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As quatro maiores ‘fake news’ sobre pessoas com deficiência no mercado de trabalho

Falta de qualificação, impossibilidade de atuação, ausência de candidatos e desinteresse pelo trabalho são os argumentos mais recorrentes para justificar o não cumprimento da legislação

pessoas com deficiência

Embora já prevista na legislação federal por meio da Lei de Cotas há 30 anos (completados em julho deste ano), a reserva obrigatória de vagas para pessoas com deficiência criada para gerar a verdadeira inclusão ao trabalho ainda é encarada como desafio complexo para muitas empresas no país, sendo que 46,98% delas ainda não cumprem a Lei de Cotas.

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As barreiras que impedem essas empresas de aderirem à cultura de inclusão, geralmente ainda são atribuídas a mitos e ‘fake news’ que não se sustentam em dados oficiais, porém acabam sendo disseminadas, atrasando o processo de sensibilização do tema. Carolina Ignarra, CEO e fundadora da Talento Incluir, mostra onde estão as inconsistências dessas narrativas, quais são esses ‘mitos’ ou ‘fake news’ e detalha, ponto a ponto, suas respectivas contradições.

1. ‘Pessoas com deficiência não querem trabalhar’

É mito. Essa é uma das fake news mais recorrentes. A argumentação é que há ausência de candidatos com deficiência em busca de emprego, porque eles recebem benefício assistencial do governo e não querem trabalhar. Porém, os dados oficiais mostram que não é bem assim.

Estudo divulgado pelo Ministério do Trabalho, em 2016, comprova que mesmo excluindo as pessoas com deficiências leves e as que recebem o benefício assistencial, ainda temos 9,7 candidatos em idade laboral e aptos para cada vaga reservada pela Lei Federal 8.213/91.

Segundo a RAIS 2019 há 8,9 milhões de pessoas nesta situação, ao passo que apenas 371.913 mil são beneficiados pela reserva de vagas.

“Poderia ser quase o dobro de vagas oferecidas (701.424, conforme a própria RAIS), tendo em vista que ainda há um contingente enorme de empresas que não cumprem a legislação (46.98%)”, observa Carolina Ignarra, CEO da Talento Incluir – consultoria que já inseriu mais de 8 mil profissionais com deficiência no mercado de trabalho

2. ‘Nós divulgamos vagas, mas os candidatos com deficiência não aparecem’

Essa é uma frase bastante repetida por empresários e gestores quando questionados sobre o não cumprimento da legislação federal.

Segundo Carolina Ignarra, as empresas quase sempre tentam demonstrar seu suposto esforço, apresentando divulgação de vagas em jornais e outros meios. “Divulgar vagas nem sempre significa que esteja contratando.

Aliás, há muitas queixas de candidatos com deficiência que vão atrás destes anúncios para descobrir que a empresa, ou não está de fato contratando ou está buscando apenas candidatos com deficiências muito leves que não exijam nenhuma adaptação por parte da empregadora”, destaca.

Mais do que divulgar vagas, ela enfatiza que é preciso estudar o público que se quer contratar. “O sucesso nas buscas por profissionais está relacionado justamente ao entendimento dos seus hábitos para chegar a ele, seja por meio da mídia, seja por meio de outras estratégias de comunicação.

3. ‘Falta qualificação’

Um outro argumento largamente utilizado é a suposta falta de candidatos qualificados.

“É mais uma argumentação que não prospera, visto que o Censo 2010 do IBGE demonstra que se somarmos apenas as pessoas com deficiência de nível superior completo, teríamos quantidade suficiente para cumprir o dobro de toda reserva legal de cargos”.

Carolina informa ainda que as pessoas com deficiência que têm nível superior geralmente demoram mais para conquistar o emprego e recebem ofertas bem inferiores à sua qualificação profissional. “É justamente o contrário que costuma ocorrer”.

4. Impossibilidade de atuação

Algumas empresas alegam a impossibilidade de preenchimento da reserva legal em seu ramo empresarial.

Nesse caso, todo e qualquer argumento cai por terra a partir do momento em que se verifica a presença de pessoas com deficiência no ramo de frigoríficos, hospitais, universidades, indústrias, empresas de transporte, construção civil, vigilância, teleatendimento entre outros.

“Hoje em dia, há muitas empresas que cumprem sua função social por meio de sua reserva legal, nos mais variados segmentos, o que ajuda a descortinar esse tipo de narrativa. Há pessoas com deficiência trabalhando nas mais diferentes atividades, desde vigilante e teleoperador, a motorista de caminhão, gerentes de lojas, servente de obras e soldador”.

