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O Passaporte De Cunha E O Impeachment

Não vou votar no Eduardo Cunha (pmdb). O chamo de o
chantageador‑geral da República.
Clarissa Garotinho
É claro que votei nele [Eduardo Cunha] porque a informa‑
ção que eu tinha é que ele era um lobista […]. Votei nele para
não ter um petista. Se eu tivesse o mínimo de informação do
que ele fazia…
Jarbas Vasconcelos
Correu que Eduardo Cunha teria usado seu passa‑
porte diplomático quando foi à Suíça abrir suas contas. A notícia
não foi confirmada. Pode até não ser verdade, mas faz sentido. Senon
è vero, è bene trovato. Um passaporte diplomático abre portas, corta
filas, garante tratamento vip, traz vantagens. É próprio do método
Cunha: caçar oportunidades para extrair rendas. Explorar o Estado
e os cargos para acumular bens e vantagens. Aproveitar qualquer
oportunidade. Na gestão da coisa pública tudo se aproveita, desde
que transformado em ganhos privados.
O processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff
é um exemplo acabado de seu método. A possibilidade está na agen‑
da desde o início do ano. O presidente da Câmara pegou carona no
movimento para seu proveito. Transformou‑o em sua salvação. É a
carta que mantém na manga, a ameaça que lhe garante a presunção da
inocência. Seu oportunismo não tem limites. Pagam todos. O gover‑
no está paralisado e é incapaz de recuperar a confiança do mercado. A
crise econômica persiste porque agravada pela crise política, que, por
sua vez, é alimentada por Cunha. Tudo pela sua salvação.
Cunha tem ideologia. Diz ser um conservador convicto. Como tal,
definiu sua prioridade: minar o poder do pt e o que ele representa.
[1] Agradeço a Andrea Freitas, Ronaldo
Almeida e Victor Araujo pelos
comentáriosa umaversão preliminar
do texto. Andrea Junqueira, Fernanda
Machado, Joyce Luz e Nathan Alvesajudaramcomo
levantamento do
material.
O PASSAPORTE DE CUNHA
E O IMPEACHMENT
Fernando Limongi1
opinião
A crônica de uma tragédia anunciada
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Cunha tem todo o direito de defender suas ideias. Ser contra o aborto,
o casamento entre pessoas do mesmo sexo e programas de redistri‑
buição de renda, defender a redução da maioridade penal etc. Tolerân‑
cia é a palavra‑chave para a democracia.
Cunha tem um projeto político. São essas as ideias que defende.
Deu impulso a essa agenda desde que ascendeu à liderança do pmdb
na Câmara. Colheu vitórias, cresceu. Passou a sonhar grande. Pouco se
sabe sobre suas ideias econômicas, mas seu antipetismo foi suficiente
para que fosse elevado a líder das “oposições unidas”.
Os erros estratégicos do pt e do governo contribuíram decisivamen‑
te para sua ascensão. E esses erros começaram a ocorrer no primeiro
mandato de Dilma. O principal deles foi não neutralizar o conflito entre
pt e pmdb no Rio de Janeiro, cujo epicentro foi a candidatura do sena‑
dor Lindbergh Farias ao governo do estado. Era a munição que Cunha
precisava; a prova de que a aliança pt‑pmdb não era para valer, que o seu
partido não era bem tratado por seu aliado. Confiando na aliança com o
pt, o pmdb teria o mesmo destino reservado pelo psdb ao pfl.
O pt pôs mais lenha no conflito ao apostar que poderia se livrar
do aliado indigesto criando um novo partido, o psd, uma espécie de
equivalente funcional do pmdb. Os estrategistas do governo ofere‑
ceram de bandeja as provas da insinceridade dos petistas que Cunha
necessitava.
Os erros e tentativas de criar uma alternativa a Cunha e ao pmdb
persistiram no segundo mandato. A disputa pela presidência da Câ‑
mara foi o primeiro episódio. O governo foi verdadeiramente humi‑
lhado por Cunha. As dificuldades persistiram e o Planalto passou a
buscar uma liderança alternativa no partido. Tentou Eliseu Padilha,
que recusou a função. Em retirada, teve que se valer do vice‑presidente
da República. Um acúmulo de erros, de fracassos.
A estratégia do Planalto deu errado: perdeu todas as vezes que con‑
frontou Cunha, o que só fez com que seu prestígio e força crescessem.
Teria sido melhor fazer um acordo, apoiar sua candidatura à presidên‑
cia da Câmara?
A estratégia de Cunha precisa ser levada em conta. O que ele quer
ou pede para apoiar o governo? Um acordo talvez não fosse possível.
Não é porque o deputado seja ideologicamente comprometido com a
oposição ao pt. O problema parece ser de outra natureza. Cunha sabe
como ninguém explorar conflitos a seu favor. Faz ameaças e obtém
concessões. Imediatamente, cria um novo conflito para fazer novas
ameaças e obter outras tantas concessões, recursos e cargos. Quer o
passaporte que lhe garanta a entrada franca ao que o Estado tem para
oferecer e explorar. Joga pesado. Blefa e obtém o que quer.
Por vezes, parece agir de forma irracional, contra seus próprios in‑
teresses, como fez usando o requerimento protocolado por Solange
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[2] Como se lê na denúncia apresentada
por Rodrigo Janot ao stf, o
ministro Lobão,ao receberaintima-
ção,teriaexclamado:“Isto écoisa do
Eduardo!”. Ato contínuo, telefonou
ao parlamentare disse:“Eduardo,estou
como JúlioCamargo aqui domeu
lado,vocêenlouqueceu?”.Cunhanão
perdeu arazão. Sabia o queestavafazendo.Obteveoquequeria;apropina
prometida voltou a irrigar suas contas.
Paraaíntegra da denúncia deJanot,ver
http://politica.estadao.com.
br/blogs/fausto-macedo/veja-adenuncia-de-janot-contra-eduardocunha/,consultado
em10/11/2015.
[3] “Cunha incluiu benefício em
mp suspeita” (http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,cunhaincluiu-beneficio-em-mp-suspeitaimp-,1789059,
consultado em
8/11/2015).
[4] Tornou-se comum afirmar que
o pt, por não saber dividir o poder
com seus aliados, implodiu as bases
do presidencialismo de coalizão. O
problema dessa tese é que a coalizão
operou normalmente sob Lula e
nos primeiros dois anos do governo
Dilma. A questão, portanto, é mais
limitada e diz respeito às dificuldades
inerentes ao acordo pt e pmdb.
