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O que aprendi sobre carreira, vulnerabilidade e autoconhecimento na Arena da Vida

carreira

Por Tatiana Trevisan, Executiva de RH com mais de 18 anos de experiência em grandes empresas multinacionais. Atua como Mentora de Carreira e Lideranças e como Consultora e Estrategista na Gestão de Marcas Pessoais

Se formos recorrer ao dicionário, a palavra “carreira” significa estrada, caminho. Carreira é a trajetória que você cria e desenvolve por meio da sua profissão.

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No entanto, a noção de carreira é relativa para cada um. Para muitos, pode estar associada aos dons e talentos, à obtenção de dinheiro, ao status.

Para mim, sempre esteve ligada à realização e à conquista, refletindo diretamente na autoestima – imagino que você possa se identificar com isso.

Por esse motivo compartilho, neste artigo, os principais insights e aprendizados da minha transição de carreira, de Gestora de RH para também Mentora e Consultora-Estrategista em Marca Pessoal.

Você vai ver como foi atravessar este processo sob a ótica de uma profissional de Recursos Humanos com mais de 16 anos de carreira em multinacionais.

Não tenho a pretensão de que meus aprendizados sejam também os seus, mas que sirvam para você pensar na sua caminhada.

Tenhamos em conta que, sempre que alguém muda a trajetória profissional, a identidade também se transforma. Esta mudança de identidade causa um estresse tão forte, que faz com que esse seja um evento raro nas carreiras.

De acordo com Veloso e Dutra, autores do livro Evolução do conceito de carreira e sua aplicação para a organização e para as pessoas (2010), a transição na carreira é um processo profundo, que não se restringe à mudança de função.

Mudar de função é mudar de roupa, e a transição na carreira é arrancar a pele e viver em carne viva, até uma nova pele recobrir nossas feridas”. Viver, afinal, é sobre rasgar-se e remendar-se.

Como tudo aconteceu

Eu trabalhava em uma multinacional, como Business Partner de RH. Dava suporte para mais de 70 líderes e gerenciava um time de cinco pessoas, com reporte para a estrutura global da empresa.

Até que a operação do Brasil foi vendida, e minha posição deixou de fazer sentido. Eu saí da companhia, poucos meses depois da perda da minha mãe.

O momento, por si só, já era de luto. E a perda do meu cargo foi a “cereja do bolo” daquele ano. Foi neste contexto que tive de parar e reavaliar a minha trajetória.

O processo de transição de carreira é um momento de olhar para dentro, se reconhecer e se conectar com seus propósitos. Se você não sabe quais são, essa é uma boa hora para descobrir. E foi o que eu fiz.

Nesta caminhada pela descoberta, muitas perguntas apareceram. Qual meu propósito enquanto profissional? O que me deixa feliz e realizada?

Perguntas cruciais para vislumbrar em qual direção a bússola estava apontando.

Quando o apelo por mudar a rota da trajetória profissional chega – geralmente sem ser convidado –, temos pouca ideia do que fazer, sem conseguir enxergar à frente com clareza. Pude perceber o quanto eu estava engessada nas soluções que já conhecia, o que significava, basicamente, seguir os mesmos caminhos.

No entanto, à medida que a vida vai passando, sempre há algo a mais para conhecer e aprender sobre nós mesmos: ver coisas novas, pensar diferente, aceitar as fragilidades, reconhecer fortalezas e poder dar foco nelas. Se eu me conheço, tenho a possibilidade de mudar aquilo que não me fortalece.

Sempre soube (por experiência própria e por todos os estudos sobre a mente humana que fiz ao longo da minha carreira) que o autoconhecimento permite encontrar as respostas certas para os questionamentos da vida.

Porém, este momento me ensinou algo maior: o autoconhecimento profundo é a base para trilhar um caminho de realização. E este foi o meu primeiro aprendizado.

Refazendo a rota da minha vida

refazendo toda a minha vida

Primeiro, descobri do que gostava. Para então, me dar conta de que não poderia vincular a minha carreira somente a uma determinada empresa.

Meu segundo aprendizado foi me ver como uma marca, que é a minha identidade profissional. Comecei a estudar sobre Personal Branding (Marca Pessoal) e descobri sua relevância na gestão de carreira e construção de reputação.

A gestão da sua marca pessoal é o seu legado, é como os outros lembram de você, através das suas ações, conhecimentos e relacionamentos.

A partir da clareza de quem você é e como agrega valor, é possível ser verdadeiro na mensagem e na experiência entregue, em todos os pontos de contato da sua marca.

Trata-se de gerenciar a sua reputação, sendo você mesmo. Com suas falhas, forças, personalidade e espontaneidade, é possível determinar o seu posicionamento e comunicar a sua promessa de valor. Na verdade, todos nós possuímos uma marca. Ela existe, mesmo quando não a cultivamos.

Tom Peters, renomado autor norte-americano, é considerado o responsável pela popularização do termo Personal Branding (Gestão da Marca Pessoal). No livro Brand You 50, Peters sugeriu que Personal Branding nada mais é que “pessoas que comercializam a si mesmas e suas carreiras como marcas”.

virada de chave

A virada de chave

Ao me encarar como marca, também comecei a enxergar o quanto as conexões são importantes numa ótica de ganha-ganha.

Nos momentos de fragilidade, em que estamos mais aptos a receber, é fundamental estabelecer relações de troca, de também doar.