Para ela, o verdadeiro motivo que existe por trás da criação desses ‘mitos’ é a não compreensão da Lei de Cotas.

“Há uma série de resistências que ainda precisam ser trabalhadas. O caminho passa pela conscientização e sensibilização dos gestores, executivos e empresários. Esse é grande desafio dos próximos anos. O capacitismo e o preconceito ainda constroem e consolidam mecanismos que atrapalham a inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho”

Segundo a executiva, um dos grandes desafios do seu trabalho é justamente desmistificar narrativas que desabonam o propósito inclusivo da Lei de Cotas. “As tentativas de retrocesso sempre estão presentes e, na maioria das vezes, vem acompanhadas de argumentos baseados em informações falsas”, destaca Carolina Ignarra.

Cerca de 15% da população mundial (1 bilhão de pessoas) tem alguma deficiência. No Brasil, são 46 milhões de pessoas, segundo o último censo do IBGE (2010). Mais de 530 mil atuam no mercado formal, o que representa apenas 1,1% da classe trabalhadora – segundo a RAIS/2019, do Ministério da Economia.

“O mundo corporativo reflete o comportamento da sociedade com relação à inclusão, ainda contaminado por crenças limitantes que impedem uma inclusão mais produtiva. Inclusão é muito mais que contratar uma pessoa com deficiência. É construir um ambiente favorável para seu desenvolvimento, com plano de carreira estruturado na sua capacidade e talento e não na sua deficiência”, conclui Carolina Ignarra.

Para continuar na discussão e dar voz ao colaboradores nas organizações, leia nosso conteúdo com dicas essenciais para promover o bem-estar do colaborador.

Sobre Carolina Ignarra

Carolina Ignarra é CEO e fundadora da Talento Incluir, consultoria que já incluiu mais de 8 mil profissionais com deficiência no mercado de trabalho. Está entre as 20 mulheres mais poderosas do Brasil da revista Forbes em 2020. Em 2018 foi eleita a melhor profissional de Diversidade do Brasil, segundo a revista Veja da editora Abril. Desde 2004, atua em programas de implantação de cultura de Diversidade e Inclusão nas organizações e desenvolve a inclusão socioeconômica de profissionais com deficiência.

É palestrante em importantes congressos e eventos sobre o tema, como: HR Results, CBTD (Congresso Brasileiro de Treinamento e Desenvolvimento), RH Congresso e  autora dos livros: “INCLUSÃO – Conceitos, histórias e talentos das pessoas com deficiência” (disponível para download no site da Talento Incluir) e “Maria de Rodas – delícias e desafios na maternidade de mulheres cadeirantes”. É conselheira executiva da Integrare e mentora do programa “nós por elas” do IVG (Instituto Edna Vasselo Goldoni).

É cocriadora dos Jogos Cooperativos: “Em tempo” – que propõe a diversidade na prática; “Árvore da Diversidade” – que permite que aos participantes discutam diferentes temas e situações, na busca de soluções coletivas; e “Voo da Inclusão” – desenvolvido para fortalecer o conhecimento sobre atendimento às pessoas com deficiência.

Sobre a Talento Incluir

A Talento Incluir é um ecossistema de soluções focadas na Diversidade e Inclusão, pioneiro no Brasil,  com foco em pessoas com deficiência

Seu objetivo é promover equidade nas relações empresariais e sociais composto por negócios: Talento Incluir Consultoria: soluções focadas nos pilares de Conscientização, Contratação, Carreira e Acessibilidade e Consultoria Estratégica de Marketing e Comunicação; e o UinHub, primeiro e mais acessível marketplace do mundo para pessoas com deficiência.

Fundada em 2008, a Talento Incluir já inseriu no mercado de trabalho mais de 8 mil pessoas com deficiência, buscando sempre o desenvolvimento de carreira destes profissionais para que a inclusão aconteça de maneira profunda e verdadeira gerando impactos positivos na vida destas pessoas e na sociedade.

Em sua trajetória, aplicou Programas de Inclusão 360º para formar e fortalecer a cultura de inclusão em mais de 400 empresas de diversos setores em todo Brasil, como Mercado Livre, Syngenta, Gol, Carrefour, Grupo Boticário, Raia Drogasil, Bradesco, Tereos, PwC PricewaterhouseCoopers, GRU Airport, AccorHotels, Avanade, WhirlPool(Consul e Brastemp) entre outras.

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