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O Discurso Da “tia” Do Café Na Cerimônia De Despedida De Um Diretor De Rh

Visitando um amigo, profissional de RH com 35 anos de carreira que, contrariando a regra geral, não optou pela carreira em consultoria, preferindo montar uma rede de pequenas lavanderias, a “equipe” do RH POSITIVO teve a oportunidade de assistir a um vídeo, que registrava as imagens da cerimônia de despedida do profissional, na última empresa a que esteve vinculado. Com a autorização do amigo, foi feita a transcrição das palavras da “tia” do café, uma pessoa cativante, escolhida pela empresa para ser a porta-voz dos sentimentos de todos. Como parece ser a regra geral, a D. Zilda era uma pessoa afável, comunicativa, sempre paciente no eterno fazer e servir café, o qual era “adoçado” por seu sorriso resplandecente, amplo, daqueles que não se sabe o porquê, mas parece ser privilégio da mulher negra. Enfim, uma mulher linda, na medida em que este adjetivo consiga conter a D. Zilda! Eis a transcrição, sem retoques, embora com um ou outro deslize gramatical, porém sem a menor importancia, porque foi uma expressão pela linguagem do coração, sem sempre submissa às exigências do vernáculo! “Dotô! Olha! Não sei porque a turma fez essa falseta comigo, porque tenho estudo pouco, mas se é coisa dos hômi, quem sou sou eu para dizer não! A dona Juliana me ajudou a escrever um discurso, mas o diabo que nem sei ler esse negócio direito e estou tremendo mais que vara verde e o senhor dotô se não gostar, reclama com eles, né? Olha! Eu vou falar pela minha boca e não gosto desse negócio de discurso! Eu gosto é do senhor, isso sim! A gente todos gosta muito do senhor e vai sentir um aperto no coração! Porque o senhor não fica mais? Está tão moço e vai ficar em casa fazendo o que e nóis aqui na saudade! Todo dia, o senhor passava lá na copa e conversava comigo, brincando que o meu café era que não deixava o senhor parar de fumar, mas não é culpa minha não senhor, é sem-vergonhice mesmo…porcaria de cigarro! E o pessoal sempre falava que o senhor era gente boa, que dava gosto conversar com o senhor, porque o senhor sempre conversava com todo mundo, até com os peão da fábrica e era uma coisa muito legal, porque o senhor sempre conversava com a gente! Uma vez perguntei o que fazia o departamento do Recursos Humanos e o povo falou muito e entendi pouco, mas falaram que cuidava das pessoas da firma e se cuidava das pessoas da firma era porque o senhor tratava bem das pessoas e a gente quer agradecer porque o senhor vai deixar saudade e aperto no coração porque é gente boa, de bom coração e vai fazer falta! Fica com a gente, dotô! A gente todos vai sentir falta de alguém para ouvir as mazelas de todo dia, essas coisas que complicam a gente e que o senhor sempre fazia força para ajudar a gente! Agora não dá mais essa falseta de discurso, porque está me dando choradeira e a gente gosta do senhor! Se não vai ficar com a gente fica com Deus e que Nossa Senhora lá do alto proteja o senhor e nós vamos ver como é que ficamos sem o senhor aqui e tudo o mais! Vê se não esquece da gente e volta sempre para tomar café e conversar…não dá mais!” As cenas seguintes mostravam a emoção geral, a mesma que a “equipe” do RH POSITIVO experimentou ao vê-las e ao discurso da dona Zilda. O amigo comandou rebobinar o vídeo e, virando-se para a “equipe”, disse com a voz embargada: “Valeu a pena, né?” O que responder, a não ser o óbvio? 

Benedito Milioni,
54 anos, é graduado em Sociologia e Administração de Empresas e, por vocação e escolha, um especialista em educação empresarial. Sua carreira começou em março de 1970, como instrutor substituto de programas de treinamento de pessoal de supervisão industrial.

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