Cunhaé umelemento central dessas
dificuldades,mas não é o único, porémestaé
outra história.
[5] http://www1.folha.uol.com.br/
poder/2014/11/1551973-cotadopara-presidir-a-camara-cunha-semantem-com-bancada-particular.
shtml,consultado em8/11/2015.
[6] Entrevistado pelo Valor Econômico,
o parlamentar confirmou a cifra,
mas fez questão de ressaltar que não
gastou todo esse dinheiro:“Mas eu
devolvi para o partidoR$600mil.Fiz
o cheque de volta”. Ver http://www.
valor.com.br/cultura/4060992/
politica-por-tras-da-reforma, consultado
em6/11/2015.
[7] Ver o perfil de Eduardo Cunha
traçado por LucianaNunes LealemO
Estado de S. Paulo, 11/2/2015, http://
politica.estadao.com.br/noticias/
geral,com-cunha-a-camara-sobas-maos-de-um-fiel-imp-,1632611,
consultado em3/11/2015.
[8] http://www.gazetadopovo.com.
br/vida-publica/aliados-de-cunhafazem-bolao-sobre-resultado-deAlmeida.
Ameaçou expor o esquema para garantir a sua parte. Pressio‑
nado, o ministro Edison Lobão ligou para o deputado e perguntou se
ele teria perdido a razão.2 Agiu da mesma forma na cpi na Petrobras
e está fazendo o mesmo com a ameaça de impeachment. O essencial
é salvar o seu. O resto que se lixe, incluindo a economia do país. Sua
pauta conservadora talvez seja apenas mais um meio de brandir ame‑
aças que valerão recursos para a Jesus.com.
Desde que ascendeu à liderança do pmdb, Cunha vem minando
as bases de operação do governo. Entrou em todas as portas abertas
e abriu as fechadas. Onde havia polêmica, lá estava o solerte líder do
pmdb. Criava confusão para vender solução. Relatou matérias impor‑
tantes e, sabemos hoje, foi o responsável por introduzir sorrateira‑
mente uma emenda que beneficiou montadoras.3
Cunha não deixou passar nada. Meteu sua colher em todas as ma‑
térias controversas, da Lei Geral da Copa ao Marco Civil da Internet.
Foi montando um poder paralelo, assumindo o controle do partido,
deixando Michel Temer à sua sombra. Durante o governo Lula e no
início do mandato de Dilma, o pmdb votou de forma disciplinada e
com o governo. Nos primeiros dez anos de governo petista, a taxa de
apoio do pmdb ao governo girou em torno de 80%. Embora comece
a cair já no segundo ano do governo Dilma, a taxa de apoio do partido
ao governo atinge seus níveis mais baixos sob a liderança de Cunha,
ficando em torno de 60%.4 Há, portanto, uma clara guinada no com‑
portamento do pmdb que está ligada, de forma direta ou indireta, à
ascensão do ativo líder carioca.
Nas eleições de 2014, dizia‑se à boca pequena que, já mirando a
presidência da Câmara, Cunha teria lançado seus tentáculos sobre to‑
dos os partidos, elegendo uma bancada própria.5 Contou com dinhei‑
ro a rodo — 6,8 milhões de reais, para ser exato.6 Empresas graúdas,
de peso, jogaram nele suas fichas, com contribuições generosas à sua
campanha: Bradesco, Santander, btg Pactual, a rede de shoppings
Iguatemi e a Líder Táxi Aéreo.7
Não há como saber como sua influência e os recursos pesaram
na eleição dos correligionários que viriam a elegê‑lo presidente da
Câmara. Em vista do que sua esposa gastou com supérfluos, dá para
imaginar o que foi reservado para o essencial… Com certeza, seus
aliados não tiveram problemas de caixa. Sobrou para jantares rega‑
dos a champanhe e lagostas para abastecer sua campanha à presi‑
dência da Câmara.8
Eleito em confronto aberto com o governo, Cunha passou a aca‑
lentar sonhos mais altos. Foi aí, se não antes, que seus desejos e os de
uma parte considerável do establishment se alinharam. Havia uma
nova liderança na praça, enfim um político disposto a confrontar
e derrotar o pt e que fora capaz de escancarar a vulnerabilidade da
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102 O PASSAPORTE DE CUNHA E O IMPEACHMENT ❙❙ Fernando Limongi
eleicao-na-camara-ejfsh3754jul-
5vkrhl7u0bary, consultado em
9/11/2015.
[9] http://politica.estadao.com.br/
noticias/geral,psdb-de-aecio-nevespede-auditoria-na-votacao,1585755,
consultado em6/11/2015.
[10] http://brasil.elpais.com/
brasil/2015/02/12/politi –
ca/1423779537_527646.html, consultado
em16/11/2015.
[11] http://acervo.folha.com.br/
fsp/2015/03/16/2//5984056,consultado
em17/11/2015.
[12] http://politica.estadao.com.br/
noticias/geral,corrupcao-e-fora-ptunificam-protestos,1651391,consultado
em6/11/2015.
presidente eleita. Por isso, passou a ser cortejado pelas oposições,
tanto pelas que levaram manifestantes às ruas como pelo psdb e
outros partidos da oposição.

O psdb, ainda em 2014, logo após a proclamação dos resultados
das eleições, deu mostras de que teria dificuldades de digerir a derrota
nas urnas. Aécio Neves veio a público e anunciou sua “descrença quan‑
to à confiabilidade da apuração dos votos e à infalibilidade da urna
eletrônica”. A fonte da desconfiança: rumores propagados pelas redes
sociais.9 A fantasiosa tese valeu um pedido de auditoria das urnas ao
tse. O ânimo dos tucanos, ou de parte deles, não poderia ter sido re‑
velado de forma mais clara. Lideranças políticas da oposição estavam
dispostas a embarcar em qualquer canoa, não importa quão furada,
para reverter a derrota eleitoral.
