigmas foram quebrados. O home office foi implementado e mostrou-se extremamente eficaz. A tecnologia se fez mais presente e essencial para auxiliar as ações humanas e o ambiente corporativo ficou mais democrático e favorável para que profissionais aprimorassem talentos e se destacassem em diversas frentes. 

Ao encerrar um ano tão inconstante como 2020, nos restaram muitas dúvidas e questionamentos e apenas uma certeza – nada será como antes. Mas, seguiremos buscando manter o que tem sido feito de melhor. Se hoje precisamos pensar aqui e agora, toda a minha energia seguirá voltada para questões que demandam o apoio à equipe, para falar daquilo que é imediato e para contribuir ainda mais com um ecossistema corporativo saudável – em contraste com os problemas e preocupações que temos fora dele. O ano de 2021 já começou, e precisaremos muito dos aprendizados de 2020 para enfrentar os desafios. 

*Nilson Pereira, CEO do ManpowerGroup 

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