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Origem Dos Produtos: Uma Questão De ética!

Estava eu passando em frente a uma loja de um determinado Shopping, quando me deparei com uma promoção imperdível. A loja ofertava um para de sapatos masculino, na cor e no modelo que eu precisava, pelo valor de R$70,00. Seguramente, sapatos daquele modelo não custariam menos que R$250,00. Aproximei-me, peguei os sapatos nas mãos, olhei-os com atenção e decidi experimentá-los. Fiquei satisfeito com o produto, comprei-os e fui embora, feliz por ter feito um ótimo negócio.
No caminho para minha residência, fiquei pensando no que tinha feito. E comecei a questionar-me sobre algumas coisas: Afinal, de onde vieram estes sapatos? Onde foram fabricados? Em que condições? Estas perguntas me perturbaram.
Verifiquei a caixa e a própria etiqueta dos sapatos, que, inclusive, era muito pequena e escondida, a qual revelou que o produto havia sido fabricado num país muito distante do nosso. Não era, portanto, um produto nacional. Na caixa, poucas informações sobre a empresa fabricante, tendo ali, somente algumas informações sobre o importador.
Perguntei-me então: e se estes sapatos foram produzidos numa fábrica qualquer, onde os trabalhadores trabalham mais de 15 horas por dia, sem tempo para descansar, em condições degradantes, sob uma supervisão severa que nem os deixe alimentar com tranquilidade? Num lugar onde os horários sejam controlados, inclusive, o tempo para ir ao banheiro? Onde haja riscos de acidentes, altas temperaturas, excesso de pessoas num pequeno ambiente e maquinário ultrapassado? Onde os trabalhadores ganhem menos de U$0,50 por hora? Onde não haja qualquer política de proteção ao meio ambiente? E se a fabricante for uma contumaz sonegadora de impostos? Onde, sobretudo, o ser humano seja considerado unicamente como um recurso que precisa ser explorado ao máximo para obtenção de lucros extorsivos? E se a resposta para todas estas minhas perguntas fosse sim?
Oras, se isso for verdade, então, quando comprei àqueles sapatos eu aceitei e concordei com tudo isso. Eu dei permissão para que esta forma desumana de conduzir os negócios continue, sem mudanças. E até motivei para que se torne um modelo para outros seguirem, pois, agir assim, certamente, dará muito mais lucro no curo prazo do que se investir em técnicas que preservem o meio ambiente, em ações sociais com a comunidade ou melhorias das condições de trabalho.
Muitos consumidores, e eu me incluo neste grupo, estão comprando produtos sem questionar de onde eles vêm e nem em que condições foram produzidos. Entendo que, quando agimos assim, poderemos estar sendo cúmplices de crimes contra a humanidade.
Mas, quem permite que mercadorias produzidas nestas condições cheguem até nós, são grandes responsáveis pela continuidade deste processo assombroso e tem que ser responsabilizado. Certamente, a primeira a ser condenada, deve ser a fabricante que, em qualquer lugar deste planeta, deveria agir sempre a favor e não contra a dignidade humana. É preciso, portanto, se criar um mecanismo confiável de informações para que o consumidor faça sua compra consciente.
Como não quero, nem de longe, dar força a um sistema antiético de produção, e tenho certeza que milhões de consumidores também não, creio que seria muito justo se tivéssemos conhecimento sobre a origem dos produtos que compramos. Deveríamos ter acesso às informações sobre: remuneração justa dos trabalhadores, carga horária de trabalho, segurança do trabalho, respeito e envolvimento da empresa com a comunidade, sua política de preservação ambiental, correto recolhimento dos tributos entre outras. Uma forma prática e, se possível, com baixo custo para o contratante, seria certificar a empresa fabricante por entidade de reconhecida credibilidade, de preferência, ligada à OIT – Organização Internacional do Trabalho, e ou, à ONU – Organização das Nações Unidas. Ou outra forma de certificação que comprovasse que o produtor estivesse agindo em sintonia com as aspirações humanas.
Enfim, nem de longe quero ser cúmplice de crimes cometidos contra seres humanos por conta de competição econômica ou de busca desenfreada por lucros. Muitos consumidores gostariam de ter estas informações para ter o direito de escolher. Afinal, como construiremos um mundo mais justo e humano se não sabemos sequer de onde vieram os nossos sapatos?

Adolfo Plínio Pereira é Mestre em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida. Professor Universitário de Graduação e Pós-Graduação, Consultor e Palestrante.
adolfoplinio@terra.com.br

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