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O Poder SimbÓlico E Suas ManifestaÇÕes Nas OrganizaÇÕes

Para iniciar o entendimento sobre as manifestações simbólicas do poder no ambiente organizacional, vale destacar alguns conceitos apresentados por Bourdieu (1989 p.09) onde menciona que “o poder simbólico é um poder de construção da realidade que tende a estabelecer uma ordem gnoseológica: o sentido imediato do mundo e em particular do mundo social”. Pode-se destacar que, no ambiente das organizações o poder se torna quase mágico, pois se posiciona de forma implícita, escondendo a força que o fundamenta. Impõe-se como legítimo por ser simbólico e a eficácia só é plena mediante seu reconhecimento e aceitação. Contudo, o conceito de Bourdieu se destaca nos dando a noção dos sistemas simbólicos, onde o poder por ele exercido serve para a construção da percepção da realidade que visa a estabelecer um sentido único para o mundo social, gerando, certa homogeneidade quanto à percepção do tempo, do espaço, motivações, dando sentido à vida em sociedade e possibilitando a harmonização das relações. (BOURDIEU, 1989)

Ao observar o ambiente organizacional, é possível perceber como as relações sociais, culturais e de trabalho se auto-cultuam e estandardizam as identidades individuais, muitas vezes sendo a única forma de sobrevivência na comunidade empresarial. Diante desse fato, é importante estabelecer um olhar mais crítico sobre conceitos aparentemente entendidos como verdadeiros e universais na área organizacional, entre eles pode-se citar a idéia da flexibilidade comportamental nas relações, a missão organizacional como o grande objetivo a ser perseguido por todos, crenças e valores que devem ser aprendidos e praticados e ainda a concepção do trabalho em equipe. Todas essas verdades consagradas e perseguidas pelas empresas, muitas vezes não passam de estratégias sutis utilizadas para exercer um poder simbólico que influenciam diretamente na forma como cada indivíduo estabelece seus vínculos com a organização.

Bourdieu (2001) revela a importância de elucidar as formas implícitas de dominação de classes nas sociedades capitalistas, defende a existência do poder simbólico, mediante o qual, as classes dominantes são beneficiárias por um capital simbólico que lhes possibilita exercer o poder. Para o autor, esses símbolos são instrumentos da integração social e tornam possível se obter o consenso acerca do sentido do mundo social o qual contribui fundamentalmente para a reprodução da ordem social dominante.

Percebe-se, nesse ponto, a presença da necessidade de legitimação do poder pelo outro para que seu exercício surta efeito. Para garantir a eficácia do poder simbólico exercido sobre os indivíduos, as organizações se utilizam de diferentes mecanismos, tais como o estabelecimento de tradições, histórias, hábitos, rituais, práticas, regras e ainda outras mais sofisticadas e subliminares envolvendo o processo de comunicação, o estabelecimento da hierarquia e suas formas de ascensão, a disposição dos ambientes, a disponibilidade de recursos e as formas de reconhecimento e valorização utilizadas pela empresa.

Ao contrário de outras formas de poder, a eficácia do poder simbólico ocorre mediante a subordinação objetiva e consciente daqueles que o reconhecem como verdadeiro e legítimo (BOURDIEU, 2001). Complementando o sentido de verdadeiro e legítimo, Foucault (1979), menciona que a verdade constitui um conjunto de procedimentos regulados para a circulação e funcionamento dos discursos e está ligada a sistemas de poder que a produzem e apóiam e a efeitos de poder que a reproduzem e são induzidos por ela. Logo se percebe que o ambiente organizacional encontra-se revestido de inúmeros processos que condicionam os indivíduos a uma postura de subordinação, aceitação e alienação, diante de verdades que representam produções simbólicas que de acordo com Bourdieu (2001) são instrumentos de dominação, pois auxiliam na integração das classes dominantes, distinguindo-as das demais através da legitimação da ordem e o estabelecimento de distinções hierárquicas.

Dessa forma, pode-se inferir que as organizações exercem forte poder sobre os indivíduos que dela fazem parte e de acordo com Bourdieu (2001) tal relação de poder pode ser entendida como violência simbólica. Diante do exposto e entendendo a violência como um conceito que considera não apenas a agressão física sobre um indivíduo ou grupo, pode-se dizer que:

Há violência quando, numa situação de interação, um ou vários atores agem de maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias pessoas em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses, ou em suas participações simbólicas e culturais MICHAUD, 1989, p.11).

Para o alinhamento do conceito de violência aqui representada juntamente aos conceitos apresentados por Bourdieu, é importante destacar que as manifestações da violência simbólica são resultantes de um processo de construção histórica que a torna legítima, dessa forma ela se manifesta de maneira simbólica, invisível, através das relações sociais e resulta de uma dominação, cujo reconhecimento e cumplicidade fazem dela uma violência simbólica e não arbitrária.(MICHAUD,1989)

A prática da violência simbólica por parte das organizações ocorre muitas vezes de forma velada, sendo difícil de ser identificada, contudo é possível percebê-la nas relações interpessoais, no estabelecimento da estrutura organizacional, na definição de papéis e tarefas, no estilo de liderança predominante, no processo de comunicação e tomada de decisão, bem como no sistema de remuneração e ascensão profissional. Conforme as organizações optam por estratégias que definem sua forma de atuação sobre os itens apresentados, o conceito de poder e violência simbólica se tornam cada vez mais visíveis.

* Trechos: “AS RELAÇÕES DE PODER E A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA NAS ORGANIZAÇÕES SEGUNDO PIERRE BOURDIEU”.

AUTOR:
Luciano Santana Pereira

Mestrado em Ciências Sociais; Graduado em Administração; Graduado em Gestão Comercial;
Pós-Graduado em Gestão de Pessoas e Desenvolvimento de Talentos; MBA em Estratégias Empresariais; Atua a mais de 14 anos na área Negócios e 8 anos na área de Gestão de Pessoas; Professor, Consultor em Gestão de Pessoas, Liderança e Desenvolvimento de Equipes. Atualmente é Coordenador do curso Gestão em Recursos Humanos pelo NEAD UniCesumar.

Site: www.atuacaoprofissional.com.br
E-mail: luciano@atuacaoprofissional.com.br

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