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Pense Duas Vezes Antes De Dar Conselhos

Muitas pessoas são rápidas em dar conselhos porque não têm consciência das implicações desse gesto. Vamos usar o diálogo abaixo para tecer comentários sobre o tema. 

SITUAÇÃO 

Ronaldo encontra Solange, conhecida sua, e lhe diz:
― Vou me inscrever no vestibular de medicina da faculdade ABC.
Ao que Solange responde:
― Se eu fosse você, não gastaria tempo e dinheiro com isso. Esse vestibular é muito difícil
e concorrido.

COMENTÁRIOS 

Na resposta de Solange, percebe-se: a) uma avaliação implícita sobre o preparo de Ronaldo, isto é, uma comparação entre seu nível de preparo e o grau de dificuldade do vestibular da faculdade ABC; b) uma certeza: Ronaldo não tem preparo suficiente para enfrentar o vestibular em questão, daí o conselho para não se aventurar.

O fato de Solange aconselhar Ronaldo levanta algumas questões. Primeiro, por que ela aconselhou Ronaldo sem que este lhe tivesse pedido tal coisa? A questão é se uma pessoa tem o direito de dar conselhos a outra sempre que tiver vontade. No caso, pode-se argumentar que a intenção de Solange provavelmente foi ajudar Ronaldo. Mas as pessoas, às vezes, reagem rispidamente a um conselho, dizendo: “Ninguém pediu sua opinião!!!”. Por que as pessoas reagem dessa maneira? Talvez porque o conselho tenha ferido sua auto-estima. Muitas pessoas poderiam ver na recomendação de Solange uma mensagem implícita do tipo: “Você não tem competência para passar nesse vestibular”. Será que essas pessoas não se sentiriam feridas em sua auto-estima se recebessem o dito conselho?

Outro questionamento é como Solange pode estar certa de que Ronaldo fracassará. Para ter essa certeza, ela precisaria conhecer muito bem o nível de preparo dele. Será que Solange não deu o conselho baseada apenas no grau de dificuldade daquele vestibular, que ela parece conhecer bem, sem saber se Ronaldo está ou não preparado?

Uma terceira dúvida é se Solange tem o direito de avaliar o preparo de Ronaldo e dar-lhe feedback sem que ele tenha pedido. Será que um indivíduo tem sempre, em qualquer situação, o direito de avaliar a qualificação ou o desempenho do outro? O que se pergunta é se temos o direito natural de dar feedback, se nascemos com esse direito. Será que Solange não deu o feedback apenas para exibir seus conhecimentos sobre aquele vestibular, para se sentir importante ou superior, ou para menosprezar Ronaldo? 

Quarto, quando Solange diz a Ronaldo o que fazer, ela o está tratando como criança, como incapaz. Em outras palavras, Solange está sendo paternalista, ou melhor, maternalista. Ao dizer a Ronaldo o que fazer, Solange o está impedindo de crescer. Ela o está impedindo de aproveitar aquela oportunidade para desenvolver sua capacidade de analisar situações, de solucionar problemas e de tomar decisões. Em resumo, ela está impedindo que ele exercite a autonomia na condução de sua vida. 

Quinto, quando Solange aconselha Ronaldo, ela se torna moralmente responsável pelo que acontecer se Ronaldo seguir seu conselho. Se Ronaldo fizer o que Solange recomendou e for prejudicado, ou apenas se arrepender, ele não a culpará? Por outro lado, poderá ela dizer honestamente que não é responsável pelo prejuízo que Ronaldo sofreu? 

Alguém poderia argumentar que Ronaldo seguiu o conselho porque quis. Nessa mesma linha de raciocínio, porém, também se poderá contra-argumentar que Solange deu o conselho porque quis. Assim, uma vez que ela decidiu dá-lo, tem que arcar com as responsabilidades morais decorrentes de seu ato. Alegar, porém, que Solange deu o conselho porque quis significa adotar uma postura cínica que tenta renegar o próprio sentido do aconselhamento, pois ninguém dá um conselho esperando que a recomendação seja ignorada. No caso, Solange deu o conselho de livre e espontânea vontade esperando que Ronaldo o siga. Ronaldo, por sua vez, se seguir a recomendação, estará renunciando a seu próprio julgamento e adotando o julgamento de sua conselheira. Isto torna Solange solidariamente responsável pela decisão que Ronaldo tomar e pelas respectivas conseqüências. 

É arriscado dizer a uma pessoa adulta o que fazer. O que parece razoável é mostrar ao outro alternativas que talvez ele não tenha percebido, bem como os prós e contras de cada alternativa, e até outros modos de ver o problema. Isto significa ajudar a pessoa a raciocinar. Dizer, porém, qual alternativa o indivíduo deve escolher é coisa bem diferente, trata-se de uma séria responsabilidade. 

Outro aspecto a se comentar é a frase “Se eu fosse você …”. Para tanto, vamos partir da noção de empatia. Costuma-se definir empatia como a capacidade de se pôr no lugar do outro e de compreender como ele pensa e como se sente. A pessoa empática tenta entender os objetivos, os interesses, os sentimentos, os motivos e o modo de pensar da outra. Ser empático, portanto, leva tempo e dá trabalho. Para adquirir empatia é preciso conversar com a outra pessoa e fazer-lhe várias perguntas, apenas para compreendê-la, sem julgá-la. 

É difícil dar um conselho útil sem conhecer a pessoa que o receberá. Assim, se alguém quiser se arriscar a dar conselhos, apesar de toda a responsabilidade que isso traz, o conselheiro deveria antes tentar ser empático em relação à pessoa que será aconselhada. Ora, Solange disparou automaticamente um conselho a Ronaldo sem lhe fazer nenhuma pergunta. Assim, a menos que ela o conhecesse muito bem, deve-se concluir que a recomendação que ela fez foi baseada em sua própria maneira de ser, razão pela qual o conselho serve apenas para ela mesma e para mais ninguém. A postura de Solange foi não empática. Isto reduz drasticamente a possibilidade de o conselho ser útil, razão pela qual é provável que a recomendação seja rejeitada por Ronaldo. 

A frase “Se eu fosse você…” contém uma contradição, pois se eu fosse você eu não seria eu, eu seria você e agiria exatamente como você age. Em geral, a frase “Se eu fosse você…” indica que a pessoa que está aconselhando não se preocupou em ser empática. Por essa razão, provavelmente o conselho terá pouca utilidade. 

Moral da história: dadas as implicações desse gesto, é melhor pensar duas vezes antes de dar conselhos. 

*Flavio Farah, mestre em administração de empresas e professor universitário, é autor do livro “Ética na gestão de pessoas”. E-mail: farah@flaviofarah.com.

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