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O ÔNIBUS MARMITEIRO DOS TRABALHADORES DE SANTA LUZIA

CRÔNICA: O ÔNIBUS MARMITEIRO DOS TRABALHADORES DE SANTA LUZIA

O ÔNIBUS MARMITEIRO

Antônio de Pádua Galvão (*)

Estamos na véspera do Natal e na aurora de um novo ano. Nesta época inspira em muitos de nós o sentimento de fraternidade e o advento da paz. Flui em cada um de nós boas recordações da infância e tempos memoráveis de nossa vida.
E estando na cidade de Santa Luzia, esta comunidade de gente boa, que carrego comigo como uma pérola da convivência. Estando por lá numa roda de amigos escutei uma história que me deixou curioso e comovido.
Afinal, são nos bares dos amigos ou os amigos dos bares que soltam estas boas lembranças e estes lampejos de história.
Neste círculo de companheiros, lembrou o nosso estimado Márcio, mais conhecido por Gaiola. Que houve um tempo que a solidariedade e o companheirismo atravessaram a cidade de Santa Luzia e desembarcavam na Praça da Estação em Belo Horizonte.
A História é tão comovente que não poderia escapar do registro deste singelo cronista. Se assim posso me referir a esta escrita.
Este texto trás a referência da chamada História das Mentalidades. É o desenho de uma época que repousa nos anônimos e simples. Mas que constitui os valores do passado. O traço de uma época.
Conta o Dono da Gaiola, que nos idos dos anos 70 e 80 os trabalhadores de Santa Luzia iam diariamente para ganhar seu sustento, o pão de cada dia com o suor do seu trabalho. indo labutar na cidade de Belo Horizonte. Pois ainda não havia um mercado de trabalho que pudessem absorvê-los.
Nesta época os trabalhadores dos Diários Associados, Correio, COAB, comércio, operários, prestador de serviços, contínuos e outros nobres ofícios alimentavam nas marmitas, que era o costume da época. Não havia esta facilidade de acesso e preços de hoje, com restaurantes populares ou alimentação a preços módicos, tendo em vista que os salários sempre foram muito reduzidos. Esta geração sofreu muito para melhorar as condições de trabalho e de vida. A classe operária lutou muito para buscar sua independência e cuidar com dignidade de suas famílias.
São muitas as famílias com seus trabalhadores, que passaram por esta jornada. Podemos lembrar a partir dos que vivenciaram esta epopéia: Gaiola, Tarcísio, Talardo, Cabé, Amaury, Ronaldo de Gê, Niltinho de Levy, Toninho de Antônio Nonato, Tinho de Carmelita, Cueca, Zezé de Galileu, Murilo Pinto, Edison, Pedro Paulo, José Santana, e muitos outros.
Para os mais novos e jovens, explico: A MARMITA ou a QUENTINHA que era aquecida a banho maria em fogões improvisados, é uma vasilha em que se leva a refeição individual para o local de trabalho, estudo e outros. Ou um conjunto de vasilhas adaptadas a um suporte, e que serve para o transporte de comida; Panela de metal, com tampa; Vaso de folha-de-flandres, em que os soldados comem o rancho.
Recordo do tempo do trem de ferro, meu pai – Plinio Galvão da Costa França – ferroviário, transportador de carga e afeto pela linhas férreas das Minas Gerais e Serra da Mantiqueira. Viajávamos muitas vezes levando sempre nossa refeição em EMBORNAL, MATULA, LANCHEIRA OU MARMITA.
Nos idos do tempo da contracultura e anos de chumbo o costume e a necessidade impunha uma lógica de sobrevivência, mas um gesto diário de carinho.
As mães, esposas, filhas ou familiar preparavam com muito capricho e carinho: arroz, feijão, ovo, alface, tomate e nas raras oportunidades um pedaço gostoso de bife, frango ou carne moída. Olha que comer carne era um luxo para os filhos dos operários.
Agora o essencial é que existe uma lembrança em muitos luzienses, ÔNIBUS DOS MARMITEIROS, e não pode apagar no tempo. Pois este tempo de sacrifício revela como a solidariedade e o companheirismo funda este costume desta comunidade.
Imaginem esta cena, o motorista de ônibus, vai passando de casa em casa para apanhar as marmitas ainda quentinhas, feito com afeto e carinho, amarrada em pano branco, para viajar até a Praça da Estação em Belo Horizonte, e aplacar a fome dos trabalhadores.
Após a labuta da manhã, que iniciava na madrugada, para acordar e tomar café lá pelas 04h30min. A chegada do almoço era uma celebração para o estômago e os olhos.
A fome corria em roncos nas barrigas, mas a boa e humilde refeição chegava para deliciar o melhor dos manjares com voracidade e gula. Não faltava a brincadeira dos companheiros que trocavam as marmitas, ou pegava emprestado o bife. Mas tudo para aliviar a vida dura e sentir parte de uma comunidade.
Havia aqueles que comiam nos cantos, pois sentiam vergonha da humildade que revelavam ao abrir a marmita. Mas o mais sensíveis compartilhavam os pedaços mais graúdos com amizade. Há quem carrega desse tempo às marcas deste sofrimento. Nós sabemos que ainda hoje muitos trabalhadores mais humildades ou por restrição médica fazem sua marmitas e vão vencer a vida.
Mas o que precisamos fixar é que nesta época que esconde na história, é que viveu uma geração que compartilhava a solidariedade e o companheirismo, que fortalece esta boa gente.
Danilo lembra ainda que havia entrega de marmitas atraves da bicicleta e no balaio que eram levados para os trabalhadores na Frimisa, Tecidos, Saboaria e outros estabelecimentos comerciais ou industriais.
Obrigado os transportadores de gente e alimentos – os motoristas Sr. Piaba, Bené, Mundico, Geraldinho -, as famílias e os trabalhadores que deixaram um rastro na história de dignidade e exemplo para a novas gerações através do ONIBUS DOS MARMITEIROS.
Obrigado por poder escrever esta singela homenagem a todos que construíram este caminho que entra na boca, toca o estômago, mas sobretudo alimenta o coração de bons sentimentos.

(*) Economista e Psicanalista
www.galvaoconsultoria.com.br – galvaoconsultoria@terra.com.br
31 de Dezembro de 2010

Por: ANTONIO DE

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