Setores ligados ao psdb voltaram a emitir sinais de sua disposição
à radicalização no início de 2015, quando juristas ligados ao partido
passam a estudar a possibilidade de propor o impeachment da presi‑
dente por improbidade administrativa em virtude de sua participação
na aprovação da compra da refinaria de Pasadena.10
Os sinais tucanos foram, contudo, tímidos quando compara‑
dos à força revelada por aliados insuspeitos: movimentos sociais
organizados à margem do sistema partidário. Em 15 de março,
multidões foram às ruas convocados por três grupos: Revoltados
On Line, Movimento Brasil Livre (mbl) e Vem Pra Rua. O Datafo‑
lha estimou em 210 mil os manifestantes em São Paulo, número
que garantiu ao ato o título de maior manifestação política pública
desde as Diretas Já.11
Na avaliação da manchete de O Estado de S. Paulo: “Corrupção e ‘Fora
pt’ unificam protestos”.12 Segundo o corpo da reportagem, a corrup‑
ção seria o “alvo da maioria absoluta dos manifestantes […]. Grande
parte pediu o impeachment de Dilma, mesmo sem saber muito bem
o que isso significa”.
O jornal avaliou corretamente o humor dos manifestantes; segun‑
do o Datafolha, em resposta múltipla e espontânea sobre sua motiva‑
ção para ir à avenida Paulista, 47% citaram a corrupção, enquanto 27%
citaram o impeachment. Difícil, contudo, sustentar que houvesse
desconhecimento quanto ao significado do impeachment, sobretudo
em público tão escolarizado. O Datafolha registrou que 76% dos ma‑
nifestantes tinham ensino superior completo.
Fundamental é que os próprios líderes do movimento estavam
divididos quanto ao ponto. Os mais radicais, os Revoltados On Line,
não pregavam o impeachment, mas sim a derrubada do governo. O
Vem Pra Rua, mais moderado e com alguma proximidade com o psdb,
rechaçava a tese, sob o argumento de que carecia de bases jurídicas.
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[13] “Grupos contra Dilma esperam
levar 100 mil às ruas no dia
15” (http://acervo.folha.com.br/
fsp/2015/03/09/2//5983306, consultado
em6/11/2013).
[14] “Oposição precisa ‘fazer seu
trabalho’ contra Dilma, diz líder de
protestos”(http://acervo.folha.com.
br/fsp/2015/03/31/2//5985945,
consultado em13/11/2015).
[15] “Grupos anti-Dilma agora
buscam ‘padrinhos’ para o
impeachment” (http://brasil.
elpais.com/brasil/2015/03/16/opinion/1426534645_626750.html,
consultado em18/11/2015).
[16] “Grupos testam força nas ruas
contra Dilma” (http://acervo.folha.
com.br/fsp/2015/04/12/2//5987059,
consultado em13/11/2015).
Somente o Movimento Brasil Livre apoiava o impeachment e fez do
pedido a sua principal bandeira.13
O mbl, fiel a seu radicalismo, não deu muita importância aos
motivos que justificariam o impeachment. Em suas declarações à
imprensa, não há uma menção sequer às razões a embasar o pedido.
O impeachment se justificaria pelo “conjunto da obra”. A prioridade,
como afirma um dos líderes do grupo, seria livrar o país da corrupção
perpetrada pelo pt. A do pt especificamente — e não a corrupção em
geral. Isso porque o partido, diferentemente dos demais, se valeria da
“corrupção para ferir a liberdade”. A corrupção do pmdb, esclarecia o
ativista, não apresentaria esse “viés perigoso”.
Mais importante que o motivo era o método empregado pelo mo‑
vimento. O mbl queria trazer o povo à rua para “forçar a oposição a
fazer seu trabalho”, uma pressão para que abandonassem a “posição
frouxa” em relação ao impeachment de Dilma.14 O movimento, por‑
tanto, não estava propondo uma aliança com o psdb e o dem, afinal,
não se faz acordo com “frouxos”…
Contudo, a despeito de rechaçar entendimentos e uma ação con‑
junta com os partidos de oposição, o mbl considerava uma apro‑
ximação estratégica com Eduardo Cunha, acreditando que poderia
convencê‑lo a encampar a ideia do impeachment. Logo após as ma‑
nifestações de março, Kim Kataguiri, um dos líderes do movimen‑
to, declarou a El País que um diálogo com o presidente da Câmara
poderia ser frutífero porque o “pmdb não tem uma ideologia firme,
depende muito de votos e atua de acordo com interesses políticos.
Ontem demonstramos que as ruas têm foco e fizemos a maior ma‑
nifestação da história do Brasil”.15
Tenha ou não obtido o “apadrinhamento” de Cunha, o mbl, ine‑
briado pelo sucesso da manifestação de março e fiel à sua estratégia
radical, chamou novas manifestações de rua para meados de abril. A
ideia era aproveitar o momento, pôr o povo nas ruas e arrancar dos
políticos o comprometimento com o impeachment já. Partiu para a
ação e reivindicou para si a liderança dos protestos de rua.
As divergências de objetivos e estratégias dos movimentos de
protesto vieram a público no dia das novas manifestações. Rogério
Chequer, líder do Vem Pra Rua, reclamou do comportamento pouco
cooperativo de seus companheiros: “Estamos buscando diálogo para
coordenação [dos protestos] com o mbl há semanas, mas não houve
resposta. Temos divergências, mas temos muitas causas em comum”.
Para Renan Santos, do mbl, Chequer “cada hora está com uma pauta.
No último protesto, todos vieram com a defesa do impeachment e eles
ajudaram a confundir a pauta”.16
A radicalização do mbl não surtiu os resultados esperados.
O movimento não mostrou a força de mobilização que acreditava ter.
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[17] “Fórmula de atos não teve
efeito esperado, diz líder anti-Dilma”
(http://acervo.folha.com.br/
fsp/2015/04/14/2//5987378,consultado
em16/11/2015).
[18] “Fórmula de atos não teve
efeito esperado, diz líder anti-Dilma”
(http://acervo.folha.com.br/
fsp/2015/04/14/2//5987378, consultado
em16/11/2015).
[19] “Para Aécio, atraso na CGU
é motivo para impeachment”
(http://acervo.folha.com.br/
fsp/2015/04/15/2/, consultado em
16/11/2015).
[20] “Dilma pode ser responsabilizada
por manobra fiscal, diz
ministro do tcu” (http://brasil.
elpais.com/brasil/2015/04/19/
politica/1429403452_609328.
html,consultado em 18/11/2015). As
motivações de Nardes para anunciar
seu voto pedem uma investigação à
parte. A Operação Zelotes, provavelmente,
está na raiz da conversão do
ministro a paladino da defesa daresponsabilidade
fiscal.
[21] http://www.valor.com.br/
politica/4059648/parecer-enco
mendado-por-aecio-sobre-impea
chment-de-dilma-e-inconclusivo,
consultado em17/11/2015.