Mesmo estando em uma posição vulnerável, você sempre terá algo a ensinar ou contribuir no âmbito profissional. Dentro de uma visão de marca, estabelecer relações de ganha-ganha é também um posicionamento.

Com este caminho trilhado, chegamos ao meu terceiro aprendizado: para transformar a carreira, é preciso também abrir o leque, refletir a respeito de possibilidades. Através do autoconhecimento e da gestão da marca pessoal, consegui ampliar o espectro de opções daquilo que eu poderia fazer.

Não tenha medo de buscar fontes de estudo e desenvolvimento profissional para se permitir atuar em outra frente. Sem muitas críticas, sem pensar na carreira como algo fixo.

Aliás, por que deveríamos engessar a carreira, se em escala global está acontecendo exatamente o contrário? Os jovens de hoje em dia terão mais de um ofício ao longo da vida.

No mercado como um todo, estamos vendo pessoas e empresas trabalhando numa linha mais humana e comportamental: menos planos perfeitos, mais ação e aprendizados.

Dito isso, encorajo você a abrir o leque. A Mentoria de Carreira e a Consultoria em Marca Pessoal foram os caminhos que busquei – ambos foram, também, ferramentas que me ajudaram na reinvenção profissional – e, neste ínterim, compreendi que era possível agregar a atividade de RH com o trabalho como Mentora e Personal Brander.

As opções de carreira deixaram de ser excludentes. Ao identificar alternativas e considerar possibilidades, vi que eu poderia abraçar as três coisas – Mundo Corporativo (RH), Mentoria e Consultoria em Marca Pessoal. Meu caminho se abriu, com mais opções de realização.

Quando eu estava pronta, as oportunidades surgiram. Mergulhar em um processo de autoconhecimento, revisão de prioridades e propósitos, assumir a própria transformação e incorporar aprendizados, foi o que tornou possível, para mim, escrever uma história nova, começar um novo capítulo realmente diferente.

Para que certas coisas aconteçam, é preciso passar por transformações que ocorrem internamente – vivenciar isso faz com que você cresça, conheça a sua essência, e adquira autonomia sobre a sua história e objetivos.

Esta é a base do meu quarto aprendizado: as coisas têm seu tempo para acontecer. De verdade!

Me considero uma pessoa flexível, que lida bem quando mudanças ocorrem dentro das empresas. No entanto, na minha vida pessoal, precisei fazer mudanças em mim mesma para conseguir enxergar o “meu tempo” em cada coisa.

Um ano após a perda da minha mãe, o meu pai faleceu, de forma abrupta, sem que eu pudesse me preparar. Passei a valorizar muito o tempo que estive com ele durante essa fase de transição – disponibilidade que eu não teria se, naquela época, estivesse diariamente em uma empresa.

Quando falamos em perdas, geralmente as coisas são tiradas de nós com muita rapidez. Seja uma pessoa, um trabalho, uma expectativa.

Ou então, há as perdas internas: gradativamente você perde a vontade de estar naquilo que faz há anos, ou não tem motivação na função que exerce.

Conforme a dimensão daquilo que foi perdido, não é no dia seguinte que você está pronto para virar a página. É preciso viver este momento de limbo, entre o que sua vida foi e o que se tornará.

O luto é um processo natural de resposta a uma quebra de vínculos significativos. E a vivência dele é o que leva a uma reconstrução e reorganização da vida. A partir do luto, os indivíduos podem se situar novamente no mundo.

Novas prioridades não nascem do dia para a noite

Por isso, rituais de despedida são tão importantes, seja de uma pessoa querida, seja de uma realidade que não faz mais sentido.

Muitas pessoas me disseram e, eu concordo, que hoje sou muito mais forte do que pensava que era. E a minha lição disso, é: temos que pensar em nós mesmos como uma pessoa única, muito além do lugar ou o cargo que ocupamos.

Afinal, a vida é feita de começos, finais, aceitações e recomeços. Não desista da pessoa que você quer se tornar.

Admitir nossa vulnerabilidade, pedir ajuda, fazer uma mentoria, coaching, terapia, é um grande passo. No entanto, não é fácil se mostrar vulnerável – julgamentos existem, e o primeiro julgamento é o nosso.

Mas o quanto estar neste lugar também nos permite ser mais feliz? Passei a valorizar minhas escolhas e a me permitir fazê-las. E o ápice, talvez, foi compreender que estas escolhas também não são definitivas.

A vida não é sobre metas, conquistas e linhas de chegada… é sobre quem você se torna nesta caminhada.

Sabia que tudo muda, quando você muda?

Para encerrar, deixo esta reflexão que me inspira muito, do Theodore Roosevelt:

Não é o crítico que importa; nem aquele que aponta onde foi que o homem tropeçou ou como o autor das façanhas poderia ter feito melhor. O crédito pertence ao homem que está por inteiro na arena da vida, cujo rosto está manchado de poeira, suor e sangue; (…) que, na melhor das hipóteses, conhece no final o triunfo da grande conquista e que, na pior, se fracassar, ao menos fracassa ousando grandemente.”

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Rodrigo Toledo
Rodrigo Toledo
3 meses atrás

Material muito interessante, numa linguagem fácil de entender. Parabéns à autora pelo texto. Inteligência Emocional e Capacidade de adaptação são chave para o sucesso na carreira.

Equipe RH Portal
Editor
Equipe RH Portal
2 meses atrás
Reply to  Rodrigo Toledo

Olá, Rodrigo. Ficamos muito felizes com o seu feedback.
Muito obrigada por ter lido o artigo e ter deixado o seu comentário.
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