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O Ócio Criativo

O ócio criativo, também conhecido como ócio produtivo, nada mais é do que uma nova maneira de definir o trabalho.
O sociólogo italiano Domenico De Masi é o inventor deste termo e lançou uma reflexão acerca da maneira como relacionamos três aspectos fundamentais da existência humana: o trabalho, o conhecimento e o lazer.
Durante um longo período de sua vida, de Masi foi considerado um workaholic, dedicando-se extremamente ao trabalho e esquecendo-se da família, amigos, de eventos sociais e outros aspectos que não estivessem envolvidos em sua esfera profissional. Quando descobriu o ócio, De Masi otimizou suas condições de trabalho e reduziu seus compromissos de negócios.
O tempo, escasso para muitos neste mundo globalizado, necessita ser mais bem aproveitado a fim de gerar valor para organizações e indivíduos, e valor hoje, não está somente em terras e no dinheiro, mas também na capacidade de inovação, de geração de conhecimento. Aproveitar melhor o tempo significa priorizar e oferecer significado a atividades relacionadas ao trabalho, que gera riquezas, ao estudo, que gera conhecimentos e ao tempo livre, que gera bem-estar. Oferecer significado é encontrar um propósito maior para motivar nossas atitudes frente aos desafios: Por que eu trabalho, estudo e devo me divertir? Qual é meu objetivo de vida?
Através destas respostas saberemos guiar nossa função no trabalho, relacionando-a aos nossos estudos e ao lazer, diminuindo o peso que a obrigatoriedade do trabalho traz, pois ele estará interligado com outros fatores necessários para que a vida pessoal e profissional permaneçam em equilíbrio. Este equilíbrio é fator gerador da motivação e da criatividade.
Nada mais natural que modificar o conceito de trabalho diante das intensas e constantes mudanças vivenciadas, que transformaram o cérebro humano na grande matéria-prima da era pós-industrial e o conhecimento em poderosa fonte de vantagem competitiva.
Os trabalhos braçais, que exigiam muito do corpo e pouco da mente, foram deixados para as máquinas, e, segundo De Masi, “o coração desta sociedade é a informação, o tempo livre e a criatividade”. “Quando a maioria das tarefas consistia em gestos físicos e repetitivos, existia uma relação estreita entre a quantidade de tempo na linha de montagem e a produção. Ou seja, o ócio era, efetivamente, contrário à produtividade. No entanto, hoje, quando a maioria das atividades é intelectual, a organização capitalista deve entender que as novas idéias necessitam de reflexão, estudo e serenidade”.
A nova atitude defendida pelo sociólogo traz uma série de benefícios às organizações e aos colaboradores. Reduzir jornadas de trabalho, adotar horários flexíveis e aumentar o tempo disponível para escolhas individuais, significa mesclar e confundir o trabalho com o lazer e o estudo. As pessoas não teriam mais uma divisão tão rígida do tempo em que estão trabalhando, investindo em si ou descansando.
Além disso, De Masi destacou a necessidade da diminuição das jornadas de trabalho como solução para o aumento do desemprego causado pelo desenvolvimento da tecnologia: “A tecnologia nos permite a cada dia trabalharmos menos e produzirmos mais. Para reverter o desemprego, a solução é reduzir drasticamente a carga horária de modo que todos trabalhem um pouco”.
É importante ressaltar que o ócio criativo é completamente diferente do ócio relacionado à preguiça, ele está sim relacionado com a produção de ideias. Através da disciplina, conseguimos transformar a leitura de um livro, os momentos navegando na internet, a saída com os amigos, uma ida ao shopping, ao cinema, ou mesmo algumas horas deitado em uma rede em rica bagagem de conhecimentos gerais que quando menos se espera, fazem surgir soluções ou ideias inovadoras.
A cultura empresarial está mudando a passos muito lentos, e as organizações continuam a se organizar como em uma linha de montagem, na qual a produção é resultado direto do número de horas trabalhadas.
Enquanto os trabalhadores ainda têm de se submeter a extensas jornadas de trabalho, a Educação Corporativa pode atuar como um agente provocador de mudanças, cultivando nos colaboradores o significado do ócio criativo, como este conceito é importante e como deve ser praticado na tentativa de minimizar as fortes pressões do cotidiano e causar uma mudança de atitudes.
A mudança no comportamento das pessoas, atrelada às estratégias do negócio, é o grande objetivo da Educação Corporativa, que precisa oferecer ferramentas e mostrar os caminhos possíveis para a prática do ócio criativo, pois o crescimento de seus colaboradores e de sua organização dependem da adoção de posturas adequadas ao mundo competitivo em que vivemos. Assim, faz se necessário desenvolver no indivíduo a capacidade de aprender a aprender, mostrando-o como e onde buscar seu conhecimento, e principalmente, desenvolvendo habilidades para que este possa que refletir sobre aquilo que está vivenciando, lendo ou ouvindo.
A falta de tempo tornou-se uma grande desculpa para evitar reflexões, e são das reflexões que surgem as grandes soluções ou ideias.
Peter Senge, em seu livro “A Quinta Disciplina”, cita um fato curioso sobre a importância da reflexão como parte das atividades rotineiras. Segundo o autor, nas empresas japonesas, quando uma pessoa está em silêncio em sua mesa parecendo não fazer nada, os colegas não interrompem, pois um trabalho muito importante está em curso: o pensamento. Diferentemente do que ocorre nas empresas ocidentais, nas quais a cultura enraizada demonstra que quando alguém está tentando desenvolver seu raciocínio, quieto, sentado em sua mesa, não está fazendo nada, portanto, é o momento em que ocorrem a maior parte das interrupções.
Esta pausa para reflexão deve ocorrer não só no trabalho, mas em diversos momentos, e o ideal é desenvolver uma postura questionadora, indagar sobre aquilo que está sendo feito, sendo lido, sendo visto, enfim.
Henry Ford sabiamente alertou que “pensar é o trabalho mais duro que existe, provável razão pela qual tão poucos nele se empenham”. As organizações que estimularem seus colaboradores a pensar, e os indivíduos que desenvolverem esta postura, certamente terão seu lugar de destaque na Era do Conhecimento.
Não existe uma fórmula exata para conseguir praticar e se beneficiar do ócio produtivo, pois cada pessoa encontrará o seu caminho de acordo com a cultura da empresa em que trabalha, o tipo de atividade que exerce, sua jornada diária de trabalho, o tempo disponível para outras atividades, sua estrutura familiar, e uma série de outros fatores. No entanto, alguns aspectos devem ser cultivados independentemente da situação vivenciada:

1)Procure atividades fora de seu trabalho, sejam elas de lazer ou aprendizagem, como praticar esportes, frequentar clubes, cursos de idiomas, de especialização, etc. O Conhecimento adquirido ficará guardado e quando menos se espera ele é utilizado;
2)Amplie sua rede de contatos. Um bom relacionamento com as pessoas pode trazer além de uma rica troca de informações, novas oportunidades profissionais. Isso pode ser feito pela internet, através das redes sociais, onde existem milhares de comunidades que conectam pessoas com interesses semelhantes;
3)Esteja sempre informado, leia revistas, jornais, busque informações na internet sobre os mais variados assuntos, pois além de ampliar a visão sistêmica, ou seja, a capacidade de compreender o todo, oferecem insights valiosos em situações inesperadas;
4)Concentre-se na atividade que estiver realizando, seja no trabalho, no estudo ou no lazer. Distrações podem levar a pensamentos não produtivos e atrapalham o aproveitamento de detalhes que fazem a diferença.

Assim como o sucesso ou o fracasso das organizações são o reflexo do comportamento de seus colaboradores, o sucesso ou fracasso individual é reflexo de suas escolhas e atitudes.

Mariana de Oliveira Fernandes
Consultora em Educação Corporativa
www.organizacoesqueaprendem.blogspot.com

Por: Mariana De

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