[22] “Após recuo, grupos acusam
psdb detraição”(http://acervo.folha.
com.br/fsp/2015/05/22/2//5990756,
consultadoem17/11/2015).
A participação nos novos protestos ficou bem aquém da prevista. Pe‑
los cálculos do Datafolha, 100 mil teriam ido à avenida Paulista, me‑
nos da metade dos que teriam participado em março.
Os líderes do mbl reconhecem que sua estratégia falhara, mas não
se deram por vencidos. Reviram seus planos, mas se mantiveram no
ataque. Buscando novas formas de mobilização, organizaram uma
marcha de São Paulo a Brasília. Segundo a exposição didática de Re‑
nan Santos: “Como os atos não vêm tendo o endosso das siglas de
oposição, temos de dar o recado mais próximo deles. Não vai ter jeito
a não ser fazer em Brasília”.17
Os líderes do psdb reagiram de forma diversa à perda de força do
movimento de ruas. Para Fernando Henrique Cardoso, o momento
seria propício para que o partido se afastasse dos movimentos sociais
e arquivasse definitivamente a tese do impeachment. Aécio Neves,
de sua parte, propôs o movimento inverso, isto é, assumir o controle
dos movimentos sociais.18 Como sinal de aproximação, Aécio reviu
sua posição, afirmando que as recentes denúncias do diretor da sbm
Offshore justificariam um pedido de impeachment da presidente.19
Dividido, o psdb protelou sua decisão e recorreu a um parecer
de Miguel Reale Júnior, professor da Faculdade de Direito da usp e
ex‑ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso. O parecer foi
negativo. Reale Júnior não encontrou bases legais para sustentar um
pedido de impeachment. O parecer já contava com uma possível rejei‑
ção das contas de Dilma, mencionada pelo ministro Augusto Nardes
em reunião de empresários na Bahia.20 Para não capitular de todo, o
psdb propôs que as oposições encaminhassem uma ação penal con‑
tra a presidente na Procuradoria‑Geral da República. Na realidade, a
expectativa maior do partido era que as investigações da Operação
Lava Jato viessem a comprometer Dilma, fornecendo oportunamente
os elementos então ausentes.21
A reação dos movimentos sociais à decisão das lideranças tucanas
foi a esperada. Os Revoltados On Line e o mbl não mediram palavras:
“traidor” foi a palavra mais branda reservada a Aécio. O Vem Pra Rua
também se disse contrariado, mas mostrou compreensão, notando
que a pauta de protestos era mais ampla, que não poderia se resumir
ao impeachment.22
Poucos dias depois de o psdb anunciar sua capitulação, o mbl
concluía a sua “marcha sobre Brasília”. Os resultados da estratégia
foram pífios. O protesto se estendeu por pouco mais de um mês, mas
não atraiu mais do que algumas dezenas de militantes. Nem a impren‑
sa cobriu a longa caminhada. A Grande Marcha do mbl foi ignorada
pela população. Mesmo o clímax da manifestação, o encontro formal
com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para a entrega de um
pedido de impeachment, não obteve a repercussão esperada. José Ma‑
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[23] “Corrupção no futebol põe na
prisão ex-presidente da CBF e7 dirigentes”
(http://acervo.folha.com.br/
fsp/2015/05/28/2/, consultado em
18/11/2015).
[24] http://politica.estadao.com.br/
noticias/geral,cunha-rejeita-tese-deimpeachment-de-dilma-por-pedala
das-fiscais,1672754, consultado em
18/11/2015.
[25] https://pt.wikipedia.org/wiki/
Eduardo_Cunha, consultado em
18/11/2015.
ria Marin e a corrupção no futebol fizeram as manchetes dos princi‑
pais jornais e só a Folha de S.Paulo deu primeira página ao evento.23
A pressão popular sobre Brasília e seus políticos murchou.
Ao final de abril, o movimento pelo impeachment parecia ter en‑
contrado o fim.A tentativa do mbl de usar o povo na rua como pressão
sobre os políticos dera com os burros n’água. O psdb, depois de algu‑
ma hesitação, desistiu de disputar e controlar o movimento social an‑
ti‑pt, arquivou o impeachment e passou a aguardar os desdobramen‑
tos da Operação Lava Jato. Coube a Cunha ressuscitar o movimento.
Contudo, a tese do impeachment ganhou um novo aliado, Augus‑
to Nardes, ministro do tcu, que passou a acenar, sempre que possí‑
vel, com a rejeição das contas da presidente. A acusação genérica de
corrupção, ancorada em expectativas de que a Lava Jato traria provas
que comprometeriam Dilma, cedeu lugar a um fato concreto em que
ela estava envolvida. O movimento troca de foco: das falcatruas na Pe‑
trobras para o descaso com a Lei de Responsabilidade Fiscal. De um
protesto genérico, passou a uma questão específica. A possibilidade,
no entanto, quando levantada, foi vista como insuficiente tanto por
Reale Júnior como pelo próprio presidente da Câmara, que, no 14º Fó‑
rum de Comandatuba, respondendo diretamente a Nardes, rechaçou
terminantemente que as contas de Dilma poderiam levar ao impeach‑
ment, por duas razões: porque não teriam ocorrido no atual mandato
e porque o que estavam chamando de “pedaladas fiscais” “vem sendo
praticado nos últimos quinze anos sem nenhuma punição”.24 Pois é,
Cunha mudou de opinião. A partir de agosto, passaria a achar que Dil‑
ma merecia uma boa punição…
A carreira política de Eduardo Cunha deslanchou quando ele fez
uma contribuição inestimável à campanha de Fernando Collor de
Mello à presidência. O então tesoureiro do comitê eleitoral de Collor
no Rio de Janeiro achou os motivos que levaram à cassação do registro
do Partido Municipalista Brasileiro (pmb), pelo qual Silvio Santos
registrara sua candidatura à presidência. Foi Cunha quem notou que
o pmb não havia realizado o número de convenções estipuladas por lei
para obter seu registro definitivo.25Nada escapa aos olhos atentos do
político carioca. A diligência e a acuidade, que lhe valeram a saída do
anonimato em 1989, voltariam a ser úteis em 2015. O impeachment
da presidente Dilma estava no ar, era uma reivindicação das oposições
respaldada pelas ruas e com forte apoio do establishment. A oportu‑
nidade seria aproveitada em seu devido tempo.
