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O Funcionário, o Colaborador e o Associado.

Já faz um tempo que recebi um e-mail – daqueles que circulam pela net – encaminhado por um amigo. O texto narrava um fato ocorrido em uma fábrica de creme dental e era mais ou menos assim: um dos diretores da empresa recebeu uma reclamação que estavam sendo embaladas caixas de creme dental vazias para os clientes que, com toda razão, não estavam nada satisfeitos. Para resolver o problema o executivo encomendou um estudo que apontasse uma saída para o problema, o mais rápido possível. O responsável pelo setor sugeriu então a compra de uma máquina que identificasse as caixas vazias e as retirasse da linha de produção, o que foi feito. Importaram uma máquina com sensores moderníssimos que identificava as caixas vazias e as retirava, imediatamente, da esteira.
As vendas começaram a aumentar e para dar conta da demanda era preciso outra máquina nos mesmos moldes, mas, como o valor era muito alto e a empresa, apesar do aumento nas vendas, não poderia dispor de mais aquele investimento. Ficaram então discutindo, no chão de fábrica mesmo, bem junto à linha de produção, o executivo e o chefe daquele setor sobre o assunto. Foi quando um dos funcionários da produção, observando a situação, aproximou-se e pediu para dar uma sugestão. O operário disse então: não precisa comprar maquina nenhuma não é só colocar um ventilador bem próximo à esteira que a força do vento vai retirar as caixas vazias para fora e elas não serão embaladas. A idéia foi acatada imediatamente e a empresa economizou uma quantia bastante significativa.
Convenhamos, trata-se de uma sugestão, até certo ponto, simplória. Mas, que funcionou muito bem. O que esta pequena, porém, verdadeira história nos faz pensar? Muito simples: as empresas ainda estão muito desatentas para identificar o conhecimento que possuem nos seus próprios quadros. Como aquela grande empresa, muitas outras, independente do seu porte ou atividade, desprezam o que é denominado Inteligência Organizacional, que podemos definir aqui como os saberes que a própria organização possui através dos seus colaboradores.
O que é engraçado é que, em algumas ocasiões, se paga caro para um consultor sugerir que se faça que muitos já sabiam que deveria ser feito. Bem, aqui cabe uma pergunta: Se sabem o que deve ser feito, porque não fazem? A resposta é tão simples quanto a pergunta: As pessoas precisam de estímulo, e mais que isto, de reconhecimento: o que adianta fazer algo importante para a empresa, sem que se seja reconhecido pelo que se fez? É possível que isto possa acontecer uma, duas vezes, talvez três, mas sempre?! As pessoas cansam de fazer as coisas sem ser valorizadas por isto. E, a valorização que me refiro, na maioria das vezes, passa longe do bolso do patrão. O que para muitos gestores já seria um grande alívio.
Um elogio numa reunião, uma carta de agradecimento, um dia de folga e muitas outras possibilidades de se demonstrar que a empresa é grata a aquele colaborador, que fez além do que deveria.
Mas o que percebemos é que algumas empresas só realizam reuniões quando alguma coisa está errada. As chamadas reuniões para resolução de problemas. Nestes encontros invariavelmente o clima é tenso, cheio de especulações e dúvidas e, o que mais o colaborador que, é não ter o nome citado pelos gestores. Não é difícil compreender o porquê de estes momentos serem profundamente indesejáveis.
O que corresponde ao contrário de uma reunião que tenha como objetivo o reconhecimento do mérito de um colaborador. Pois neste caso a descontração marca o clima, a alegria está presente no rosto das pessoas e o que o colaborador mais deseja é ouvir o seu nome pronunciado pela chefia. São momentos, às vezes, memoráveis para o colaborador.
Mas, infelizmente, muitas organizações ainda tem como lema aquele velho ditado: “Se fez, não fez mais que obrigação”. “Você é pago e muito bem pago para fazer isto mesmo”.
Claro que ninguém contrataria um colaborador para que ele cometesse erros e colecionasse prejuízos para a empresa, o objetivo dele é realmente dar lucro para a organização. Mas, o reconhecimento da chefia, da diretoria poderia potencializar, em muito, a capacidade produtiva deste trabalhador.
Observe bem: quando uma pessoa é contratada ela normalmente é um FUNCIONÁRIO. Ela funciona. Tem uma função e desempenha ela e pronto. Como exemplo poderíamos citar o vendedor que vê uma vassoura caída no chão da loja e não a pega, pois esta não é a sua função, mas sim vender.
À medida que ele se identifica com os objetivos da organização e se engaja neles, se torna um COLABORADOR, neste estágio ele não se restringe apenas ao que se espera dele, mas, envereda-se por outros caminhos que não o da mesmice, ele sai um pouco da multidão e começa a contribuir, a colaborar para o crescimento da organização. Como exemplo: o mesmo vendedor que ao ver a vassoura caída no chão se abaixa e a levanta.
Mas, algo realmente extraordinário acontece quando ele definitivamente se torna parte da empresa e começa a viver como se esta pertencesse a ele mesmo. Neste ponto já não se deve mais chamá-lo de funcionário, ou colaborador, mas de ASSOCIADO, pois ele tornou-se sócio da empresa. Não de direito, pois jamais perceberá os lucros oriundos desta sociedade, mas, de fato. Como exemplo: o mesmo vendedor que ao ver a vassoura caída no chão a pega e a leva para o seu lugar. Notamos que esta pessoa conhece a empresa, sabe onde a vassoura deve ficar e, principalmente, tem perfeita noção de que o lugar dele não pode ser no salão da loja, junto às mercadorias.
Podemos fazer outra pergunta aqui: se ele não perceberá retorno financeiro porque fazer isto? A resposta é tão obvia quanto à pergunta: o mercado está ávido por profissionais que tenham este perfil. Para ele não faltará emprego e certamente o seu vencimento não será o mesmo que um simples funcionário.
Fica fácil perceber que um associado é bem melhor que um colaborador, e, muito melhor que um funcionário, mas não podemos nos enganar: um associado é uma fabricação da própria organização, não se importa ou contrata. Uma pessoa que se identifique com os ideais da organização só pode ser produzida por ela mesma e convenhamos, não é nada fácil. Poderíamos citar inúmeros motivos, que justificassem esta dificuldade, mas prefiro deixar um argumento que estimule justamente o contrário: numa época em que tudo se torna commodities, inegavelmente, o único diferencial possível e perceptível está e estará sempre nas pessoas.
www.cicerogomes.com.br

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