Cunha começou seu reinado na Câmara querendo mostrar auto‑
nomia. O Poder Legislativo, sob sua liderança, recuperaria seu pro‑
tagonismo. Em lugar da subserviência tradicional aos caprichos do
governo, a Câmara passaria a definir com altivez e independência a sua
própria pauta. Atividade passou a ser o mote. Cunha enxotou a parali‑
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106 O PASSAPORTE DE CUNHA E O IMPEACHMENT ❙❙ Fernando Limongi
[26] “Governo frágil faz Câmara
bater recorde de votações”
(http://acervo.folha.com.br/
fsp/2015/04/05/2//5986488, consultadoem18/11/2015).Valenotarque
osdadosapresentadosnamatéria(inclusivenosinfográficos)desmentema
afirmação do título.O Congresso foi
maisativono primeiro governo Lula.
[27] http://acervo.folha.com.br/
fsp/2015/04/05/2//5986488, consultado
em18/11/2015.
sia e fez vender à opinião pública a imagem de uma Câmara hiperativa,
decidida, firme, com vontade própria. Posou de estadista. Enfim, uma
liderança com vontade política e capaz de dobrar o governo petista…
A imprensa não se cansou de enaltecer o ativismo e a indepen‑
dência conquistada pela Câmara dos Deputados. A Folha de S.Paulo
estampou em manchete: “Plenário da Casa aprovou o maior volume
de projetos dos últimos 20 anos”.26 De bravata em bravata, lá foi o
grande líder mostrar sua capacidade de liderança, aprovando a agenda
do Legislativo, longe do controle do governo.
Agenda do Legislativo? Mas qual agenda? A agenda conservadora?
A da austeridade fiscal? Quais, de fato, eram as propostas positivas de
Cunha? O que, de fato, a Câmara aprovou sob a solerte liderança do
deputado carioca? A reforma política?
Uma reforma profunda, pois não? Cunha sacou o distritão da algi‑
beira e passou a defendê‑lo aos quatro ventos como a solução para to‑
dos os males presentes, passados e futuros. Um estadista, um homem
de ideias. Os argumentos que apresentou em defesa da medida, seus
efeitos saneadores, são pífios e beiram o cinismo. O modelo seria bom
porque melhora a vida dos políticos, livra‑os das incertezas da compe‑
tição. Ou seja, o projeto visava dar maior segurança aos parlamentares,
garantindo‑lhes vantagens para obter a reeleição. A melhor lei eleitoral
seria aquela que faria a vida dos políticos mais simples e segura.
Mas o grande líder sequer emplacou o seu item predileto. Per‑
deu a mão, exagerou no “decisionismo”. Manobrou e arranhou o
regimento, destituindo o relator e impondo novo relatório. Foi der‑
rotado, mas não passou recibo. Continuou a vender a imagem de
reformador decidido.
A reforma política aprovada não passa de uma verdadeira colcha
de retalhos, um monstrengo sem pé nem cabeça. Na realidade, tudo
considerado, um verdadeiro retrocesso. Mas quem se importa? Im‑
porta agir, votar, bater recordes. O que mais resultou desse surto de
ativismo? De positivo, nada. Só cascas de banana para o governo.
O plenário da Câmara rejeitou boa parte das medidas propostas
pelo governo para estabilizar a economia, e a “opinião pública esclare‑
cida” bateu palmas. Importa derrotar o governo, mostrar a Dilma e ao
pt o seu lugar. A imprensa registrou, não sem certo júbilo, que sob o
comando de Cunha o “plenário aplicou derrotas diárias ao Palácio do
Planalto”.27 Em lugar de sublinhar a irresponsabilidade do arquiteto
das inúmeras revoltas do plenário, a ênfase recaiu sobre a fragilidade
do governo, sua incapacidade de governar, uma prova adicional da ne‑
cessidade imperiosa de se livrar do governo petista.
O fato é que as oposições — e oposições definidas em sentido
amplo, englobando não apenas os políticos, como também parte do
empresariado e da grande imprensa — viram em Cunha o líder capaz
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NOVOS ESTUDOS 103 ❙❙novembro 2015 107
[28] “Congresso recupera prestígio
entre eleitores” (http://acervo.folha.
com.br/fsp/2015/04/12/2//5987062,
consultado em 13/11/2015).Mais cuidadoso
queamanchete,o texto fala na
recuperaçãode“algumprestígio”.
[29] “Tudo sobre Impeachment”
(http://acervo.folha.com.br/
fsp/2015/04/12/2//5987069,consultadoem16/11/2015).
[30] “A revanche de Cunha”
(http://acervo.folha.com.br/
fsp/2015/04/12/2//5987053,consultado
em16/11/2015).
[31] http://www1.folha.uol.com.br/
fsp/poder/212157-corrupcao-estano-executivo-diz-cunha.shtml,consultado
em18/11/2015.
[32] “Registro eletrônico da Câmara
reforça suspeita contra Cunha”
(http://acervo.folha.uol.com.br/
fsp/2015/04/28/2//5988765, consultado
em18/11/2015).
de suplantar o pt. Em uma leitura generosa das tendências da opinião
pública, a Folha de S.Paulo chegou a afirmar que o Congresso teria caído
nas graças do público, que seu prestígio estaria crescendo. O exagero
é evidente, afinal, aqueles que consideraram a atuação do Congresso
ótima chegou apenas a 11%, contra 9% no mês anterior.28 A mudança
não é grande, e muito menos a porcentagem dos que aprovam, alta. A
porcentagem dos que consideravam o Congresso ruim ou péssimo
era de 44%. Note‑se que a matéria foi publicada em 12 de abril, dia dos
protestos de abril liderados pelo mbl. A manchete da página anterior
é significativa: “Tudo sobre Impeachment”.29 Duas páginas adiante, o
leitor encontrava uma página inteira dedicada a Eduardo Cunha, um
perfil simpático em que são listados os políticos que caíram tentando
barrar sua ascensão.30
Ao ser eleito presidente da Câmara, Cunha ganhou as credenciais
para liderar a oposição ao governo Dilma, passou a ser visto como a
alternativa que faltava. Foi incensado e cortejado. No dia seguinte às
manifestações de março, foi recebido para um café da manhã na Fiesp,
onde afirmou: “O pt não tem amigos, tem servos. Não tem adversá‑
rios, tem inimigos”, arrancando aplausos da plateia extasiada. Anima‑
do, não perdeu a oportunidade de fazer mais uma bravata: corrupção,
só no Executivo. E se algum legislador tivesse se envolvido em malfei‑
tos, a culpa, em última instância, deveria ser creditada ao Executivo, “à
falta de governança do Poder Executivo que permitiu que a corrupção
avançasse”. Os empresários presentes, uma vez mais, aplaudiram.31
Surfando no prestígio conquistado, Cunha começou a acalentar
sonhos para novos voos. Programou pronunciamento em rede nacio‑
nal de rádio e tv para dar notícia das suas realizações. Inspirou‑se
em Maluf e se disse responsável pela criação das sete maravilhas do
mundo, mas a maior parte do que festejou sequer havia passado pelo
Senado, incluindo a sua rota reforma política.
Em seu pronunciamento, o candidato a estadista teve dificuldades
evidentes para se entender com o teleprompter, talvez porque pro‑
blemas mais prementes e urgentes viessem merecendo sua atenção.
A Lava Jato ameaçava cortar seu voo.
Desde pelo menos abril, o presidente da Câmara estava ciente de
que as investigações comandadas pelo juiz Sérgio Moro o incomo‑
dariam. Não precisou de informantes ou de vazamento de notícias
para saber dos problemas que se avizinhavam. Soube pelo “oficial de
justiça” que visitou seu gabinete e o setor de informática da Câmara
para coletar provas que determinassem a verdadeira autoria do re‑
querimento apresentado pela deputada Solange Almeida. Conforme
noticiou a imprensa, o requerimento teria sido elaborado por Cunha
e “usado para pressionar pela manutenção do pagamento de propi‑
na ao pmdb”.32 Coincidência ou não, após o vazamento da notícia,
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108 O PASSAPORTE DE CUNHA E O IMPEACHMENT ❙❙ Fernando Limongi
[33] http://g1.globo.com/politica/
noticia/2015/04/eduardo-cunhademite-chefe-da-area-de-informa
tica-da-camara.html, consultado em
3/11/2015.
[34] Acena,dealtorvalorético emoral,
pode ser vista em https://www.
youtube.com/watch?v=jgnJPrJGXsk.
[35] Parte da entrevista pode ser
vista em https://www.youtube.com/
watch?v=6tdExUiwfU4.
[36] http://g1.globo.com/politica/
operacao-lava-jato/noticia/2015/10/
cpi-da-petrobras-gasta-r-15-milhaocom-viagens-e-contrato-com-kroll.
html,consultado em6/11/2015.
[37] http://politica.estadao.com.
br/noticias/geral,apos-divulgacaode-nomes–kroll-informa-quenao-celebrara-novo-contratocom-cpi,1743490,
consultado em
6/11/2015.
[38] “Para defesa de lobista, deputados
agem como gangue”
(http://acervo.estadao.com.br/
pagina/#!/20150731-44481-
nac-1-pri-a1-not, consultado em
6/11/2015).
[39] “Cunha: pmdb ‘finge’ que está
no governo e ‘eles também’”(http://
www.valor.com.br/politica/3981812/
cunha-pmdb-finge-que-esta-nogoverno-e-eles-tambem,consultado
em18/11/2015).
Cunha demitiu o chefe da área de informática da Câmara. Justificativa:
os funcionários sob seu comando não estariam cumprindo horário de
quarenta horas. O presidente da Câmara declarou ao portal G1: “Ele
quebrou minha confiança”.33
Ante a possibilidade de ser denunciado, Cunha recorreu à sua es‑
tratégia favorita. Partiu para o ataque. Aplicou seu método. Não titu‑
beou em recorrer à cpi da Petrobras para desacreditar os depoimentos
dos delatores que o incriminavam. Fez uso de todas as armas dispo‑
níveis. O doleiro Alberto Youssef disse à cpi que sua família estava
ameaçada e apontou o dedo para o lugar‑tenente das ameaças.34
A truculência da “turma do passaporte” não parou aí. A advogada
Beatriz Catta Preta também deu entrevista ao Jornal Nacional relatan‑
do as pressões recebidas.35 O autor do requerimento: Celso Pansera,
o mesmo deputado que trocara amabilidades com Youssef na cpi. A
advogada precisou da intervenção do stf para se safar da cpi e achou
por bem fechar seu escritório, deixar a profissão e ir morar em Miami.
As peripécias da cpi da Petrobras não pararam aí. A empresa de es‑
pionagem Kroll foi contratada para auxiliar nas investigações. O valor
do contrato (R$ 1,18 milhão), a forma ligeira como foi celebrado e as cre‑
denciais da firma levantaram suspeitas.36 A empresa encerrou seus ser‑
viços de forma rumorosa e obscura sem que suas contribuições para
as investigações viessem a público. Vazamentos à imprensa dão conta
de uma inversão completa de propósitos. Dos doze investigados pela
Kroll, nove seriam delatores da Lava Jato.37
A cpi da Petrobras foi usada pelos aliados de Cunha para desacre‑
ditar as investigações da Lava Jato. Era preciso desmoralizar os delato‑
res e as provas que apontavam para o deputado. Tudo feito às claras, de
forma direta e escancarada, sem qualquer sutileza. O advogado do lo‑
bista Júlio Camargo foi direto ao ponto: Cunha e seus aliados agiriam
com a “lógica de gangue”, tentando “desmoralizar a investigação”.38
Incapaz de “melar” as provas, Cunha foi forçado a rever seus pla‑
nos e voltou suas baterias contra o governo. Ao longo dos primeiros
meses de seu reinado na presidência da Câmara, manteve uma con‑
fortável e, digamos assim, rentável ambiguidade. Como resumiu em
entrevista no final de março, o pmdb, como recebera ministérios
insignificantes, fingia que apoiava o governo.39 Nem oposição, nem
governo, muito pelo contrário.
Cunha tinha faturas a receber dos dois lados do balcão, como
governo (ainda que considerasse pouco o que recebia) e como opo‑
sição. Mandava uma no cravo e outra na ferradura. Mas a Lava Jato
lhe tirou dessa posição confortável. A relação é direta: à medida
que se viu enredado pelas investigações, Cunha aumentou seu opo‑
sicionismo, contribuindo de forma decisiva para as dificuldades
enfrentadas pelo governo para aprovar o ajuste fiscal. O Planalto,
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NOVOS ESTUDOS 103 ❙❙novembro 2015 109
[40] http://acervo.estadao.com.br/
pagina/#!/20150718-44468-nac-1-
pri-a1-not,consultado em16/11/2015.
[41] Essas manchetes podem ser lidasem
http://g1.globo.com/politica/
blog/matheus-leitao/post/cunhaarma-novas-bombas-e-excluiu-ptdas-cpis-industria-despencajornais-de-quarta-5.html,
consultado
em4/11/2015.
[42] http://brasil.elpais.com/
brasil/2015/08/05/politica
/1438729893_927088.html, consultado
em15/11/2015.
[43] http://politica.estadao.com.br/
noticias/geral,cunha-rejeita-tese-deimpeachment-de-dilma-por-pedala
das-fiscais,1672754, consultado em
18/11/2015.
[44] “Câmara volta do recesso
com manobra de Cunha por impeachment”
(http://brasil.elpais.
com/brasil/2015/08/05/politica/
1438729893_927088.html,consultado
em18/11/2015).
obviamente, reagiu e procurou uma liderança alternativa para con‑
tar com o apoio do pmdb. Os candidatos cogitados recusaram a
missão, que sobrou para o vice‑presidente, o único em condições
de se contrapor a Cunha.
Em meados de julho, depois de longas escaramuças, o presiden‑
te da Câmara rompeu publicamente com o governo e se declarou em
oposição. Seria de esperar que uma divergência sobre uma medida, um
projeto de lei ou política justificassem o ato. Não com Cunha. Nada de
dourar a pílula. A razão dada foi direta: o governo estaria por trás das
denúncias contra ele. As manchetes dos principais jornais foram ex‑
plícitas em apontar as razões da opção política do nobre estadista, a
mais sucinta delas a de O Estado de S. Paulo: “Após denúncia de delator,
Cunha rompe com Planalto e autoriza cpis”.40
A partir de agosto, após a volta do recesso parlamentar, Cunha
reforçou seu ataque e passou a ameaçar o governo com uma “pau‑
ta‑bomba” e, sobretudo, com o impeachment. A sutileza foi a mesma
demonstrada na cpi da Petrobras. A imprensa registrou de forma ob‑
jetiva os rumos impostos pelo presidente da Câmara. As manchetes
dos principais jornais em 5 de agosto são exemplares: “Cunha isola pt
em cpis e manobra pelo impeachment” (O Estado de S. Paulo);“Cunha
e oposição discutem impeachment e isolam pt” (Folha de S.Paulo);
“Cunha prepara novas ‘bombas’ para o governo” (O Globo).41 O texto
mais sucinto e direto é o de El País: “Câmara volta do recesso com ma‑
nobra de Cunha por impeachment”.42
A operação foi posta em marcha dia seguinte: cinco prestações de
contas presidenciais pendentes, incluindo contas dos governos de
Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, paradas há anos e rele‑
gadas ao esquecimento, foram apreciadas em único dia. Cunha come‑
çou a abrir o caminho para apreciar a contabilidade do governo Dilma.
O impeachment da presidente saíra da agenda em finais de abril.
O movimento de rua perdera força, e o psdb arquivara a medida por
falta de embasamento jurídico. Cunha resgatou a ideia e, sem a menor
cerimônia, usou a ameaça ao mandato da presidência como sua arma
de defesa. Mais uma iniciativa com a marca registrada do seu método.
Em nenhum momento o presidente da Câmara procurou oferecer ra‑
zões para sua conversão ao novo credo.43
O psdb, dessa feita, não hesitou em aderir à reencarnação do mo‑
vimento pelo impeachment, colocando‑se sob a liderança de Cunha
desde o reinício dos trabalhos legislativos, em agosto. Conforme no‑
ticia a imprensa, líderes do partido participaram de reuniões noturnas
na residência oficial do presidente da Câmara, nas quais os passos
da manobra foram sendo urdidos.44 Ao se colocar sob a liderança de
Cunha, a oposição foi forçada a adaptar seu discurso. A corrupção per‑
deu ênfase, cedendo lugar à responsabilidade fiscal. Além disso, con‑
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110 O PASSAPORTE DE CUNHA E O IMPEACHMENT ❙❙ Fernando Limongi
[45] “Novos protestos mantêm Dilmasob
pressão;SPmobiliza135mil”
(http://acervo.folha.uol.com.br/
fsp/2015/08/17/2//5999135,consultado
em11/11/2015).
[46] “Líderesfazemplanosparamanter
pressão”(http://acervo.folha.uol.
com.br/fsp/2015/08/17/2//5999136,
consultado em18/11/2015).
[47] “MovimentoBrasilLivre:‘Dilma
deve cairaté o final do ano’”(http://
brasil.elpais.com/brasil/2015/08/14/
politica/1439580832_993126.html,
consultado em18/11/2015).
[48] http://www.bbc.com/portu
guese/noticias/2015/08/150814_
protestos_domingo_ms_cc,
consultado em18/11/2015.
[49] “Reações de Cunha inflam
o ‘fantasma’ sobre impeachment
de Dilma” (http://brasil.elpais.
com/brasil/2015/07/19/politica/
1437258217_017644.html,consultado
em15/11/2015).
venientemente, o psdb se esqueceu do conteúdo do parecer elabora‑
do por Reale Júnior.
Novas manifestações de rua, convocadas conjuntamente pelos
mesmos três movimentos responsáveis pelos atos de março, prome‑
teram renovar o respaldo popular ao movimento pró‑impeachment.
Os três grupos se coordenaram e investiram pesado, dedicando
tempo e esforços à preparação da manifestação. O resultado, a des‑
peito da festa e do congraçamento das ruas, foi decepcionante. O
número de manifestantes (135 mil na avenida Paulista, segundo o
Datafolha) ficou bem abaixo do de março e só um pouco acima do
registrado em abril.45
A operação impeachment tinha apoio popular, mas não seria o
povo nas ruas, pressionando os políticos, que faria a roda se mover.
Os líderes do Vem Pra Rua e do mbl não convocaram novos atos. So‑
mente os Revoltados On Line mantiveram a mobilização, convocando
nova manifestação para 7 de setembro.46 O movimento de rua, como
o psdb, passou o bastão para Eduardo Cunha, líder e artífice da ope‑
ração impeachment.
Dada sua recente aproximação com o governo, Renan Calheiros
foi tão execrado pelos manifestantes quanto Dilma. Cunha, poupado.
Em entrevista a El País, líderes do mbl explicaram as razões: “Tem
uma diferença fundamental entre o pt e o pmdb.O pmdb é um par‑
tido fisiológico, com vários casos de corrupção, que a gente deplora
obviamente. Mas o pmdb não é um partido como o pt, que se utiliza
da corrupção para subverter as instituições democráticas [e] expandir
seu projeto de poder”.47 A reportagem da bbc foi ao ponto: “O pee‑
medebista é visto como um aliado na implementação de um processo
de impeachment e por isso deve ser poupado no dia 16”. Marcello Reis,
líder dos Revoltados On Line, foi direto: “Todas as conversas que tive‑
mos com Cunha sempre foram pela apresentação do impeachment”.48
As relações entre o mbl e o presidente da Câmara se estreitaram
após o fracasso da Marcha sobre Brasília. Sem apoio das massas, os
líderes do movimento se convenceram de que só o pragmatismo do
peemedebista garantiria o sucesso da empreitada. Em julho, o parla‑
mentar postou em sua página do Facebook foto da cerimônia em que
aparecia recebendo o pedido de impeachment elaborado pelo mbl.
49
O sinal não poderia ser mais claro.
As manobras comandadas por Cunha não foram, contudo, sufi‑
cientes para deter as investigações. Apenas em 20 de agosto, o pro‑
curador‑geral Rodrigo Janot, depois de vencer a votação interna da
categoria e antes de ser confirmado pelo Senado, entregou ao stf a
denúncia contra o presidente da Câmara. A acusação, contudo, não
arranhou a aliança montada para ameaçar o governo com a perda do
mandato. Partidos de oposição, psdb e dem, e os movimentos so‑
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NOVOS ESTUDOS 103 ❙❙novembro 2015 111
[50] “Reações de Cunha inflam
o ‘fantasma’ sobre impeachment
de Dilma” (http://brasil.elpais.
com/brasil/2015/07/19/politica/
1437258217_017644.html,consultado
em15/11/2015).
ciais não alteraram suas prioridades. O impeachment de Dilma acima
de tudo. Como diz a propaganda: há coisas que não têm preço…
O gambito armado por Cunha deu e não deu resultados. Não deu
porque não deteve a denúncia de Janot. Deu porque a aliança com os
partidos de oposição lhe valeu a presunção da inocência. Cunha com‑
prou tempo. Rapidamente, as acusações contra ele foram esquecidas.
Todas as atenções se concentraram na operação impeachment sob seu
comando. A conivência com a operação foi muito além do psdb e dos
movimentos sociais anti‑pt. A imprensa colaborou. Solange Almeida
precisou se ausentar de Rio Bonito por um dia para ser deixada em paz.
E assim foi com todos os inúmeros detalhes contidos na peça de Janot.
Quem, por acaso, deixou de ler os jornais por uma semana ficou sem
saber que Cunha era o principal réu da Operação Lava Jato.
A Cunha bastou repetir que falaria no momento adequado e por
meio de seus advogados. Não foi pressionado ou confrontado com
perguntas inconvenientes. Não que tenha se escondido ou evitado
a imprensa. Pelo contrário, manteve sua loquacidade característica e
continuou a ser indagado literalmente sobre tudo o mais, em espe‑
cial sobre o andamento do processo de impeachment. Na realidade,
Cunha pôde seguir confortavelmente o script que traçara em finais
de julho, quando, segundo El País, dera início à análise do pedido de
impeachment “feito pelo mbl, que ficaria pronto em meados de agos‑
to”.50 Se o leitor perdeu a ironia, friso o ponto: em meados de julho,
Cunha iniciou a análise do pedido que seria protocolado apenas em
agosto. O pedido chegou só em setembro, assinado por Hélio Bicudo,
que, como a imprensa não se cansou de lembrar, fora um dos fundado‑
res do pt. Veio subscrito pelo mbl e por ninguém menos que Miguel
Reale Júnior, que, não é demais lembrar, a pedido do psdb, conside‑
rara a medida improcedente. A não ser que tenha me escapado, Reale
Júnior não precisou explicar o que o fez mudar de opinião.
O psdb se pôs a serviço de Cunha. Livrar‑se do pt antes das elei‑
ções de 2018 se tornou uma verdadeira obsessão. Mesmo os mais sen‑
satos, mesmo os que não abraçaram a tese do impeachment passaram
a pedir a renúncia de Dilma como um ato de grandeza, uma saída para
a crise. Como se a crise não tivesse sido causada pela estratégia orques‑
trada e comandada por Cunha com apoio do próprio psdb. Mesmo
diante da completa desmoralização do presidente da Câmara, após
suas defesas esfarrapadas, o psdb insistiu em lhe assegurar o amplo
direito de defesa. Abandonou o barco atabalhoadamente quando a
água chegava ao pescoço. Jurou que vai se emendar e que passará a agir
como uma oposição responsável e construtiva. A nova reviravolta veio
tarde. As consequências da aventura não serão apagadas rapidamente.
A crise política minou as bases para o sucesso de qualquer plano de
ajuste da economia.
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112 O PASSAPOrTE DE CUNHA E O ImPEACHmENT ❙❙ Fernando Limongi
O governo está paralisado e permanecerá paralisado enquanto pe‑
sar sobre ele a ameaça do impeachment. Já virou lugar‑comum dizer
que a crise econômica tem raízes políticas. O “mercado” não tem por
que confi ar em um governo que pode ser derrubado a qualquer mo‑
mento. A fatura não para de crescer.
Cunha continua a recorrer a seu método para sobreviver. Prova‑
velmente, nunca considerou dar andamento ao processo de impeach‑
ment. Sabe que derrubar Dilma não lhe garante a sobrevivência. Seu
problema não se resolve na alçada política, mas na criminal. Vai ter
que acertar contas com a justiça, independentemente de quem for o
presidente. Mas vai resistir enquanto puder. Pelo seu histórico, uma
coisa é certa: não vai se entregar enquanto tiver munição.
A raiz da crise tem nome, rg e cpf. Tem também conta na Suíça e
passaporte diplomático. A sua renúncia, não se lembraram de pedir.
Por quê?
Jarbas Vasconcelos votou em Cunha. Alegou desconhecer a fundo
o caráter do personagem. Tomou‑o por um simples lobista, um preço
que valia a pena pagar em nome de uma prioridade maior: derrotar o
pt. Descobriu que fez o pacto com o diabo.51 Teria feito melhor escolha
se tivesse ouvido quem partilhou da sua intimidade. Clarissa Garoti‑
nho previu com exatidão o que ia ocorrer.
PR.FRAZAO

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